As
pessoas falam com assistentes virtuais como se fossem amigos, confiam no GPS
mais do que na própria memória das ruas, e pedem que algoritmos escolham
músicas, filmes — e até o amor. A inteligência artificial deixou de ser ficção científica
para se tornar um tipo de espelho do humano, só que com menos sono e mais
dados.
No
escritório, ela corrige textos, prevê demandas, avalia desempenho. Nas escolas,
ajuda a fazer trabalhos e, paradoxalmente, ensina professores a lidar com
alunos que preferem perguntar a uma máquina. Há quem a veja como ameaça, outros
como libertação. Mas poucos percebem que o problema não está nela — está em
nós.
Afinal,
quando pedimos que uma máquina pense por nós, o que realmente estamos
entregando? Talvez não apenas tarefas, mas o exercício da dúvida, da hesitação,
da consciência. O perigo não é a IA se tornar humana, mas o humano se tornar
automático — movido por cliques, impulsos e respostas prontas.
O
filósofo Hans Jonas, em O Princípio Responsabilidade, advertia
que a técnica ampliou tanto o poder humano que a ética antiga já não basta.
Antes, nossas ações tinham alcance limitado; hoje, uma decisão tecnológica pode
afetar gerações. Por isso, Jonas propõe uma nova ética: agir de modo que as
consequências de nossas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida
autenticamente humana na Terra.
Aplicando
isso à inteligência artificial, a questão se inverte: não é “o que ela pode
fazer”, mas “o que nós devemos permitir que ela faça”. A responsabilidade recai
sobre o criador — e sobre cada usuário que, ao apertar um botão, transfere
parte da própria consciência a um sistema que não sente, não sofre e, portanto,
não se arrepende.
No
fundo, a consciência artificial é um teste da nossa própria humanidade. Se
formos éticos o bastante, ela será apenas uma extensão da nossa lucidez. Se
formos preguiçosos ou inconsequentes, ela se tornará o reflexo do nosso
descuido.
E
talvez o desafio mais filosófico de todos seja esse: continuar sendo humanos
em um mundo cada vez mais inteligente.
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