Pensar, falar e escrever: uma dança da consciência, da linguagem e da emoção
Vira
e mexe retomo o tema, cada tentativa de falar me parece ter uma mesma
dificuldade, entrar na expressão com sentido e se possível reunir tudo,
(pensar, falar e escrever) numa palavra só, a moda dos egípcios, não é fácil,
mas é saboroso pensar e escrever a respeito, então vamos lá saborear mais esta
tentativa. Em principio a palavra que talvez reúna isto tudo seja “expressão”,
uma palavra forte e carrega outras formas de demonstrar e externar o vai dentro
de nós.
A
tríade pensar, falar e escrever pode parecer, à primeira vista, uma
sequência simples: primeiro nasce o pensamento, depois ele é expresso na fala,
e finalmente fixado na escrita. Mas essa cadeia esconde uma complexidade
fascinante, onde corpo, linguagem e emoção se entrelaçam para revelar a
condição humana em sua plenitude.
Para
aprofundar essa reflexão, recorremos a dois filósofos centrais do século XX: Ludwig
Wittgenstein e Maurice Merleau-Ponty. Enquanto Merleau-Ponty nos
ajuda a compreender a dimensão encarnada e emocional do pensamento e da
expressão, Wittgenstein nos convida a pensar o funcionamento e os limites da
linguagem no mundo.
O
pensamento e seus limites: a visão de Wittgenstein
Em
seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein afirmou que “os limites
da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Para ele, o pensamento
é intrinsecamente ligado à linguagem — ou melhor, ao uso da linguagem. Não
existe um pensamento puramente separado da linguagem, pois pensar é, em grande
medida, articular sentidos e possibilidades dentro de um sistema linguístico.
Mas
Wittgenstein também nos adverte que nem tudo pode ser dito; há aspectos do
pensar que ficam “para além” das palavras — os sentimentos, as experiências
vividas, o que é mostrado, mas não pode ser explicado. Isso cria um espaço
entre pensar e falar, onde a emoção e a experiência pessoal são vividas, mas
nem sempre verbalizadas com precisão.
Falar:
o jogo da linguagem e a expressão
Wittgenstein
propõe que a linguagem é um “jogo”, com regras que variam conforme o contexto e
a prática social. Falar é, portanto, mais do que transmitir informações — é
participar de um jogo que dá sentido e valor às palavras. O falar transforma o
pensamento em algo público e compartilhado, mas sempre limitado pelo jogo de
regras, pela interpretação e pela intenção.
A
fala é um ato performativo, e a emoção permeia esse ato, colorindo o tom, o
ritmo e a força das palavras. Essa dimensão de vivência torna o falar uma ponte
entre o mundo interior do pensamento e o mundo exterior da comunicação.
Escrever:
a materialização do sentido e da subjetividade
A
escrita, por sua vez, é uma fixação da linguagem — uma forma de tornar
permanente o que na fala é efêmero. No entanto, essa fixação traz a
ambivalência de solidificar sentidos e, ao mesmo tempo, abrir espaços para
novas interpretações, pois a escrita existe para além do momento da criação,
sendo relida e ressignificada.
Merleau-Ponty
acrescenta que escrever é um gesto do corpo, um ato que contém emoção e
intenção, e que revela a subjetividade do autor mesmo nos traços das letras.
Merleau-Ponty
e a corporeidade da tríade
Para
Merleau-Ponty, pensar, falar e escrever são manifestações da consciência
encarnada — um corpo que sente, percebe e se expressa. Pensar é um processo
vivo, cheio de emoções e sensações que se manifestam no falar e no escrever,
unindo corpo e linguagem.
A
emoção, portanto, é o fio invisível que conecta pensar, falar e escrever, dando
vida e profundidade ao processo de comunicação.
Entre
limites e sentidos, o movimento da linguagem
Integrar
Wittgenstein e Merleau-Ponty nos ajuda a compreender que a tríade pensar, falar
e escrever é uma dinâmica complexa, onde:
- O pensamento é tanto possível quanto
limitado pela linguagem (Wittgenstein).
- A fala é um jogo de sentidos permeado
pela emoção e pelo corpo (Wittgenstein e Merleau-Ponty).
- A escrita é a materialização da
subjetividade e do fluxo emocional da consciência (Merleau-Ponty).
Desenhar
essa tríade é tentar capturar um movimento que é interior e exterior, um gesto
de criação que nos conecta a nós mesmos e aos outros, numa dança contínua entre
o que se pode dizer e o que permanece para além da palavra.
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