O que fazemos com o que nos paralisa
Tem
dias em que a gente acorda com medo e nem sabe bem do quê. Medo de sair de
casa, medo de falar o que pensa, medo de que descubram quem a gente é de
verdade. Às vezes o medo se esconde atrás de um aperto no peito, às vezes grita
por socorro num silêncio desconfortável. Nem sempre sabemos dar nome a ele, mas
sentimos. E sentimos muito. E talvez o mais curioso seja isso: mesmo sendo tão
íntimo, o medo é também uma construção social. Vamos olhar para ele com calma?
Desde
o nascimento, carregamos dois medos que não nos foram ensinados: o medo de
alturas e o medo de sons altos. Eles não dependem da cultura, da família ou da
experiência — são respostas instintivas, enraizadas em nossa biologia como
mecanismos de autopreservação. O medo de cair protege o corpo antes mesmo de
sabermos andar, enquanto o susto diante de um barulho repentino alerta o
sistema nervoso para um possível perigo iminente. Esses dois medos, simples e
primitivos, são como sensores de sobrevivência herdados de nossos ancestrais.
Todo o resto — medo de escuro, de errar, de ser rejeitado ou de não dar conta
da vida — aprendemos depois, à medida que crescemos, nos relacionamos e somos
atravessados pelo mundo.
Na
perspectiva filosófica, o medo já foi pensado como algo que define o ser
humano. Para Heidegger, o medo é um dos modos de manifestação da
angústia – aquele sentimento que surge quando percebemos que estamos lançados
num mundo imprevisível, sem manual de instruções. O medo, nesse sentido, revela
nossa fragilidade diante da liberdade e da responsabilidade de existir. Tememos
porque somos conscientes. E ao mesmo tempo em que isso nos limita, também nos
torna capazes de criar, imaginar, projetar futuros.
Mas
não vivemos sozinhos. A sociedade em que estamos imersos molda o que devemos
temer e o que devemos ignorar. Michel Foucault nos ajuda a entender como
os medos são fabricados e administrados como forma de controle. Medo da doença,
medo do crime, medo do outro. Esses medos não surgem do nada — eles são
organizados, disseminados por discursos, fortalecidos por instituições, servindo
muitas vezes para justificar políticas, exclusões e vigilâncias. O medo, aqui,
não é apenas uma emoção: é uma ferramenta.
E
o mais interessante é que os medos se adaptam. Em tempos digitais, tememos o
cancelamento mais do que o castigo físico. O julgamento passou das praças
públicas para as timelines. O medo contemporâneo está cada vez mais
psicológico, simbólico e veloz. É um medo de ser visto de maneira errada, ou
pior, de não ser visto. Uma espécie de pânico do esquecimento. E isso
transforma nossos comportamentos, nossas relações, nossas escolhas.
Entender
o medo é também entender como ele nos movimenta. Ele nos protege, sim, mas
também pode nos paralisar. A inovação sociológica aqui talvez seja pensar o
medo como um contrato: um acordo tácito entre indivíduo e sociedade sobre os
limites do possível e do desejável. Um acordo que pode ser rompido. Quando
passamos a examinar nossos medos — de onde vieram, quem os alimenta, a quem
eles servem — abrimos uma fresta de liberdade. Podemos começar a transformá-los
em coragem, em crítica, em movimento.
No
fim das contas, talvez não se trate de vencer o medo, mas de saber o que fazer
com ele. Porque se o medo nos pertence, que ao menos possamos escolher o que
fazer com esse inquilino que habita nossas entranhas.
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