Outro dia, numa conversa despretensiosa, alguém comentou: “Fulano sempre está sorrindo, nem parece que tem depressão.” A frase ficou ecoando na minha cabeça. Desde quando a tristeza precisa ser óbvia? Desde quando a dor psíquica precisa se apresentar de maneira transparente? Se há algo que a sociedade moderna ensinou bem é o talento para disfarçar. E poucos sentimentos se camuflam tão bem quanto a depressão.
A
depressão não anda por aí com um cartaz dizendo: “Ei, estou aqui.” Pelo
contrário, ela se esconde, se mascara, se dilui nas exigências do cotidiano. Às
vezes, veste o rosto da produtividade extrema — a pessoa que faz tudo, que
nunca para, que está sempre disponível. Outras vezes, assume a forma da ironia
— aquele humor ácido que disfarça um cansaço existencial profundo. Pode ainda
aparecer como sociabilidade forçada — o riso alto na festa, as redes sociais
cheias de registros de felicidade encenada.
Nietzsche
dizia que “todo profundo espírito precisa de uma máscara.” Talvez a depressão
tenha compreendido essa lição melhor do que ninguém. A necessidade de esconder
a dor não é apenas individual, mas social. Vivemos em tempos onde a felicidade
virou um dever, um produto de marketing. Se a infelicidade aparece, ela precisa
ser logo justificada ou eliminada. Então, quem sente a tristeza persistente
aprende a vesti-la com outra face, para que ninguém perceba.
Mas
há um custo nisso tudo. A máscara, que em um primeiro momento parece proteger,
pode se tornar uma prisão. Quem passa a vida disfarçando a dor, corre o risco
de esquecer que é possível falar sobre ela, tratá-la, encará-la de frente. Em
algum momento, as máscaras precisam cair — nem que seja em um ambiente seguro,
diante de alguém que realmente escuta. Afinal, como disse Simone Weil,
“a verdade é a necessidade mais profunda da alma humana.”
E
talvez essa seja a grande ironia: para encontrar alívio, é preciso primeiro
deixar de fingir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário