Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador pricípio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pricípio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Como Amigos


As pessoas falam com assistentes virtuais como se fossem amigos, confiam no GPS mais do que na própria memória das ruas, e pedem que algoritmos escolham músicas, filmes — e até o amor. A inteligência artificial deixou de ser ficção científica para se tornar um tipo de espelho do humano, só que com menos sono e mais dados.

No escritório, ela corrige textos, prevê demandas, avalia desempenho. Nas escolas, ajuda a fazer trabalhos e, paradoxalmente, ensina professores a lidar com alunos que preferem perguntar a uma máquina. Há quem a veja como ameaça, outros como libertação. Mas poucos percebem que o problema não está nela — está em nós.

Afinal, quando pedimos que uma máquina pense por nós, o que realmente estamos entregando? Talvez não apenas tarefas, mas o exercício da dúvida, da hesitação, da consciência. O perigo não é a IA se tornar humana, mas o humano se tornar automático — movido por cliques, impulsos e respostas prontas.

O filósofo Hans Jonas, em O Princípio Responsabilidade, advertia que a técnica ampliou tanto o poder humano que a ética antiga já não basta. Antes, nossas ações tinham alcance limitado; hoje, uma decisão tecnológica pode afetar gerações. Por isso, Jonas propõe uma nova ética: agir de modo que as consequências de nossas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra.

Aplicando isso à inteligência artificial, a questão se inverte: não é “o que ela pode fazer”, mas “o que nós devemos permitir que ela faça”. A responsabilidade recai sobre o criador — e sobre cada usuário que, ao apertar um botão, transfere parte da própria consciência a um sistema que não sente, não sofre e, portanto, não se arrepende.

No fundo, a consciência artificial é um teste da nossa própria humanidade. Se formos éticos o bastante, ela será apenas uma extensão da nossa lucidez. Se formos preguiçosos ou inconsequentes, ela se tornará o reflexo do nosso descuido.

E talvez o desafio mais filosófico de todos seja esse: continuar sendo humanos em um mundo cada vez mais inteligente.