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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Negação da Existência

Sobre o Abismo do Ser

Outro dia, enquanto esperava meu café esfriar, fui surpreendido por uma pergunta que me veio como uma mosca irritante: “E se tudo isso não passar de um grande nada?” Olhei ao redor, vi as pessoas apressadas, os carros buzinando, o barista distraído com o celular. Parecia tudo tão sólido, tão presente. Mas havia uma brecha entre essas cenas cotidianas que deixava espaço para a dúvida: o que sustenta nossa existência? E, mais ainda, o que significa negá-la?

A negação da existência não é só uma provocação filosófica; é uma janela para um questionamento profundo sobre o que somos e como nos situamos no mundo. Essa ideia, tão antiga quanto as primeiras reflexões humanas, encontra ecos em pensadores como Parmênides, que acreditava na impossibilidade do “não-ser,” e em Sartre, que via o nada como parte integrante do ser. Mas, no dia a dia, como lidamos com esse abismo que pode, às vezes, nos fazer sentir que tudo é um vazio sem sentido?

O Nada Como Fundamento

Quando falamos em negar a existência, não se trata apenas de dizer "nada existe" em termos absolutos. Há nuances. A negação pode ser um refúgio diante da complexidade da vida, uma recusa em aceitar o peso de ser. Friedrich Nietzsche tocou nesse ponto ao falar do niilismo, essa negação profunda que surge quando perdemos os fundamentos que sustentam nosso sentido de realidade. Quando nada importa, qualquer coisa se torna suportável — ou insuportável.

No cotidiano, é fácil perceber traços dessa postura. Pense em quem evita compromissos, projetos ou relacionamentos, dizendo “nada disso faz diferença.” Essa negação, disfarçada de indiferença, pode ser uma forma de autoproteção, mas também um abismo que engole possibilidades. Talvez a negação da existência não seja um afastamento do mundo, mas uma forma de encará-lo de frente, questionando seus alicerces.

O Contraponto da Filosofia

É curioso como a filosofia, mesmo lidando com ideias tão desconcertantes, não busca destruir o sentido, mas ampliá-lo. Simone de Beauvoir, em Por uma Moral da Ambiguidade, argumenta que negar a existência pode ser uma escolha válida, mas que aceitar a complexidade do ser é mais corajoso. A vida, com todas as suas contradições, é um palco de possibilidades. Negá-la completamente seria como assistir a um filme de olhos fechados: o movimento está ali, mas a experiência se perde.

Para Beauvoir, a negação total é uma forma de abdicar da liberdade. Ao negar o mundo, negamos também a nós mesmos, nossos desejos e nossa capacidade de transformar. A aceitação, por outro lado, é uma afirmação do potencial humano. O desafio está em encontrar um equilíbrio entre encarar o nada e reconhecer o que emerge dele.

A Negação no Dia a Dia

Voltando ao café frio e ao barista distraído, percebo como essa reflexão ecoa nas pequenas coisas. Quantas vezes nos desconectamos do momento presente, negando sua existência? No fundo, talvez a negação não seja a ausência do ser, mas uma forma de evitá-lo. É mais fácil negar que nos importamos do que admitir o medo de sofrer, mais simples fingir que algo não existe do que lidar com sua complexidade.

Ainda assim, há beleza em enfrentar essa negação. Como escreveu Clarice Lispector, “o que me importa é o mistério das coisas.” Negar pode ser um ponto de partida para reconhecer o mistério e, quem sabe, encontrar sentido onde menos esperamos.

A negação da existência não é apenas um conceito abstrato, mas uma postura que, em algum momento, todos assumimos diante da vida. Ela nos desafia a repensar o que é real, o que é importante e como navegamos pelas incertezas do ser. Negar pode ser um escape, mas também uma oportunidade. Afinal, como diria Sartre, é no vazio que encontramos a liberdade de preencher o mundo com significado.


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