O esgotamento invisível da mente
Outro
dia, sentado num café, percebi que quase ninguém olhava para o próprio café. As
pessoas estavam ali, mas suas mentes pareciam flutuar em outro lugar, perdidas
em notificações, pensamentos fragmentados, urgências silenciosas. Ninguém
gritava, ninguém brigava — mas havia uma espécie de violência pairando
no ar. Uma violência sem sangue, sem ruído, quase doce: a violência de estar sempre
ligado.
Byung-Chul
Han,
o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, chama isso de “violência
neural” — uma forma de agressão que não vem de fora, mas de dentro. É a
violência da autoexploração, do excesso de positividade, da cobrança
constante por desempenho. Vivemos, segundo ele, numa era em que o poder já não
precisa oprimir com força: basta induzir o sujeito a se autoexplorar,
acreditando que é livre.
Essa
é a ironia trágica: o trabalhador contemporâneo não tem mais um patrão de
chicote na mão — ele é o próprio patrão e o próprio escravo. O cansaço,
a ansiedade e a exaustão que carregamos não vêm mais de um inimigo externo, mas
da nossa própria mente que não consegue parar.
Han
observa que saímos da “sociedade disciplinar”, descrita por Foucault — onde o
poder se exercia por meio de proibições, deveres e castigos — e entramos na sociedade
do desempenho, onde tudo se resume a “poder fazer mais”. Mas esse “poder”
virou um dever mascarado. O sujeito acredita que está se realizando, quando na
verdade está se consumindo. A positividade virou uma espécie de violência
invisível: sorrimos enquanto adoecemos.
No
cotidiano, essa lógica aparece nas pequenas coisas. Acordamos e a primeira luz
que toca o rosto é a do celular. Antes mesmo de levantar da cama, já
respondemos mensagens, conferimos e-mails e deslizamos o dedo por notícias e
conteúdos que não escolhemos de fato. O corpo ainda está no quarto, mas a mente
já foi sequestrada pelo fluxo ininterrupto de informações. A cada toque, uma
descarga de dopamina — e um pouco mais de cansaço.
As
redes sociais tornaram-se o grande palco dessa violência. Nelas, todos se
transformam em pequenas marcas pessoais, vendendo versões editadas de si
mesmos. O sujeito não se expressa mais: se expõe. A fronteira entre vida
e performance desapareceu. A ansiedade de ser visto, curtido, compartilhado
cria um tipo de vigilância sem vigia — o olhar do outro está sempre presente,
mesmo quando não há ninguém por perto.
E
o mais curioso é que ninguém nos obriga a isso. Não há coerção externa, apenas
uma sedução interna: queremos participar, queremos pertencer, queremos
ser reconhecidos. Como diria Han, é um poder que não reprime, mas estimula.
E é justamente isso que o torna tão eficaz.
No
ambiente de trabalho, a violência neural assume formas ainda mais sofisticadas.
O antigo controle do relógio de ponto deu lugar ao culto da produtividade. Já
não basta cumprir o expediente: é preciso render, inovar, aprender
continuamente. O descanso virou uma ameaça à eficiência. Mesmo fora do
horário de trabalho, as pessoas continuam conectadas, respondendo mensagens,
planejando entregas, antecipando problemas. O tempo livre se dissolveu na
lógica da performance.
Há
uma cena recorrente que traduz bem essa sensação: o trabalhador que, à noite,
deita exausto e sente culpa por não ter feito mais. Ele não sofreu nenhuma
opressão externa — apenas acreditou que poderia ter sido mais produtivo. O
fracasso agora é vivido como falha pessoal, não como sintoma de um sistema.
Han
chama isso de “autoexploração voluntária”. O sujeito acredita que é autônomo,
mas vive preso a um imperativo silencioso: faça mais, mostre mais, seja mais.
Essa crença gera o que ele denomina cansaço patológico — um esgotamento
que não é físico, mas mental e espiritual. O cérebro, sobrecarregado de
estímulos, perde a capacidade de se aquietar.
A
consequência é uma epidemia de sofrimento invisível. Depressão, burnout,
ansiedade e distúrbios de atenção não são apenas doenças individuais — são
sintomas sociais. São expressões de uma estrutura que nos obriga a estar sempre
ativos, sempre disponíveis, sempre performando. A violência neural é, portanto,
a face psíquica de um sistema que descobriu como explorar sem precisar mandar.
A
cada nova tecnologia, acreditamos ganhar tempo — mas, na verdade, perdemos
tempo de qualidade. Ganhamos velocidade e perdemos profundidade. Vivemos num
presente fragmentado, feito de microinterações, microrecompensas e
microfrustrações.
Han
sugere que o antídoto não está na resistência agressiva, mas na contemplação.
Recuperar a capacidade de estar em silêncio, de suportar o tédio, de habitar o
próprio tempo sem culpa. Em A Sociedade do Cansaço, ele diz: “A
aceleração e a agitação produzem uma ausência de mundo.” E sem mundo — isto é,
sem espaço para reflexão e encontro — a alma se dissolve.
É
curioso que, enquanto o Ocidente corre atrás de produtividade, o Oriente — de
onde vem o próprio Han — sempre valorizou o repouso da mente. No budismo,
fala-se em śamatha, a prática da calma mental. Não é apenas ficar em
silêncio, mas permitir que a mente retorne a si mesma, que o pensamento se
desacelere até reencontrar o centro. A atenção plena (mindfulness),
tão popular hoje, tem essa origem: o gesto simples de estar presente.
Mas
o que era um exercício de libertação acabou sendo capturado pelo mercado como
mais um produto de eficiência — cursos de “mindfulness corporativo” prometem
reduzir o estresse e aumentar a produtividade. Até o silêncio foi transformado
em ferramenta de desempenho. A paz interior virou KPI.
Contudo,
se voltarmos à raiz da ideia budista, o silêncio não serve para render mais,
mas para ser menos — menos ego, menos pressa, menos ruído. É nesse vazio
que a consciência reencontra sua dignidade. A mente calma é, nesse sentido, um
ato político. É resistência contra a lógica da aceleração.
O
filósofo coreano, com sua melancolia elegante, parece nos lembrar que viver é
também saber não fazer. Que o tempo que não produz é o tempo que nos
devolve humanidade. A violência neural só perde força quando recuperamos o
direito de sermos lentos, inúteis, ineficientes — em suma, humanos.
Talvez
o primeiro passo seja simples: desligar o celular por algumas horas, olhar o
céu, ouvir o vento, deixar o pensamento passar como nuvem. Tomar um café sem
precisar postar, sem pensar no que virá depois. A pausa é subversiva, porque
interrompe o fluxo que nos esgota.
A
verdadeira liberdade, no fundo, pode ser simplesmente poder dizer: hoje não
quero render nada. E, nesse ato de aparente improdutividade, talvez a mente
volte a respirar.
Como
escreve Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço mata o tempo e, com ele, a
alma.” Mas o tempo — esse tempo que ainda nos pertence — pode renascer no
instante em que recuperamos o direito de simplesmente existir.
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