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domingo, 19 de outubro de 2025

Violência Neural

O esgotamento invisível da mente

Outro dia, sentado num café, percebi que quase ninguém olhava para o próprio café. As pessoas estavam ali, mas suas mentes pareciam flutuar em outro lugar, perdidas em notificações, pensamentos fragmentados, urgências silenciosas. Ninguém gritava, ninguém brigava — mas havia uma espécie de violência pairando no ar. Uma violência sem sangue, sem ruído, quase doce: a violência de estar sempre ligado.

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, chama isso de “violência neural” — uma forma de agressão que não vem de fora, mas de dentro. É a violência da autoexploração, do excesso de positividade, da cobrança constante por desempenho. Vivemos, segundo ele, numa era em que o poder já não precisa oprimir com força: basta induzir o sujeito a se autoexplorar, acreditando que é livre.

Essa é a ironia trágica: o trabalhador contemporâneo não tem mais um patrão de chicote na mão — ele é o próprio patrão e o próprio escravo. O cansaço, a ansiedade e a exaustão que carregamos não vêm mais de um inimigo externo, mas da nossa própria mente que não consegue parar.

Han observa que saímos da “sociedade disciplinar”, descrita por Foucault — onde o poder se exercia por meio de proibições, deveres e castigos — e entramos na sociedade do desempenho, onde tudo se resume a “poder fazer mais”. Mas esse “poder” virou um dever mascarado. O sujeito acredita que está se realizando, quando na verdade está se consumindo. A positividade virou uma espécie de violência invisível: sorrimos enquanto adoecemos.

No cotidiano, essa lógica aparece nas pequenas coisas. Acordamos e a primeira luz que toca o rosto é a do celular. Antes mesmo de levantar da cama, já respondemos mensagens, conferimos e-mails e deslizamos o dedo por notícias e conteúdos que não escolhemos de fato. O corpo ainda está no quarto, mas a mente já foi sequestrada pelo fluxo ininterrupto de informações. A cada toque, uma descarga de dopamina — e um pouco mais de cansaço.

As redes sociais tornaram-se o grande palco dessa violência. Nelas, todos se transformam em pequenas marcas pessoais, vendendo versões editadas de si mesmos. O sujeito não se expressa mais: se expõe. A fronteira entre vida e performance desapareceu. A ansiedade de ser visto, curtido, compartilhado cria um tipo de vigilância sem vigia — o olhar do outro está sempre presente, mesmo quando não há ninguém por perto.

E o mais curioso é que ninguém nos obriga a isso. Não há coerção externa, apenas uma sedução interna: queremos participar, queremos pertencer, queremos ser reconhecidos. Como diria Han, é um poder que não reprime, mas estimula. E é justamente isso que o torna tão eficaz.

No ambiente de trabalho, a violência neural assume formas ainda mais sofisticadas. O antigo controle do relógio de ponto deu lugar ao culto da produtividade. Já não basta cumprir o expediente: é preciso render, inovar, aprender continuamente. O descanso virou uma ameaça à eficiência. Mesmo fora do horário de trabalho, as pessoas continuam conectadas, respondendo mensagens, planejando entregas, antecipando problemas. O tempo livre se dissolveu na lógica da performance.

Há uma cena recorrente que traduz bem essa sensação: o trabalhador que, à noite, deita exausto e sente culpa por não ter feito mais. Ele não sofreu nenhuma opressão externa — apenas acreditou que poderia ter sido mais produtivo. O fracasso agora é vivido como falha pessoal, não como sintoma de um sistema.

Han chama isso de “autoexploração voluntária”. O sujeito acredita que é autônomo, mas vive preso a um imperativo silencioso: faça mais, mostre mais, seja mais. Essa crença gera o que ele denomina cansaço patológico — um esgotamento que não é físico, mas mental e espiritual. O cérebro, sobrecarregado de estímulos, perde a capacidade de se aquietar.

A consequência é uma epidemia de sofrimento invisível. Depressão, burnout, ansiedade e distúrbios de atenção não são apenas doenças individuais — são sintomas sociais. São expressões de uma estrutura que nos obriga a estar sempre ativos, sempre disponíveis, sempre performando. A violência neural é, portanto, a face psíquica de um sistema que descobriu como explorar sem precisar mandar.

A cada nova tecnologia, acreditamos ganhar tempo — mas, na verdade, perdemos tempo de qualidade. Ganhamos velocidade e perdemos profundidade. Vivemos num presente fragmentado, feito de microinterações, microrecompensas e microfrustrações.

Han sugere que o antídoto não está na resistência agressiva, mas na contemplação. Recuperar a capacidade de estar em silêncio, de suportar o tédio, de habitar o próprio tempo sem culpa. Em A Sociedade do Cansaço, ele diz: “A aceleração e a agitação produzem uma ausência de mundo.” E sem mundo — isto é, sem espaço para reflexão e encontro — a alma se dissolve.

É curioso que, enquanto o Ocidente corre atrás de produtividade, o Oriente — de onde vem o próprio Han — sempre valorizou o repouso da mente. No budismo, fala-se em śamatha, a prática da calma mental. Não é apenas ficar em silêncio, mas permitir que a mente retorne a si mesma, que o pensamento se desacelere até reencontrar o centro. A atenção plena (mindfulness), tão popular hoje, tem essa origem: o gesto simples de estar presente.

Mas o que era um exercício de libertação acabou sendo capturado pelo mercado como mais um produto de eficiência — cursos de “mindfulness corporativo” prometem reduzir o estresse e aumentar a produtividade. Até o silêncio foi transformado em ferramenta de desempenho. A paz interior virou KPI.

Contudo, se voltarmos à raiz da ideia budista, o silêncio não serve para render mais, mas para ser menos — menos ego, menos pressa, menos ruído. É nesse vazio que a consciência reencontra sua dignidade. A mente calma é, nesse sentido, um ato político. É resistência contra a lógica da aceleração.

O filósofo coreano, com sua melancolia elegante, parece nos lembrar que viver é também saber não fazer. Que o tempo que não produz é o tempo que nos devolve humanidade. A violência neural só perde força quando recuperamos o direito de sermos lentos, inúteis, ineficientes — em suma, humanos.

Talvez o primeiro passo seja simples: desligar o celular por algumas horas, olhar o céu, ouvir o vento, deixar o pensamento passar como nuvem. Tomar um café sem precisar postar, sem pensar no que virá depois. A pausa é subversiva, porque interrompe o fluxo que nos esgota.

A verdadeira liberdade, no fundo, pode ser simplesmente poder dizer: hoje não quero render nada. E, nesse ato de aparente improdutividade, talvez a mente volte a respirar.

Como escreve Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço mata o tempo e, com ele, a alma.” Mas o tempo — esse tempo que ainda nos pertence — pode renascer no instante em que recuperamos o direito de simplesmente existir.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Humanidade Esquecida


Você já se perguntou porque há tantas divisões, se os seres humanos são um só, ou tem algum humano mais humano do que o outro?

Essa pergunta, simples na forma, é profunda como um abismo. “Por que tanta divisão, se seres humanos são um só?” — talvez seja uma das grandes dores da humanidade. A gente se vê repetindo, século após século, os mesmos erros: fronteiras, muros, religiões, castas, tribos, cor da pele, partidos, rótulos. Como se houvesse alguém mais humano que outro. Como se houvesse uma régua secreta para medir o grau de humanidade de cada um.

No dia a dia, essas divisões aparecem de forma até sutil: quando alguém diz “gente como a gente”, o que está por trás disso? Quem é esse “a gente”? E quem está fora disso?

Na fila do supermercado, tem quem se incomode com o jeito de falar do outro, com a roupa, com o modo como cuida (ou não cuida) dos filhos. No trânsito, a raiva explode se o outro parece não pertencer à mesma lógica. E nas redes sociais, então — ali, cada bolha vira um pequeno país com hino, bandeira e inimigos declarados.

Mas por que somos assim? Será instinto de autopreservação? Medo do desconhecido? Desejo de controle?

O filósofo francês Emmanuel Levinas dizia que a verdadeira ética começa no rosto do outro. No momento em que nos deparamos com a alteridade — com o outro ser humano em sua diferença —, somos convocados à responsabilidade. Isso significa que não há hierarquia entre humanos, só a constatação radical de que o outro me afeta e me obriga a agir com humanidade.

Ou seja: o mais humano que podemos ser é justamente quando reconhecemos a humanidade do outro, sem medir, comparar ou classificar.

Talvez o problema esteja quando a gente se desliga do simples fato de que “ser humano” não é uma competição, nem um privilégio. É uma condição compartilhada — com alegrias e dores, com dúvidas e medos, com sonhos que se repetem, seja numa favela ou num palácio.

No fim das contas, a pergunta poderia ser invertida: se todos somos humanos, o que nos faz esquecer disso com tanta facilidade?

E mais, não estaríamos nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas?

Sim, parece que estamos sim — nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas. E o mais estranho é que isso tudo acontece num mundo hiperconectado, onde a promessa era justamente o contrário: que estaríamos mais próximos, mais empáticos, mais solidários.

Mas o que vemos?

Cada um cuidando do seu. Cercas invisíveis (e às vezes bem visíveis) se erguendo entre vizinhos, entre colegas, até dentro da própria família. O “meu espaço”, o “meu tempo”, o “meu direito” viraram lemas. E, claro, é importante ter limites saudáveis, mas há uma linha tênue entre o autocuidado e o isolamento emocional travestido de autonomia.

No trânsito, ninguém cede passagem. No trabalho, o espírito de equipe vira competição. No condomínio, o morador reclama do cachorro do outro, mas não enxerga o barulho que ele mesmo faz. E nas redes sociais, então… ali o território é o ego: cada um no seu palanque, gritando mais alto que o outro.

Parece que, no fundo, temos medo de sermos “invadidos” — não só no espaço físico, mas nas opiniões, nas crenças, nos estilos de vida. Por isso, blindamos tudo. Viramos fortalezas emocionais, com muralhas de desconfiança e trincheiras de indiferença.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala sobre isso em A Sociedade do Cansaço e A Sociedade da Transparência. Para ele, o excesso de individualismo e performance nos transforma em sujeitos do cansaço — sempre tentando se destacar, se proteger, se manter produtivos. Perdemos a capacidade de contemplar o outro sem julgamento, de conviver com a diferença, de simplesmente ser junto, sem uma agenda por trás.

Talvez estejamos desaprendendo a conviver.

Mas há um antídoto. Pequeno, quase invisível, mas potente: o gesto gratuito. Quando alguém segura o elevador para o outro, quando escuta sem pressa, quando oferece ajuda sem esperar nada em troca. São nessas brechas que o egoísmo se dissolve, ainda que por instantes.

E aí a gente percebe que ser humano de verdade… é ser com o outro. Não ao lado, mas junto.