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domingo, 5 de abril de 2026

Desaparecimento de Si

Tem dias em que a gente percebe um sumiço estranho — não de alguém, mas da gente mesmo.

Não é dramático como nos romances, tipo O Estrangeiro, em que o personagem parece já nascer deslocado. É mais sutil. Acontece numa terça-feira qualquer: você responde mensagens no automático, ri no momento certo, cumpre tarefas… e, ainda assim, sente que não está exatamente ali. Como se estivesse ocupando o próprio corpo por contrato, não por convicção.

O Estrangeiro é a história de Meursault, um homem que vive de forma quase automática, indiferente às normas emocionais e sociais que organizam a vida em sociedade, o que fica evidente desde a abertura do livro, quando ele reage com estranha frieza à morte da própria mãe; ao longo da narrativa, sua incapacidade de fingir sentimentos ou aderir às expectativas coletivas o coloca em choque com o mundo ao redor, culminando em um julgamento onde ele é condenado menos pelo crime que comete e mais por não “jogar o jogo” humano — e é justamente aí que Albert Camus revela o absurdo da existência: não é o mundo que é estranho, mas a tentativa de impor sentido a uma realidade que simplesmente é, enquanto Meursault, ao aceitar isso sem ilusões, torna-se ao mesmo tempo o mais deslocado e talvez o mais honesto de todos.

Retornando as reflexões, eu comecei a reparar nisso em pequenas situações. No elevador, olhando meu reflexo no espelho: “sou eu mesmo ou só uma versão funcional de mim?” No trabalho, repetindo opiniões que nem parei para pensar direito. Num almoço em família, concordando com tudo só para não criar atrito. Aos poucos, a gente vai se ajustando tanto ao mundo que começa a desaparecer dentro dele.

Martin Heidegger chamaria isso de cair no “impessoal”, no domínio do “se”: faz-se isso, pensa-se aquilo, vive-se assim. A vida vira uma espécie de manual invisível que seguimos sem perceber. E o problema não é seguir regras — é esquecer que fomos nós que deveríamos escolhê-las.

Tem também um outro tipo de desaparecimento, mais moderno, que Byung-Chul Han talvez reconheceria: o excesso de exposição que apaga o interior. A gente se mostra tanto — stories, opiniões rápidas, reações instantâneas — que já não sobra espaço para digerir quem se é. Paradoxalmente, quanto mais visível, mais invisível para si mesmo.

E aí entra uma intuição interessante do David Le Breton: ele fala de uma espécie de “desaparecimento de si” como resposta ao cansaço de existir sob pressão constante. Não é exatamente um colapso, mas uma retirada. Como se a pessoa, sem sair do mundo, diminuísse sua presença nele. Em vez de confronto, ela escolhe o apagamento suave — menos exposição, menos implicação, menos risco de ser afetado.

Uma das imagens mais delicadas que ele sugere é a do desaparecer no sono. Dormir, nesse caso, não é só uma necessidade biológica — é quase um refúgio existencial. Quem nunca sentiu vontade de dormir não por cansaço físico, mas para suspender a vida por algumas horas? Como se o sono fosse um lugar onde as cobranças cessam, as identidades se dissolvem, e a gente finalmente deixa de “ter que ser alguém”.

Isso aparece no cotidiano de um jeito silencioso. A pessoa que prolonga o tempo na cama além do necessário. Aquela soneca no meio da tarde que não é só descanso, mas fuga. Ou mesmo o hábito de se afundar no sono para adiar decisões, conversas, conflitos. É um desaparecimento temporário — legítimo, humano — mas que também revela o quanto estar desperto, às vezes, pesa.

Mas talvez exista um pensamento ainda mais inquietante aqui: e se desaparecer de si não for apenas perda… mas também uma forma de resistência?

Num mundo que exige presença constante, opinião imediata e identidade definida, desaparecer pode ser um gesto silencioso de recusa. Não responder, não se expor, não performar o tempo todo — tudo isso pode ser uma maneira de proteger algo mais profundo que ainda não quer ou não pode ser nomeado.

Talvez o “eu” não desapareça por fraqueza, mas por estratégia. Como certas coisas vivas que se recolhem para sobreviver — sementes no inverno, animais em hibernação — há momentos em que não aparecer é a única forma de não se deformar.

Nesse sentido, o desaparecimento de si deixa de ser apenas um problema a ser resolvido e passa a ser um enigma a ser escutado: o que, em mim, está se recusando a existir desse jeito?

E o curioso é que esse desaparecimento não dói de imediato. Ele é confortável. É leve. Não exige confronto, não exige escolha difícil. Você só vai… indo. Até que, um dia, surge uma pergunta incômoda: “em que momento eu parei de participar da minha própria vida?”

Ou, talvez, uma pergunta ainda mais radical: “será que eu realmente desapareci… ou apenas me escondi de um modo de existir que já não me serve?”

Talvez o reaparecimento de si não seja um grande evento, mas um gesto pequeno. Um desacordo dito em voz alta. Um silêncio mantido quando todos esperam resposta. Um tempo sozinho sem distração. Um pensamento que você sustenta até o fim, mesmo que ele desorganize tudo.

Porque desaparecer de si não acontece de uma vez — é um processo. Mas voltar também pode ser.

E quase sempre começa quando a gente estranha o próprio sumiço.

 

Sugestão de Leitura:

Le Breton, David. Desaparecer de Si: uma tentação contemporânea; tradução Francisco Morás. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

Camus, Albert. O Estrangeiro; tradução Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1979


domingo, 19 de outubro de 2025

Violência Neural

O esgotamento invisível da mente

Outro dia, sentado num café, percebi que quase ninguém olhava para o próprio café. As pessoas estavam ali, mas suas mentes pareciam flutuar em outro lugar, perdidas em notificações, pensamentos fragmentados, urgências silenciosas. Ninguém gritava, ninguém brigava — mas havia uma espécie de violência pairando no ar. Uma violência sem sangue, sem ruído, quase doce: a violência de estar sempre ligado.

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, chama isso de “violência neural” — uma forma de agressão que não vem de fora, mas de dentro. É a violência da autoexploração, do excesso de positividade, da cobrança constante por desempenho. Vivemos, segundo ele, numa era em que o poder já não precisa oprimir com força: basta induzir o sujeito a se autoexplorar, acreditando que é livre.

Essa é a ironia trágica: o trabalhador contemporâneo não tem mais um patrão de chicote na mão — ele é o próprio patrão e o próprio escravo. O cansaço, a ansiedade e a exaustão que carregamos não vêm mais de um inimigo externo, mas da nossa própria mente que não consegue parar.

Han observa que saímos da “sociedade disciplinar”, descrita por Foucault — onde o poder se exercia por meio de proibições, deveres e castigos — e entramos na sociedade do desempenho, onde tudo se resume a “poder fazer mais”. Mas esse “poder” virou um dever mascarado. O sujeito acredita que está se realizando, quando na verdade está se consumindo. A positividade virou uma espécie de violência invisível: sorrimos enquanto adoecemos.

No cotidiano, essa lógica aparece nas pequenas coisas. Acordamos e a primeira luz que toca o rosto é a do celular. Antes mesmo de levantar da cama, já respondemos mensagens, conferimos e-mails e deslizamos o dedo por notícias e conteúdos que não escolhemos de fato. O corpo ainda está no quarto, mas a mente já foi sequestrada pelo fluxo ininterrupto de informações. A cada toque, uma descarga de dopamina — e um pouco mais de cansaço.

As redes sociais tornaram-se o grande palco dessa violência. Nelas, todos se transformam em pequenas marcas pessoais, vendendo versões editadas de si mesmos. O sujeito não se expressa mais: se expõe. A fronteira entre vida e performance desapareceu. A ansiedade de ser visto, curtido, compartilhado cria um tipo de vigilância sem vigia — o olhar do outro está sempre presente, mesmo quando não há ninguém por perto.

E o mais curioso é que ninguém nos obriga a isso. Não há coerção externa, apenas uma sedução interna: queremos participar, queremos pertencer, queremos ser reconhecidos. Como diria Han, é um poder que não reprime, mas estimula. E é justamente isso que o torna tão eficaz.

No ambiente de trabalho, a violência neural assume formas ainda mais sofisticadas. O antigo controle do relógio de ponto deu lugar ao culto da produtividade. Já não basta cumprir o expediente: é preciso render, inovar, aprender continuamente. O descanso virou uma ameaça à eficiência. Mesmo fora do horário de trabalho, as pessoas continuam conectadas, respondendo mensagens, planejando entregas, antecipando problemas. O tempo livre se dissolveu na lógica da performance.

Há uma cena recorrente que traduz bem essa sensação: o trabalhador que, à noite, deita exausto e sente culpa por não ter feito mais. Ele não sofreu nenhuma opressão externa — apenas acreditou que poderia ter sido mais produtivo. O fracasso agora é vivido como falha pessoal, não como sintoma de um sistema.

Han chama isso de “autoexploração voluntária”. O sujeito acredita que é autônomo, mas vive preso a um imperativo silencioso: faça mais, mostre mais, seja mais. Essa crença gera o que ele denomina cansaço patológico — um esgotamento que não é físico, mas mental e espiritual. O cérebro, sobrecarregado de estímulos, perde a capacidade de se aquietar.

A consequência é uma epidemia de sofrimento invisível. Depressão, burnout, ansiedade e distúrbios de atenção não são apenas doenças individuais — são sintomas sociais. São expressões de uma estrutura que nos obriga a estar sempre ativos, sempre disponíveis, sempre performando. A violência neural é, portanto, a face psíquica de um sistema que descobriu como explorar sem precisar mandar.

A cada nova tecnologia, acreditamos ganhar tempo — mas, na verdade, perdemos tempo de qualidade. Ganhamos velocidade e perdemos profundidade. Vivemos num presente fragmentado, feito de microinterações, microrecompensas e microfrustrações.

Han sugere que o antídoto não está na resistência agressiva, mas na contemplação. Recuperar a capacidade de estar em silêncio, de suportar o tédio, de habitar o próprio tempo sem culpa. Em A Sociedade do Cansaço, ele diz: “A aceleração e a agitação produzem uma ausência de mundo.” E sem mundo — isto é, sem espaço para reflexão e encontro — a alma se dissolve.

É curioso que, enquanto o Ocidente corre atrás de produtividade, o Oriente — de onde vem o próprio Han — sempre valorizou o repouso da mente. No budismo, fala-se em śamatha, a prática da calma mental. Não é apenas ficar em silêncio, mas permitir que a mente retorne a si mesma, que o pensamento se desacelere até reencontrar o centro. A atenção plena (mindfulness), tão popular hoje, tem essa origem: o gesto simples de estar presente.

Mas o que era um exercício de libertação acabou sendo capturado pelo mercado como mais um produto de eficiência — cursos de “mindfulness corporativo” prometem reduzir o estresse e aumentar a produtividade. Até o silêncio foi transformado em ferramenta de desempenho. A paz interior virou KPI.

Contudo, se voltarmos à raiz da ideia budista, o silêncio não serve para render mais, mas para ser menos — menos ego, menos pressa, menos ruído. É nesse vazio que a consciência reencontra sua dignidade. A mente calma é, nesse sentido, um ato político. É resistência contra a lógica da aceleração.

O filósofo coreano, com sua melancolia elegante, parece nos lembrar que viver é também saber não fazer. Que o tempo que não produz é o tempo que nos devolve humanidade. A violência neural só perde força quando recuperamos o direito de sermos lentos, inúteis, ineficientes — em suma, humanos.

Talvez o primeiro passo seja simples: desligar o celular por algumas horas, olhar o céu, ouvir o vento, deixar o pensamento passar como nuvem. Tomar um café sem precisar postar, sem pensar no que virá depois. A pausa é subversiva, porque interrompe o fluxo que nos esgota.

A verdadeira liberdade, no fundo, pode ser simplesmente poder dizer: hoje não quero render nada. E, nesse ato de aparente improdutividade, talvez a mente volte a respirar.

Como escreve Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço mata o tempo e, com ele, a alma.” Mas o tempo — esse tempo que ainda nos pertence — pode renascer no instante em que recuperamos o direito de simplesmente existir.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Humanidade Esquecida


Você já se perguntou porque há tantas divisões, se os seres humanos são um só, ou tem algum humano mais humano do que o outro?

Essa pergunta, simples na forma, é profunda como um abismo. “Por que tanta divisão, se seres humanos são um só?” — talvez seja uma das grandes dores da humanidade. A gente se vê repetindo, século após século, os mesmos erros: fronteiras, muros, religiões, castas, tribos, cor da pele, partidos, rótulos. Como se houvesse alguém mais humano que outro. Como se houvesse uma régua secreta para medir o grau de humanidade de cada um.

No dia a dia, essas divisões aparecem de forma até sutil: quando alguém diz “gente como a gente”, o que está por trás disso? Quem é esse “a gente”? E quem está fora disso?

Na fila do supermercado, tem quem se incomode com o jeito de falar do outro, com a roupa, com o modo como cuida (ou não cuida) dos filhos. No trânsito, a raiva explode se o outro parece não pertencer à mesma lógica. E nas redes sociais, então — ali, cada bolha vira um pequeno país com hino, bandeira e inimigos declarados.

Mas por que somos assim? Será instinto de autopreservação? Medo do desconhecido? Desejo de controle?

O filósofo francês Emmanuel Levinas dizia que a verdadeira ética começa no rosto do outro. No momento em que nos deparamos com a alteridade — com o outro ser humano em sua diferença —, somos convocados à responsabilidade. Isso significa que não há hierarquia entre humanos, só a constatação radical de que o outro me afeta e me obriga a agir com humanidade.

Ou seja: o mais humano que podemos ser é justamente quando reconhecemos a humanidade do outro, sem medir, comparar ou classificar.

Talvez o problema esteja quando a gente se desliga do simples fato de que “ser humano” não é uma competição, nem um privilégio. É uma condição compartilhada — com alegrias e dores, com dúvidas e medos, com sonhos que se repetem, seja numa favela ou num palácio.

No fim das contas, a pergunta poderia ser invertida: se todos somos humanos, o que nos faz esquecer disso com tanta facilidade?

E mais, não estaríamos nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas?

Sim, parece que estamos sim — nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas. E o mais estranho é que isso tudo acontece num mundo hiperconectado, onde a promessa era justamente o contrário: que estaríamos mais próximos, mais empáticos, mais solidários.

Mas o que vemos?

Cada um cuidando do seu. Cercas invisíveis (e às vezes bem visíveis) se erguendo entre vizinhos, entre colegas, até dentro da própria família. O “meu espaço”, o “meu tempo”, o “meu direito” viraram lemas. E, claro, é importante ter limites saudáveis, mas há uma linha tênue entre o autocuidado e o isolamento emocional travestido de autonomia.

No trânsito, ninguém cede passagem. No trabalho, o espírito de equipe vira competição. No condomínio, o morador reclama do cachorro do outro, mas não enxerga o barulho que ele mesmo faz. E nas redes sociais, então… ali o território é o ego: cada um no seu palanque, gritando mais alto que o outro.

Parece que, no fundo, temos medo de sermos “invadidos” — não só no espaço físico, mas nas opiniões, nas crenças, nos estilos de vida. Por isso, blindamos tudo. Viramos fortalezas emocionais, com muralhas de desconfiança e trincheiras de indiferença.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala sobre isso em A Sociedade do Cansaço e A Sociedade da Transparência. Para ele, o excesso de individualismo e performance nos transforma em sujeitos do cansaço — sempre tentando se destacar, se proteger, se manter produtivos. Perdemos a capacidade de contemplar o outro sem julgamento, de conviver com a diferença, de simplesmente ser junto, sem uma agenda por trás.

Talvez estejamos desaprendendo a conviver.

Mas há um antídoto. Pequeno, quase invisível, mas potente: o gesto gratuito. Quando alguém segura o elevador para o outro, quando escuta sem pressa, quando oferece ajuda sem esperar nada em troca. São nessas brechas que o egoísmo se dissolve, ainda que por instantes.

E aí a gente percebe que ser humano de verdade… é ser com o outro. Não ao lado, mas junto.