Tem
coisas que a gente não explica — apenas reconhece. Como o silêncio depois de
uma perda. Como a sensação de infinito olhando o mar. Como aquele instante em
que a palavra falha, mas o sentido transborda. É aí que o absoluto se aproxima.
E é exatamente aí que ele se torna inefável.
O
absoluto não cabe na linguagem. Toda vez que tentamos descrevê-lo, ele já
escapou. A palavra chega atrasada. A frase vem como tradução imperfeita de algo
que não pediu para ser traduzido.
O
inefável no cotidiano
O
inefável não mora apenas nos templos, nos livros ou nas teorias. Ele aparece no
cotidiano:
–
No abraço que não pede explicação.
–
Na música que dói sem machucar.
–
Na lembrança que não se sabe de onde veio.
–
No amor que não cabe na biografia.
Quando
alguém pergunta “por quê?”, a resposta honesta seria: não sei dizer, só sei
que é. isso já é o inefável se
manifestando.
O
absoluto não é excesso — é totalidade
O
absoluto não é o que tem demais. É o que não depende de comparação. Ele não
precisa de outro para existir. Não é melhor, nem pior: é inteiro. Por isso ele
desconcerta. Porque nossa mente vive de contrastes, limites, oposições. O
absoluto dissolve essas fronteiras.
Spinoza
chamou isso de substância infinita. Plotino chamou de Uno. Os místicos chamaram
de Deus. Os poetas chamaram de amor. Os silenciosos apenas sentiram.
Todos
apontaram para o mesmo lugar — e erraram do mesmo modo: tentando nomear o
inominável.
A
falência da linguagem
Wittgenstein
foi direto: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Mas o ser
humano não sabe calar diante do absoluto. Ele escreve, canta, pinta, filosofa.
Não para capturá-lo, mas para não enlouquecer diante dele.
A
linguagem não revela o absoluto. Ela apenas mostra onde ele não está.
O
absoluto como experiência, não como conceito
O
absoluto não é algo que se entende. É algo que acontece. E quando acontece,
muda o modo como tudo o mais é visto. Depois dele, o mundo continua igual — mas
você não.
Por
isso ele é inefável: porque não é informação, é transformação.
Absoluto,
inefável — e humano
Talvez
o paradoxo mais bonito seja este: o ser humano, limitado, frágil e transitório,
é justamente quem percebe o absoluto. Como se o infinito precisasse da finitude
para ser pressentido.
O
absoluto não se impõe. Ele se insinua. Não grita. Não prova. Não argumenta.
Apenas toca.
E
quando toca, não deixa frase. Deixa silêncio.
Um
silêncio que não é vazio.
É
plenitude sem tradução.
E
talvez seja isso que nos mantém vivos: a certeza íntima de que existe algo
maior do que aquilo que conseguimos dizer — e, ainda assim, profundamente
nosso.
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