O Autoconhecimento
Vivemos
um tempo em que quase tudo pede palco. Emoções, opiniões, processos internos —
tudo parece precisar ser mostrado, validado, curtido. O autoconhecimento,
porém, nasce no sentido oposto. Ele acontece melhor longe do aplauso.
Conhecer
a si mesmo não é produzir uma versão interessante de quem somos, mas suportar a
convivência com aquilo que não rende narrativa: contradições, silêncios,
repetições. Há partes de nós que só aparecem quando não estamos tentando
explicá-las a ninguém.
No
cotidiano isso é simples e difícil ao mesmo tempo. É perceber que certa
irritação não é “personalidade forte”, mas cansaço acumulado. Que uma convicção
defendida com paixão talvez seja só medo de perder o chão. Que nem todo
sofrimento precisa virar testemunho público para ser legítimo.
O
espetáculo exige coerência e progresso visível. O autoconhecimento real aceita
zonas cinzentas, recaídas e intervalos longos de aparente estagnação. Ele não
se mede por frases prontas, mas pela mudança quase imperceptível no modo de
reagir: falar um pouco menos, ouvir um pouco mais, adiar um julgamento.
Há
uma sabedoria antiga nisso. Como diria Heráclito, a natureza
gosta de esconder-se. O mesmo vale para a natureza humana. Aquilo que realmente
nos transforma costuma agir em silêncio, como uma água que escava a pedra sem
anunciar o feito.
Autoconhecimento
sem espetáculo é, no fundo, um pacto de discrição consigo mesmo. Não é ausência
de profundidade — é respeito pelo que ainda está em formação. E talvez seja
justamente aí, onde nada precisa ser mostrado, que começamos a nos reconhecer
de verdade.
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