Eu
já percebi que não guardo o que aconteceu. Guardo o que aquilo fez comigo.
Datas
se apagam. Frases se embaralham. Rostos mudam. Mas certas experiências
permanecem intactas, não porque foram precisas, e sim porque foram decisivas. A
memória, no fundo, não é um arquivo — é uma curadoria.
Outro
dia, tentando lembrar um momento específico da infância, percebi que só restava
a sensação: um fim de tarde, uma luz amarela, um silêncio confortável. Não sei
mais quem estava ali. Mas sei como eu me sentia. E talvez isso seja o que
realmente importa.
No
cotidiano, é assim:
–
A gente esquece a conversa, mas lembra do constrangimento.
–
Esquece o conselho, mas lembra da coragem que ele provocou.
–
Esquece o nome, mas lembra do acolhimento.
A
memória com significado não é fiel aos fatos. Ela é fiel à transformação.
Bergson
já
dizia que lembrar não é reproduzir o passado, é recriá-lo a partir do presente.
Cada lembrança é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora. Por isso, toda
memória é um pouco invenção — e, ainda assim, profundamente verdadeira.
Eu
começo a achar que o valor de uma lembrança não está em sua nitidez, mas em sua
utilidade interior. Se ela me ajuda a compreender melhor, ela permanece. Se só
me prende, ela vai se dissolvendo com delicadeza.
Memória
com significado não pesa. Ela orienta.
É
aquela lembrança que não nos puxa para trás, mas nos endireita por dentro. Que
não nos paralisa, mas nos oferece uma espécie de chão invisível.
No
fim, talvez a alma não seja feita de tudo o que viveu — mas apenas daquilo que
soube transformar em sentido.
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