Eu
costumava achar que esquecer era uma falha. Um curto-circuito da memória. Uma
traição ao que foi vivido. Hoje desconfio do contrário: esquecer, muitas vezes,
é uma forma silenciosa de sobrevivência.
A
gente não esquece só datas, nomes ou senhas. Esquece versões de si mesmo.
Esquece promessas que já não fazem sentido. Esquece dores que insistiam em
definir quem éramos. E, sem perceber, vai abrindo espaço para uma versão menos
pesada de existir.
Outro
dia, no café — esse meu pequeno santuário cotidiano — percebi que já não
lembrava mais com nitidez de uma discussão antiga que, na época, parecia
definitiva. Lembro da sensação, não das palavras. E isso mudou tudo. Porque a
sensação também tinha perdido força. O esquecimento, ali, não foi perda: foi
libertação.
Esquecer
é permitir que o passado deixe de ser uma sentença e passe a ser apenas um
capítulo. Não apagado — mas também não mais gritado.
No
cotidiano, isso aparece em coisas pequenas:
–
Quando você encontra alguém que já te feriu e percebe que não sente mais raiva.
–
Quando uma música antiga já não dói.
–
Quando um erro vira só uma história, não mais uma identidade.
A
memória quer nos ensinar. O esquecimento quer nos devolver leveza.
Paul
Ricoeur dizia que lembrar e esquecer fazem parte do mesmo
gesto humano: dar sentido ao tempo. Sem esquecimento, a memória vira um arquivo
cruel, onde nada pode ser reorganizado. Sem memória, o esquecimento vira vazio.
O equilíbrio entre os dois é o que nos permite continuar.
Talvez
a vida não nos dê apenas oportunidades de lembrar — mas também oportunidades
discretas de esquecer na medida certa. Não por desprezo ao passado, mas por
respeito ao futuro.
E
eu, hoje, começo a desconfiar que esquecer não é abandonar quem fomos.
É
apenas recusar continuar sendo apenas aquilo.
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