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sábado, 17 de janeiro de 2026

Absoluto, Inefável


Tem coisas que a gente não explica — apenas reconhece. Como o silêncio depois de uma perda. Como a sensação de infinito olhando o mar. Como aquele instante em que a palavra falha, mas o sentido transborda. É aí que o absoluto se aproxima. E é exatamente aí que ele se torna inefável.

O absoluto não cabe na linguagem. Toda vez que tentamos descrevê-lo, ele já escapou. A palavra chega atrasada. A frase vem como tradução imperfeita de algo que não pediu para ser traduzido.

O inefável no cotidiano

O inefável não mora apenas nos templos, nos livros ou nas teorias. Ele aparece no cotidiano:

– No abraço que não pede explicação.

– Na música que dói sem machucar.

– Na lembrança que não se sabe de onde veio.

– No amor que não cabe na biografia.

Quando alguém pergunta “por quê?”, a resposta honesta seria: não sei dizer, só sei que é.  isso já é o inefável se manifestando.

O absoluto não é excesso — é totalidade

O absoluto não é o que tem demais. É o que não depende de comparação. Ele não precisa de outro para existir. Não é melhor, nem pior: é inteiro. Por isso ele desconcerta. Porque nossa mente vive de contrastes, limites, oposições. O absoluto dissolve essas fronteiras.

Spinoza chamou isso de substância infinita. Plotino chamou de Uno. Os místicos chamaram de Deus. Os poetas chamaram de amor. Os silenciosos apenas sentiram.

Todos apontaram para o mesmo lugar — e erraram do mesmo modo: tentando nomear o inominável.

A falência da linguagem

Wittgenstein foi direto: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Mas o ser humano não sabe calar diante do absoluto. Ele escreve, canta, pinta, filosofa. Não para capturá-lo, mas para não enlouquecer diante dele.

A linguagem não revela o absoluto. Ela apenas mostra onde ele não está.

O absoluto como experiência, não como conceito

O absoluto não é algo que se entende. É algo que acontece. E quando acontece, muda o modo como tudo o mais é visto. Depois dele, o mundo continua igual — mas você não.

Por isso ele é inefável: porque não é informação, é transformação.

Absoluto, inefável — e humano

Talvez o paradoxo mais bonito seja este: o ser humano, limitado, frágil e transitório, é justamente quem percebe o absoluto. Como se o infinito precisasse da finitude para ser pressentido.

O absoluto não se impõe. Ele se insinua. Não grita. Não prova. Não argumenta. Apenas toca.

E quando toca, não deixa frase. Deixa silêncio.

Um silêncio que não é vazio.

É plenitude sem tradução.

E talvez seja isso que nos mantém vivos: a certeza íntima de que existe algo maior do que aquilo que conseguimos dizer — e, ainda assim, profundamente nosso.

sábado, 8 de março de 2025

Enigma Metafísico

A Busca pelo Inefável

Outro dia, enquanto caminhava sem pressa por uma rua silenciosa, senti aquela estranha sensação de estar no lugar certo e, ao mesmo tempo, deslocado. Como se a realidade tivesse uma fresta por onde algo maior pudesse ser vislumbrado. Foi um daqueles momentos em que a metafísica se insinua sem aviso, deixando a incômoda pergunta: afinal, o que há por trás do que chamamos de real?

A metafísica, essa velha conhecida dos filósofos desde os tempos de Aristóteles, sempre nos confronta com o enigma fundamental: existe algo além do que podemos perceber? E, se existe, podemos compreender? Ou será que nossa busca por respostas é apenas um reflexo de uma inquietação incurável, uma necessidade de dar sentido ao que talvez não tenha nenhum?

A questão central dos enigmas metafísicos reside na natureza do ser e da realidade. Desde Parmênides, que via o ser como uno e imutável, até Kant, que nos alertou sobre os limites da razão para acessar o "númeno", a filosofia sempre oscilou entre a esperança de um conhecimento absoluto e o reconhecimento de que talvez nunca toquemos a essência última das coisas.

Podemos pensar no enigma metafísico como aquele momento de hesitação entre o que é e o que poderia ser. Muitas vezes, a vida cotidiana nos dá lampejos dessa perplexidade: ao reviver uma memória e sentir que o passado ainda pulsa no presente, ao encarar o céu noturno e suspeitar que o infinito nos observa de volta, ou ao se deparar com a estranha sensação de que há algo além do simples fluxo de eventos.

Schopenhauer sugeria que o mundo é representação e vontade, ou seja, uma ilusão moldada pelo nosso querer. Já Heidegger apontava que esquecemos a própria questão do Ser, vivendo num modo automático que nos afasta do assombro diante da existência. E é justamente esse assombro que mantém vivo o enigma metafísico: uma indagação constante que não se satisfaz com respostas definitivas.

Talvez a chave não esteja em resolver o enigma, mas em habitá-lo. Viver com essa inquietação como se fosse uma centelha que ilumina, ainda que fracamente, os recantos mais profundos da experiência humana. Se há algo além do visível, talvez só possamos percebê-lo no intervalo entre um pensamento e outro, no silêncio que se insinua entre as palavras, no instante em que o mistério se revela apenas para logo desaparecer.

E, assim, seguimos.