Cansaço
Moral e Fadiga de Sentido
Há
um tipo de cansaço que não melhora com sono. A gente dorme, acorda, toma banho,
cumpre o roteiro do dia — e mesmo assim algo continua pesado. Não é o corpo: é
o sentido. Ou melhor, a falta dele. Esse é o território onde o cansaço moral
encontra a fadiga de sentido.
O
cansaço moral nasce quando tudo exige uma posição. Opinar, reagir, escolher
lados, demonstrar indignação correta, empatia calibrada, discurso ajustado. O
mundo virou um teste contínuo de caráter — público, rápido e sem direito a
silêncio. Não é que faltem causas justas; é que falta intervalo. Falta o
direito de não responder imediatamente a tudo, de não transformar cada
acontecimento em identidade.
Já
a fadiga de sentido aparece quando, mesmo fazendo “as coisas certas”, nada
parece realmente necessário. Trabalha-se, consome-se, fala-se, compartilha-se —
mas a pergunta silenciosa insiste: para quê? Não é niilismo declarado; é
um esvaziamento discreto. A vida continua funcionando, mas sem densidade.
Byung-Chul
Han chama isso de uma sociedade do desempenho que nos adoece não pela
proibição, mas pelo excesso de possibilidade. Tudo pode, tudo deve, tudo é
projeto. O resultado não é liberdade, é exaustão. Eu acrescentaria: uma
exaustão moral, porque até descansar parece um dever mal cumprido.
No
cotidiano isso aparece em gestos pequenos. A mensagem que você responde por
obrigação, não por desejo. A opinião que você repete porque “é o que se
espera”. O incômodo difuso de estar sempre atrasado em relação a alguma causa,
algum debate, alguma versão melhor de si mesmo. Não é culpa no sentido clássico
— é desgaste ético.
Ailton
Krenak oferece um desvio interessante: talvez estejamos cansados porque fomos
convencidos de que a vida precisa justificar-se o tempo todo. Produzir,
explicar, provar utilidade. Quando o sentido vira planilha, ele cansa. Quando
tudo precisa servir para algo maior, nada serve para nos sustentar por dentro.
Talvez
a saída não seja encontrar mais sentido, mas reduzir o ruído que o
sufoca. Aceitar que nem toda experiência precisa virar posicionamento. Que o
silêncio também é uma forma de cuidado. Que não responder já é, às vezes, uma
resposta ética.
O
cansaço moral não se cura com slogans motivacionais. A fadiga de sentido não se
resolve com produtividade. Ambos pedem algo mais simples e mais difícil:
reconectar-se com aquilo que não precisa ser exibido, defendido ou explicado.
Aquilo que, quando acontece, não cansa — mesmo quando dá trabalho.
No
fim, talvez descansar seja reaprender a viver sem estar o tempo todo se
justificando para o mundo.
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