Eu tenho a impressão de que a memória não ama a rotina. Ela ama a ruptura.
Os
dias iguais se empilham sem deixar vestígios. Mas basta uma mudança mínima — um
caminho diferente, uma cadeira trocada de lugar, uma conversa inesperada — para
que aquele dia ganhe contorno. A memória, curiosamente, não registra o que se
repete; ela registra o que desloca.
É
por isso que lembramos com nitidez de viagens, despedidas, primeiros encontros,
últimos encontros. E esquecemos semanas inteiras de normalidade. A memória tem
essa tendência quase poética: fixar as diferenças, não as mesmices.
No
cotidiano isso é evidente. Eu não lembro de todos os cafés que tomei, mas
lembro daquele em que alguém disse algo que me mudou um pouco. Não lembro de
todas as voltas para casa, mas lembro da que fiz em silêncio absoluto, como se
estivesse atravessando outra pessoa.
A
mudança de cenário não precisa ser geográfica. Às vezes é apenas interna. Um
pensamento novo já é uma paisagem nova.
Heráclito
diria que ninguém entra duas vezes no mesmo rio — mas a memória, ainda mais
radical, escolhe lembrar só quando percebe que a água já não é a mesma. O que
não muda, ela deixa escorrer.
Talvez
por isso a gente se recorde mais dos conflitos do que das harmonias, mais das
viradas do que das continuidades. Não porque o conflito seja maior, mas porque
ele quebra o padrão. Ele cria relevo.
A
mesmice constrói a vida.
A
diferença constrói a lembrança.
E
no fim, percebo algo curioso: não somos feitos daquilo que vivemos todos os
dias, mas daquilo que, em algum momento, nos tirou do lugar.
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