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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mudança de Cenário

Eu tenho a impressão de que a memória não ama a rotina. Ela ama a ruptura.

Os dias iguais se empilham sem deixar vestígios. Mas basta uma mudança mínima — um caminho diferente, uma cadeira trocada de lugar, uma conversa inesperada — para que aquele dia ganhe contorno. A memória, curiosamente, não registra o que se repete; ela registra o que desloca.

É por isso que lembramos com nitidez de viagens, despedidas, primeiros encontros, últimos encontros. E esquecemos semanas inteiras de normalidade. A memória tem essa tendência quase poética: fixar as diferenças, não as mesmices.

No cotidiano isso é evidente. Eu não lembro de todos os cafés que tomei, mas lembro daquele em que alguém disse algo que me mudou um pouco. Não lembro de todas as voltas para casa, mas lembro da que fiz em silêncio absoluto, como se estivesse atravessando outra pessoa.

A mudança de cenário não precisa ser geográfica. Às vezes é apenas interna. Um pensamento novo já é uma paisagem nova.

Heráclito diria que ninguém entra duas vezes no mesmo rio — mas a memória, ainda mais radical, escolhe lembrar só quando percebe que a água já não é a mesma. O que não muda, ela deixa escorrer.

Talvez por isso a gente se recorde mais dos conflitos do que das harmonias, mais das viradas do que das continuidades. Não porque o conflito seja maior, mas porque ele quebra o padrão. Ele cria relevo.

A mesmice constrói a vida.

A diferença constrói a lembrança.

E no fim, percebo algo curioso: não somos feitos daquilo que vivemos todos os dias, mas daquilo que, em algum momento, nos tirou do lugar.

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