Eu não escolho todas as lembranças que tenho. Muitas delas me escolhem.
Elas
surgem sem aviso: no cheiro de terra molhada, numa música antiga, numa luz de
fim de tarde. Não chegam completas — chegam como fragmentos, como sensações que
pedem tradução. E, aos poucos, vão se transformando em histórias dentro de mim.
As
lembranças suscitadas não são convocadas pela vontade, mas pelo encontro. Um
objeto, um som, um gesto qualquer toca um fio invisível, e de repente eu estou
em outro tempo, com outro corpo, com outra inocência.
Curiosamente,
essas lembranças não vêm para informar. Vêm para afetar. Elas não dizem “foi
assim”, dizem “foi importante”.
Às
vezes não lembro do rosto, mas lembro do cuidado.
Não
lembro da fala, mas lembro do impacto.
Não
lembro do dia, mas lembro de quem eu era naquele dia.
Proust
dizia que a memória verdadeira é involuntária. Talvez porque só aquilo que
realmente nos tocou saiba encontrar sozinho o caminho de volta.
E
assim, percebo que não sou feito apenas das lembranças que guardo, mas também
das que me visitam quando eu já tinha esquecido que elas existiam.
No
fundo, as lembranças suscitadas são cartas que o passado
ainda escreve para o presente — não para nos prender, mas para nos lembrar, com
delicadeza, de quem já fomos sem saber.
Nenhum comentário:
Postar um comentário