Há
dias em que a solidão não é um quarto vazio, mas um poço. Não um poço
assustador — daqueles de filme de terror —, mas um poço fundo, silencioso, onde
a gente escuta melhor o próprio eco. Eu caio nele sem perceber: quando o
celular fica mudo, quando a conversa termina cedo demais, quando percebo que
ninguém vai notar se eu demorar um pouco mais para voltar.
O
curioso é que, nesse poço, não estou exatamente só. Estou comigo. E isso, às
vezes, é mais difícil do que lidar com os outros.
No
cotidiano, o poço aparece em formas discretas: na mesa do almoço, quando todo
mundo fala e eu apenas mastigo; no ônibus, quando olho os reflexos no vidro e
não reconheço muito bem quem está ali; na noite em que não tenho vontade de
ligar para ninguém, mas também não quero ficar em silêncio. É uma solidão que
não dói como abandono — dói como espelho.
Mário
Quintana dizia que “a solidão é uma ilha com saudade de
continente”. Acho bonito, mas incompleto. Porque há dias em que a ilha não
quer continente nenhum. Quer apenas entender por que existe. O poço, então, não
é fuga: é descida.
E
toda descida tem risco. A gente pode se perder no fundo, confundir silêncio com
vazio, introspecção com desistência. Mas também pode encontrar algo que o
barulho da vida esconde: perguntas que nunca fizemos, vontades que nunca
admitimos, medos que fingimos não ter.
Já
percebi que há dois tipos de solidão. A que nos empobrece — quando nos sentimos
invisíveis. E a que nos afina — quando começamos a ouvir camadas mais profundas
de nós mesmos. O poço de solidão pode ser túmulo ou nascente. Depende do que
fazemos lá embaixo.
Às
vezes eu volto com pouco: uma frase, uma lembrança, uma vontade de mudar algo
pequeno. Às vezes volto apenas mais leve, como quem não resolveu nada, mas
entendeu melhor o problema.
Talvez
a solidão não seja ausência de companhia, mas excesso de interior.
E
talvez o poço não exista para nos engolir, mas para nos ensinar a subir com
mais consciência de quem somos.
Porque
no fundo do poço, descobri uma coisa simples: não é a solidão que assusta — é o
encontro que ela provoca.
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