Não vem com trombetas — vem com notificações.
Hoje,
o fim do mundo não acontece de uma vez. Ele acontece em parcelas, em
atualizações, em alertas no celular, em gráficos vermelhos, em discursos
inflamados, em silêncios constrangidos. O apocalipse contemporâneo não é um
evento: é um clima.
Não
há cavaleiros do Apocalipse descendo do céu. Há entregadores exaustos subindo
escadas. Não há pragas bíblicas, mas há ansiedade coletiva, solidão em massa,
excesso de informação e falta de sentido. O mundo não acaba em chamas — ele se
desgasta.
Eu
percebo isso quando entro num supermercado: prateleiras cheias, pessoas vazias.
Quando abro as redes sociais: todos opinando, quase ninguém escutando. Quando
vejo debates políticos: não é mais sobre ideias, é sobre aniquilar o outro. O
apocalipse de hoje é relacional.
Antigamente,
o fim do mundo era imaginado como punição divina. Hoje, ele parece mais uma
consequência lógica. Consumimos como se não houvesse amanhã, e depois nos
assustamos quando o amanhã começa a faltar. Falamos de sustentabilidade como
quem pede desculpa sem intenção de mudar.
Bauman
talvez
diria que vivemos um apocalipse líquido: nada explode, tudo escorre. As
instituições escorrem, os vínculos escorrem, as certezas escorrem. E a gente
tenta segurar tudo com as mãos abertas.
O
curioso é que esse apocalipse não elimina a esperança — ele a torna frágil.
Ainda há gestos pequenos que salvam o mundo todos os dias: alguém que escuta,
alguém que cuida, alguém que resiste à brutalidade sendo gentil. Mas esses
gestos não viram manchete.
O
tema apocalíptico da atualidade não é o fim da humanidade. É o risco de
continuarmos vivos sem humanidade.
E
talvez o verdadeiro juízo final não seja externo. Talvez seja íntimo. A
pergunta não é “quando o mundo acaba?”, mas:
em
que momento eu deixei de sentir que ele podia melhorar?
Porque
o apocalipse mais perigoso não é o que destrói cidades — é o que convence as
pessoas de que não vale mais a pena reconstruí-las.
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