Uma filosofia de quem confia no óbvio sem ser ingênuo
Com
café e chão frio
Todo
dia a vida nos faz uma pergunta nada metafísica: “e agora?”
Não é “qual é o sentido último do ser”, nem “o que a humanidade
deveria se tornar”. É mais simples — e mais cruel: o despertador tocou, o
boleto venceu, alguém espera uma resposta.
É
nesse território pouco nobre, mas absolutamente real, que nasce o Realismo
Prático. Uma filosofia que não despreza ideias, mas também não sacrifica a
vida concreta no altar das teorias. Uma filosofia que começa não com grandes
sistemas, mas com algo quase esquecido: o bom senso levado a sério.
Aqui,
G. E. Moore aparece não como um convidado distante, mas como
alguém que já estava sentado à mesa.
Moore e a defesa do óbvio
G.
E. Moore ficou famoso por fazer algo quase escandaloso para a filosofia do
século XX: defender o senso comum. Enquanto muitos filósofos tentavam
provar que o mundo externo talvez não existisse, Moore levantava a mão e dizia,
com uma tranquilidade desconcertante:
“Aqui está uma mão. Aqui
está outra. Logo, existem coisas externas.”
Isso não era ingenuidade.
Era uma recusa elegante ao exagero teórico.
O
Realismo Prático herda exatamente essa atitude: antes de desconfiar demais da
realidade, confie no que está claramente diante de você. Você está
cansado? Provavelmente está. A situação no trabalho é insustentável? Talvez
seja. Nem tudo é ilusão ideológica ou construção discursiva.
No
cotidiano, isso é libertador. Em vez de racionalizar o sofrimento como “fase de
aprendizado” ou “desconstrução necessária”, o realista prático diz: isso
está ruim — e isso é um dado real.
A falácia naturalista e a
ética do possível
Moore
também nos deixou uma advertência essencial: a crítica à falácia naturalista
— a tentativa de reduzir o “bom” a alguma propriedade natural como prazer,
sucesso, eficiência ou adaptação.
O
Realismo Prático dialoga com isso de maneira curiosa. Ele não diz que o que
funciona é automaticamente o que é bom. Mas também não aceita o
inverso: que o que é moralmente bom possa ignorar completamente as condições
reais da vida.
Exemplo
simples:
Ser
honesto é bom. Mas ser honestíssimo de forma cega, num ambiente hostil, pode
destruir você sem melhorar o mundo. O Realismo Prático não redefine o bem como
“o que dá certo”, mas pergunta: como o bem pode existir aqui, nessas
condições concretas?
Moore
nos ajuda a não reduzir a ética à eficiência. A vida nos obriga a não reduzir a
ética à abstração. O Realismo Prático vive exatamente nessa tensão.
O cotidiano como critério
filosófico
Para
Moore, algumas certezas do cotidiano têm mais peso do que teorias sofisticadas
que as negam. O Realismo Prático radicaliza isso: o cotidiano vira critério
de teste filosófico.
- Se uma ideia exige que você ignore
seus limites físicos e emocionais, algo está errado.
- Se uma teoria explica tudo, menos sua
experiência real, desconfie.
- Se um discurso é impecável, mas
impossível de viver, talvez seja apenas isso: discurso.
Na
família, por exemplo, você sabe — no sentido mooreano de saber — que nem todo
conflito se resolve com diálogo profundo. Às vezes se resolve com silêncio
estratégico, mudança de assunto, ou simplesmente tempo. Isso não é fuga; é
inteligência prática.
Nem ceticismo radical,
nem idealismo puro
Moore
combateu o ceticismo excessivo. O Realismo Prático combate dois excessos ao
mesmo tempo:
- o idealismo puro, que exige
que a realidade se ajuste aos valores imediatamente;
- o ceticismo cínico, que
conclui que, já que não se ajusta, nada tem valor.
O
realista prático confia em algumas coisas básicas, como Moore confiava: que o
sofrimento dói, que o esforço cansa, que a injustiça existe, que escolhas têm
consequências. Não precisa provar isso — vive isso.
E, a partir daí, age.
Confiar no real para não
perder o sentido
O
Realismo Prático é uma filosofia pouco espetacular. Não promete iluminação, nem
revolução imediata. Mas oferece algo raro: lucidez habitável.
Com
Moore, ele aprende a não desconfiar demais do óbvio.
Com
a vida, aprende a não exigir demais do possível.
Talvez
a maior ousadia do Realismo Prático seja essa: afirmar que viver bem não exige
negar o mundo nem se render a ele — mas entendê-lo o suficiente para agir
sem se destruir.
E
isso, no fim das contas, é uma forma muito concreta — e muito humana — de
sabedoria.