Entre o tempo que passa e o ser que permanece
O
último dia do ano não pede barulho. Ele acontece melhor quando a casa já está
meio arrumada, o celular esquecido na mesa e o relógio andando como sempre
andou. Não há nada de espetacular no tempo virando. O espetáculo é termos
atravessado mais uma vez.
O
tempo não é um inimigo a ser vencido nem um aliado confiável. Ele é um meio
— como o rio que não pergunta quem somos, mas nos leva mesmo assim. Ao longo do
ano, fomos levados. Perdemos coisas, ganhamos outras, cansamos, insistimos. E,
no meio disso tudo, algo em nós permaneceu silenciosamente igual.
Essa
é talvez a primeira intuição espiritual do fim do ano: nem tudo muda quando
o tempo muda.
O
ser que não se mede em datas
Costumamos
tratar o ano como um recipiente: nele colocamos metas, expectativas, promessas.
Mas o ser não cabe nisso. A vida interior amadurece fora do calendário.
Enquanto o mundo exigia velocidade, algo em nós pedia apenas permanência.
Quantas
vezes seguimos vivendo sem entender direito o sentido, apenas sustentando o
dia? Trabalhar, responder mensagens, preparar a comida, atravessar a rua,
dormir cansado. Não houve epifania, não houve revelação — e, ainda assim, houve
fidelidade. Há uma espiritualidade profunda em continuar.
O
ser não se afirma nos grandes gestos, mas no modo como se permanece humano
quando ninguém está olhando.
O
silêncio como lugar de verdade
O
fim do ano nos devolve ao silêncio — mesmo quando tentamos preenchê-lo com
festas, música e contagens regressivas. Porque o silêncio não é ausência de
som, é ausência de distração. E quando ele chega, a pergunta aparece: quem
fui eu neste tempo?
Nem
sempre há resposta. E isso não é falha espiritual. Algumas perguntas não foram
feitas para serem respondidas, mas para nos habitar. Houve momentos em
que o sentido não veio, em que Deus — ou o significado — pareceu calado. O
silêncio, porém, não foi vazio. Ele sustentou.
Talvez
a maior maturidade espiritual seja aceitar que o silêncio também é linguagem.
O
cotidiano como espaço sagrado
O
ano não aconteceu nos grandes eventos. Ele aconteceu nas pequenas repetições:
no café tomado às pressas, no cansaço do fim da tarde, nas conversas
interrompidas, nos gestos automáticos. O cotidiano não é o que sobra da vida
espiritual; ele é o seu campo principal.
Lavar
a louça quando não se quer. Cumprir o dever sem aplauso. Cuidar de quem não
reconhece. Há algo de sagrado nisso — não porque seja bonito, mas porque é
real. O espírito não se revela apenas na elevação, mas na aceitação do chão.
O
tempo como revelador, não como juiz
O
ano não nos avaliou. Ele apenas mostrou. Mostrou o que era entusiasmo e o que
era caráter. O que era desejo passageiro e o que era necessidade profunda.
Algumas coisas se perderam porque não tinham raiz. Outras ficaram porque eram
parte do nosso centro.
Não
saímos melhores. Talvez saímos mais conscientes. Menos iludidos. Um pouco mais
cansados — e, paradoxalmente, mais verdadeiros.
Fechar
o ano não é fechar a alma
O
novo ano não será um recomeço mágico. Ele será continuidade. A mesma vida, em
outro capítulo. O mesmo ser, atravessado por mais tempo. Não precisamos
prometer nada. Basta estar.
No
fundo, o gesto espiritual mais honesto deste último dia é simples: reconhecer
que fomos atravessados e seguimos de pé. Com falhas, com silêncios, com
pequenas fidelidades.
O
tempo passa.
O
ser permanece.
O
silêncio sustenta.
E
o cotidiano, discreto, continua sendo o lugar onde tudo realmente acontece.
—
E isso basta, por agora.
Feliz
Ano Novo!
Feliz
2026!