A
crise de pertencimento não costuma anunciar sua chegada. Ela não quebra portas
nem levanta a voz; entra devagar, como quem já conhece a casa. Um dia, quase
sem perceber, estamos nos lugares certos — no trabalho, entre amigos, na
família, nas redes — e, ainda assim, com a sensação incômoda de não estar
realmente em lugar nenhum.
Esse
mal-estar é difícil de nomear. Não é solidão, porque há pessoas por perto. Não
é rejeição, porque ninguém nos expulsou. É algo mais sutil: a impressão de
viver como um convidado permanente da própria vida, alguém que
participa, mas não habita.
No
cotidiano, a crise se revela em gestos pequenos. Rimos na hora certa, mas o
riso vem um pouco oco. Concordamos para evitar desgaste. Ajustamos opiniões,
afetos e até silêncios para caber nos ambientes. Socialmente, tudo funciona.
Interiormente, algo fica em suspenso, como se estivéssemos sempre “de
passagem”.
Há
um paradoxo cruel nisso tudo: quanto mais tentamos pertencer a todos os
lugares, menos pertencemos a algum. O pertencimento verdadeiro exige risco — o
risco de destoar, de sustentar diferenças, de não ser imediatamente aceito. E
esse risco cansa. Por isso, tantas vezes preferimos a adaptação silenciosa à
fricção de sermos quem somos.
Essa
crise também tem uma dimensão temporal. Não pertencemos apenas a grupos, mas a histórias.
Quando a narrativa que contamos sobre nós mesmos deixa de combinar com a vida
que levamos, surge uma fratura interna. É como morar numa casa que um dia foi
familiar, mas cujos cômodos já não reconhecemos. Continuamos ali por hábito,
não por sentido.
Um
exemplo muito atual dessa crise aparece no mundo do trabalho híbrido ou remoto.
Muita gente tem emprego, salário, reuniões semanais, metas claras — e, ainda
assim, sente que não faz parte de nada. Não pertence mais ao escritório, que
virou um espaço ocasional, quase simbólico. Tampouco pertence totalmente à
casa, transformada em extensão do expediente. Vive-se entre telas, agendas e
notificações, sem chão.
Essa
sensação aparece em detalhes banais: ligar a câmera e sentir que está encenando
um papel profissional; participar de decisões sem perceber que sua voz
realmente pesa; não saber se o colega é parceiro, concorrente ou apenas um
avatar cordial. Externamente, tudo parece em ordem. Internamente, surge a
pergunta silenciosa e corrosiva: “se eu sair daqui, o que exatamente eu era
aqui?”
Esse
tipo de crise é típico do nosso tempo porque não nasce da exclusão explícita,
mas da diluição dos vínculos. Não há conflito aberto, apenas uma
ausência de raízes. A pessoa não é rejeitada — ela é substituível, e sabe
disso. O pertencimento não é negado; ele é esvaziado.
Mas
há algo importante a reconhecer: a crise de pertencimento não é necessariamente
um fracasso. Muitas vezes, ela surge quando amadurecemos o suficiente para
perceber que pertencer não é apenas estar presente, mas ser reconhecido — e se
reconhecer — naquele lugar. Não basta ocupar um espaço; é preciso que ele faça
sentido.
No
fundo, talvez essa crise não seja sobre encontrar onde nos encaixar, mas sobre
escutar o que em nós não quer mais se encaixar. O desconforto, então,
deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a ser um sinal. Um convite
difícil, mas honesto, a reorganizar vínculos, escolhas e narrativas.
A
crise de pertencimento dói porque desmonta certezas. Mas, às vezes, é
justamente ela que nos devolve algo raro: a possibilidade de pertencer, não a
todos os lugares, mas ao próprio caminho.

