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sábado, 6 de dezembro de 2025

Preconceito Intelectual


Eu sempre achei curioso como, na vida cotidiana, a gente convive com um tipo de preconceito que ninguém gosta de admitir que pratica: o preconceito intelectual. Ele não aparece com insultos explícitos, não deixa marcas visíveis e raramente alguém aponta o dedo dizendo “olha, isso aí é preconceito”. Ele é mais sutil, quase elegante, um preconceito que anda de gravata, óculos de armação grossa e uma certa pose de “eu sei das coisas”.

Ele surge quando alguém tenta explicar um assunto simples usando palavras difíceis só para marcar território. Ou quando uma pessoa, diante de algo que nunca leu, afirma com convicção que “não presta” — não porque analisou, mas porque não é do seu repertório. Surge também no trabalho, quando alguém desacredita a ideia do colega “menos instruído”, mesmo antes que a proposta seja apresentada. Preconceito intelectual não julga a ideia: julga quem está pensando.

No fundo, é uma maneira de hierarquizar pessoas por aquilo que supostamente sabem — ou parecem saber. Mas saber não é ostentação; saber é convivência, movimento, curiosidade. Só que, muitas vezes, o conhecimento vira uma arma simbólica para excluir, para humilhar, para diminuir.

A raiz do preconceito: saber como poder

Michel Foucault, em sua eterna briga com as estruturas de poder, lembrava que “todo saber é uma forma de poder”. Não por causa do conhecimento em si, mas porque a sociedade transforma certos saberes em legitimadores de autoridade. E, quando um conhecimento ganha prestígio, automaticamente os que não dominam esse saber são tratados como inferiores. É aí que nasce o preconceito intelectual: não da inteligência, mas do uso social que fazemos dela.

É interessante observar como isso aparece nas profissões. No escritório, a opinião da pessoa com diploma é considerada naturalmente mais válida do que a do funcionário que “só terminou o ensino médio”. O engraçado é que, muitas vezes, o segundo sabe mais da prática e enxerga soluções que o primeiro nunca imaginaria — mas a voz dele vale menos. Não por falta de capacidade, mas por falta de “cartório cultural”.

No cotidiano, pequenas situações mostram esse viés:

– quando alguém ri do sotaque que entrega origem humilde, como se pronúncia anulasse argumento;
– quando olhares de desprezo surgem em mesas onde o “intelectualizado” não admite que o conhecimento popular também é sabedoria;

– quando a pessoa que sabe pouco se cala por medo de parecer “burra”, como se a ignorância fosse uma sentença, e não uma etapa de aprendizado.

O mito da superioridade cognitiva

O preconceito intelectual também impede encontros. Ele cria muros invisíveis entre mundos sociais. Quem se acha intelectualmente superior vive como se estivesse em uma torre, olhando o restante da sociedade de cima — mas sem perceber que a vista lá de cima é limitada, porque só enxerga a perspectiva própria.

A filósofa brasileira Marilena Chaui já alertava que nossa cultura carrega uma “ideologia da competência”: a crença de que só quem domina certos códigos tem direito de falar, participar, ser ouvido. É a ideia de que existe um tipo de pessoa autorizada a ter opinião — e o resto deve obedecer.

Essa crença é perigosa porque transforma conhecimento em um clube exclusivo. E ninguém aprende nada novo dentro de um clube exclusivo; aprende-se na troca, na conversa, no encontro. O preconceito intelectual, portanto, não atrapalha apenas o outro — ele empobrece quem o praticou.

O outro lado: a vergonha intelectual

Existe também o outro lado desse fenômeno: a vergonha de demonstrar conhecimento. É o medo de parecer “metido”, “sabichão”, “intelectual demais”. É como se pensar profundamente fosse um ato proibido, um exagero. Assim, a sociedade cria um paradoxo: despreza quem sabe pouco, mas também reprime quem sabe muito. No meio do caminho, ficamos todos empobrecidos.

Caminhos para romper o ciclo

Lidar com o preconceito intelectual exige uma humildade muito específica: a humildade cognitiva. Não é fingir que não sabe nada, mas admitir que ninguém sabe tudo. Que conhecimento é fluxo. Que toda pessoa — da mais instruída à mais simples — carrega um pedaço do mundo que você não conhece.

A quebra desse preconceito começa quando olhamos para a inteligência do outro sem impor hierarquias. Quando entendemos que existem muitas formas de saber: o saber do livro, o saber da experiência, o saber intuitivo, o saber emocional, o saber artesanal. Nenhum é menor. Nenhum é dispensável.

Aprender é habitar o mundo com menos arrogância

O preconceito intelectual é uma forma silenciosa de violência simbólica. Ele humilha, exclui e diminui, quase sempre sem que percebamos. Mas, ao reconhecê-lo, abrimos espaço para um mundo mais plural, onde o conhecimento deixa de ser instrumento de poder e volta a ser aquilo que deveria ser desde o início: uma forma de convivência.

No fim, talvez a verdadeira inteligência seja esta: a capacidade de aprender sem se sentir superior, e de ensinar sem fazer o outro se sentir menor.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Princípio da Arrogância

Se tem uma coisa que o tempo ensina, é que a arrogância sempre chega antes da queda. Mas, por algum motivo, continuamos a tropeçar nela. Sabe aquele colega que fala com a certeza de um profeta, como se carregasse a verdade universal no bolso? Ou o amigo que não ouve ninguém porque já decidiu que só ele entende do assunto? Pois é. Esse tipo de postura parece ser quase um princípio regente da humanidade: a crença exagerada na própria infalibilidade. E isso não acontece apenas no nível individual; vemos esse fenômeno na política, na ciência, na cultura e até nas pequenas interações cotidianas. Mas o que está por trás desse princípio da arrogância?

A arrogância nasce da ilusão de controle e conhecimento absoluto. Como observou Sócrates, a verdadeira sabedoria está em reconhecer a própria ignorância. Mas, paradoxalmente, quanto menos uma pessoa sabe, mais tende a achar que sabe tudo. O chamado efeito Dunning-Kruger explica isso bem: indivíduos com pouca competência em determinado tema tendem a superestimar seu próprio conhecimento, enquanto os mais experientes frequentemente têm humildade para reconhecer o quanto ainda ignoram.

No campo filosófico, a arrogância tem raízes profundas. Nietzsche, por exemplo, alertava sobre os perigos da vontade de poder que cega o indivíduo e o faz acreditar que pode definir unilateralmente o que é verdade. O problema não está na busca pela verdade, mas na ilusão de que já a possuímos por completo. Da mesma forma, Kant argumentava que o conhecimento humano é limitado pelas estruturas da própria mente, sendo impossível acessar a "coisa em si", ou seja, a realidade pura e objetiva. A arrogância, nesse sentido, é um engano duplo: presume-se não apenas que se conhece, mas que se conhece sem limites.

O princípio da arrogância também se reflete na sociedade contemporânea, onde a opinião virou mercadoria e a certeza virou moeda de troca. Nas redes sociais, por exemplo, a humildade intelectual é quase um defeito. Quem titubeia, pondera ou revisa suas próprias ideias perde espaço para quem brada certezas inabaláveis. Mas essa necessidade de parecer certo o tempo todo não é apenas uma questão de ego; ela se alimenta da ansiedade de um mundo hiperconectado, onde admitir dúvida pode parecer fraqueza.

Como escapar desse princípio? A resposta passa, inevitavelmente, por um compromisso radical com a humildade intelectual. Isso não significa submissão ou relativismo absoluto, mas um reconhecimento sincero de que nosso conhecimento sempre será parcial. Um bom antídoto contra a arrogância é a curiosidade: questionar mais, ouvir mais, e duvidar mais de nossas certezas. Como dizia Montaigne, "só sei que nada sei", mas ao menos isso já é um começo.

No fim das contas, a arrogância é um paradoxo: ela tenta nos fazer parecer mais fortes, mas nos torna mais frágeis. E, assim como Ícaro, que voou alto demais, a queda é apenas uma questão de tempo.