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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Crise de Pertencimento


A crise de pertencimento não costuma anunciar sua chegada. Ela não quebra portas nem levanta a voz; entra devagar, como quem já conhece a casa. Um dia, quase sem perceber, estamos nos lugares certos — no trabalho, entre amigos, na família, nas redes — e, ainda assim, com a sensação incômoda de não estar realmente em lugar nenhum.

Esse mal-estar é difícil de nomear. Não é solidão, porque há pessoas por perto. Não é rejeição, porque ninguém nos expulsou. É algo mais sutil: a impressão de viver como um convidado permanente da própria vida, alguém que participa, mas não habita.

No cotidiano, a crise se revela em gestos pequenos. Rimos na hora certa, mas o riso vem um pouco oco. Concordamos para evitar desgaste. Ajustamos opiniões, afetos e até silêncios para caber nos ambientes. Socialmente, tudo funciona. Interiormente, algo fica em suspenso, como se estivéssemos sempre “de passagem”.

Há um paradoxo cruel nisso tudo: quanto mais tentamos pertencer a todos os lugares, menos pertencemos a algum. O pertencimento verdadeiro exige risco — o risco de destoar, de sustentar diferenças, de não ser imediatamente aceito. E esse risco cansa. Por isso, tantas vezes preferimos a adaptação silenciosa à fricção de sermos quem somos.

Essa crise também tem uma dimensão temporal. Não pertencemos apenas a grupos, mas a histórias. Quando a narrativa que contamos sobre nós mesmos deixa de combinar com a vida que levamos, surge uma fratura interna. É como morar numa casa que um dia foi familiar, mas cujos cômodos já não reconhecemos. Continuamos ali por hábito, não por sentido.

Um exemplo muito atual dessa crise aparece no mundo do trabalho híbrido ou remoto. Muita gente tem emprego, salário, reuniões semanais, metas claras — e, ainda assim, sente que não faz parte de nada. Não pertence mais ao escritório, que virou um espaço ocasional, quase simbólico. Tampouco pertence totalmente à casa, transformada em extensão do expediente. Vive-se entre telas, agendas e notificações, sem chão.

Essa sensação aparece em detalhes banais: ligar a câmera e sentir que está encenando um papel profissional; participar de decisões sem perceber que sua voz realmente pesa; não saber se o colega é parceiro, concorrente ou apenas um avatar cordial. Externamente, tudo parece em ordem. Internamente, surge a pergunta silenciosa e corrosiva: “se eu sair daqui, o que exatamente eu era aqui?”

Esse tipo de crise é típico do nosso tempo porque não nasce da exclusão explícita, mas da diluição dos vínculos. Não há conflito aberto, apenas uma ausência de raízes. A pessoa não é rejeitada — ela é substituível, e sabe disso. O pertencimento não é negado; ele é esvaziado.

Mas há algo importante a reconhecer: a crise de pertencimento não é necessariamente um fracasso. Muitas vezes, ela surge quando amadurecemos o suficiente para perceber que pertencer não é apenas estar presente, mas ser reconhecido — e se reconhecer — naquele lugar. Não basta ocupar um espaço; é preciso que ele faça sentido.

No fundo, talvez essa crise não seja sobre encontrar onde nos encaixar, mas sobre escutar o que em nós não quer mais se encaixar. O desconforto, então, deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a ser um sinal. Um convite difícil, mas honesto, a reorganizar vínculos, escolhas e narrativas.

A crise de pertencimento dói porque desmonta certezas. Mas, às vezes, é justamente ela que nos devolve algo raro: a possibilidade de pertencer, não a todos os lugares, mas ao próprio caminho.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Ser Você

Ontem, enquanto estava na fila do supermercado, uma cena me chamou a atenção. Uma mulher, visivelmente cansada após um longo dia de trabalho, se encontrava no dilema de escolher entre duas filas: uma mais curta, mas com um caixa mal-humorado, e outra mais longa, mas com um atendente sorridente e conversador. Sem hesitar, ela escolheu a fila do atendente simpático. Enquanto esperava, ela começou a conversar com as pessoas ao redor, espalhando sua energia positiva. Este simples ato me fez pensar sobre a importância de ser você mesmo, independentemente da situação.

No dia a dia, muitas vezes nos vemos pressionados a nos adaptar às expectativas dos outros ou às circunstâncias ao nosso redor. Seja no trabalho, na vida social, ou até mesmo em momentos triviais, a tentação de "se encaixar" pode ser forte. Mas, como mostrou a mulher na fila do supermercado, ser autêntico pode transformar uma situação comum em algo especial.

Pense em uma reunião de trabalho, por exemplo. Muitas vezes, nos sentimos obrigados a agir de uma determinada maneira para parecer mais profissionais ou agradar nossos superiores. No entanto, aqueles que conseguem se manter fiéis a si mesmos, geralmente acabam se destacando. Eles trazem ideias originais, perspectivas únicas e uma energia que pode ser contagiante. Ser autêntico não só enriquece o ambiente de trabalho, mas também constrói relacionamentos mais genuínos e duradouros.

Um filósofo que sempre defendeu a autenticidade foi Søren Kierkegaard. Ele acreditava que viver de acordo com nossa verdadeira natureza é essencial para uma vida plena e significativa. Para Kierkegaard, a autenticidade não é apenas um ideal, mas uma necessidade para a realização pessoal. Ele nos lembra que, ao sermos fiéis a nós mesmos, encontramos um sentido mais profundo na vida, algo que vai além das expectativas superficiais da sociedade.

Outro exemplo é aquele amigo que todos nós temos, que é exatamente o mesmo em todas as situações: seja numa festa animada ou numa reunião familiar, ele sempre mantém sua essência. Essas pessoas não se deixam levar pelo ambiente ou pelas opiniões alheias. Elas têm uma confiança interna que as permite navegar por diferentes contextos sem perder sua identidade.

No entanto, ser autêntico não significa ser inflexível. É possível adaptar-se às circunstâncias sem perder a essência de quem somos. Isso envolve uma dança delicada entre manter nossos valores e estar aberto a novas experiências. Imagine um professor que adapta suas aulas ao interesse dos alunos, sem deixar de transmitir os conhecimentos e valores que considera importantes. Ele encontra um equilíbrio entre ser ele mesmo e atender às necessidades dos outros.

Por fim, a autenticidade também tem um impacto positivo em nossa saúde mental. Ao nos libertarmos da necessidade constante de agradar ou nos encaixar, reduzimos o estresse e a ansiedade. Vivemos de forma mais leve e verdadeira, o que contribui para um bem-estar geral. Portanto, quando se encontrar numa situação onde sente a pressão de se adaptar, lembre-se da mulher na fila do supermercado. Escolha ser você mesmo, independente do que os outros possam pensar. Afinal, como disse Oscar Wilde: "Seja você mesmo; todos os outros já existem."