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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Boécio

Filosofia entre grades e estrelas

A gente nunca sabe o que fazer quando a vida vira do avesso. Pode ser um acidente, uma demissão, uma injustiça. De repente, tudo o que parecia seguro escorrega pelos dedos — como se o mundo tivesse girado sem aviso. Imagina, então, estar preso, acusado de traição, vendo sua reputação desmoronar e esperando a morte. Pois foi exatamente nesse cenário que um homem chamado Boécio escreveu um dos textos mais profundos da história da filosofia: A Consolação da Filosofia. E é aí que começa o paradoxo: como alguém pode ser consolado pela filosofia, enquanto está à beira do fim?

Boécio não buscava piedade, nem escreveu para se defender. Ele chamou a Filosofia — sim, com F maiúsculo — para conversar. No meio da cela, ela aparece como uma dama serena, relembrando que a sorte, essa dama caprichosa, muda como o vento. E mais: lembra Boécio de que tudo o que é externo pode ser tirado. A única posse verdadeira é a interior — aquilo que nem mesmo o cárcere consegue confiscar.

É nesse ponto que surge uma das imagens mais fortes que ele nos deixou: a Roda da Fortuna. Para Boécio, a vida é como essa roda giratória conduzida pela deusa Fortuna. Hoje estamos no topo, amanhã podemos estar esmagados embaixo. A roda não para — e nela, reis caem e miseráveis sobem. A tragédia, diz ele, não está em a roda girar, mas em acreditarmos que o topo é eterno. Apegar-se à posição atual é esquecer que tudo no mundo muda, e que confiar na fortuna é confiar no que não se pode controlar.

Inovador em sua época, Boécio fez o que quase nenhum pensador havia feito antes: fundiu a sabedoria estoica, a lógica de Aristóteles e a fé cristã em um único movimento de resistência intelectual. Ele acreditava que o universo não era caótico, mas guiado por uma razão superior — a Providência. E mesmo que os caminhos da fortuna pareçam injustos, a razão divina ainda conduz os acontecimentos para um bem maior. Em tempos de crise, isso soa quase como loucura. Mas talvez seja justamente aí que mora a sabedoria.

Em seu diálogo com a Filosofia, Boécio antecipa perguntas que ainda nos perseguem: por que pessoas boas sofrem? Qual o sentido do infortúnio? Existe justiça no mundo? E, acima de tudo, o que vale a pena manter quando tudo mais nos é tirado?

A resposta que Boécio nos oferece não vem de fora — não está nos bens, no status, na liberdade ou no sucesso. Vem de dentro, e se chama serenidade. Uma serenidade que não ignora a dor, mas a atravessa com firmeza. Não se trata de aceitar passivamente o sofrimento, mas de compreender sua natureza para que ele não nos destrua por dentro.

Talvez por isso Boécio tenha sido mais do que um prisioneiro injustiçado. Foi um mestre da interioridade. Enquanto tudo ao redor desabava, ele se elevava — não como fuga, mas como construção. Encarou o fundo do poço e, em vez de se desesperar, escreveu uma ponte filosófica para o alto.

Hoje, quando enfrentamos nossas próprias prisões — emocionais, sociais, existenciais —, talvez seja hora de reencontrar essa Dama Filosofia. E lembrar que, mesmo cercado pelas muralhas do mundo, ainda podemos conversar com a parte mais livre de nós mesmos.

Como diria o próprio Boécio, "a felicidade verdadeira não pode ser tocada pela fortuna, porque mora no interior do sábio". E quando a roda girar — porque ela sempre gira —, que estejamos firmes no centro, onde ela não nos arrasta, mas gira ao nosso redor.


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Roda da Fortuna

Outro dia, conversando com um amigo sobre como a vida parece brincar com a gente, ele disse: "Acho que a minha Roda da Fortuna emperrou." Rimos, mas no fundo, a metáfora era certeira. Tem fases em que tudo conspira a favor e momentos em que o destino parece rir na nossa cara. A Roda da Fortuna, um dos símbolos mais antigos da imprevisibilidade da vida, nos lembra que ninguém está permanentemente no topo — nem sempre no fundo.

A ideia da Roda da Fortuna tem raízes na Antiguidade. Os romanos viam Fortuna, a deusa do destino, como uma força cega que gira a roda ao acaso, elevando e derrubando pessoas sem aviso prévio. Na Idade Média, o conceito se tornou um lembrete moral: reis e mendigos eram igualmente sujeitos à instabilidade da existência. O pensador Boécio, em A Consolação da Filosofia, escreveu sobre como a verdadeira sabedoria está em não se apegar demais à boa sorte nem se desesperar diante da má sorte. Afinal, a roda gira.

No cotidiano, sentimos isso na pele. Um dia, um colega de trabalho recebe uma promoção inesperada, enquanto outro, tão competente quanto, é demitido sem explicação. A bolsa de valores sobe vertiginosamente e, no dia seguinte, despenca. Pessoas entram e saem da nossa vida sem que possamos prever. O que nos resta, então?

A resposta filosófica pode variar. Os estoicos sugeririam a apatheia, um estado de serenidade diante das mudanças. Nietzsche, por outro lado, falaria do amor fati — amar o destino, abraçar os altos e baixos como partes inseparáveis da existência. No Brasil, Clóvis de Barros Filho nos lembra que a felicidade não é um estado permanente, mas momentos fugazes que precisamos aproveitar sem ilusões de eternidade.

Talvez, no fim das contas, o segredo seja aprender a dançar conforme a música. Nem sempre temos controle sobre os giros da roda, mas podemos escolher como reagir a eles. E, quem sabe, entender que a beleza da vida está justamente nessa imprevisibilidade — porque se a roda parasse, perderíamos o encanto de esperar pelo próximo movimento.