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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Coisas pela Essência


Às vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.

Na correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a confiança.

O problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e paciência, pede coragem para atravessar as aparências.

Rubem Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no outro não só um rosto, mas um universo.

Olhar para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.

Fernando Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede em quantidade, mas em profundidade.

Então, olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o sabor mais puro.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Ataraxia

 


Então, vamos falar sobre a arte de não se abalar com o mundo em chamas...

Outro dia, estava parado no sinal vermelho, o sol estalando na testa, uma notificação no celular dizendo “urgente” (como quase todas dizem), e uma senhora buzinando atrás de mim como se isso fizesse o semáforo mudar de ideia. Nessa pequena arena cotidiana, percebi que tudo ao meu redor parecia pedir pressa, reação, opinião, posicionamento. E eu, sinceramente, só queria um momento de silêncio. Foi aí que me veio a palavra: ataraxia.

O que é ataraxia e por que ela importa hoje?

Ataraxia é um conceito grego que significa, em sua essência, "ausência de perturbação". Uma serenidade diante do caos, uma paz interior que não depende da calmaria externa. Era buscada por escolas filosóficas como o epicurismo, o ceticismo pirrônico e o estoicismo — embora cada uma a tratasse de maneira distinta.

Mas por que falar disso em 2025, quando o mundo parece pulsar num ritmo histérico? Porque talvez nunca tenhamos precisado tanto dela. Ataraxia não é alienação, não é indiferença fria — é um centro de gravidade interno, que permite atravessar as confusões do mundo sem se dissolver nelas.

O mundo como provocação constante

Hoje vivemos uma espécie de guerra civil emocional. Redes sociais são campos de batalha onde cada frase vira uma granada. A economia, o clima, a política, tudo parece nos chamar para uma trincheira. E não é raro sentir que, se não estivermos em estado de alerta constante, seremos engolidos por tudo.

É nesse cenário que a proposta da ataraxia soa quase como um ato revolucionário. Manter-se impassível não por frieza, mas por lucidez. Não se trata de fechar os olhos, mas de abrir um outro tipo de visão — uma que não se deixa sequestrar pela agitação.

A coragem de não reagir

Viver com ataraxia exige uma forma especial de coragem: a de não reagir automaticamente. É fácil se irritar com um comentário, uma injustiça, um ruído. Difícil é examinar tudo isso sem se tornar refém das próprias reações.

O filósofo pirrônico Sexto Empírico acreditava que a suspensão do juízo — o epoché — levava à ataraxia. Ou seja, quando paramos de tentar determinar se algo é absolutamente bom ou ruim, certo ou errado, abrimos espaço para a tranquilidade. Isso soa radical, mas pense: quantas vezes o sofrimento nasce da nossa ânsia de classificar, julgar, se posicionar?

Ataraxia como gesto de escuta

Em tempos de tanto ruído, a ataraxia também pode ser entendida como uma forma de escuta. Uma escuta do mundo, de si mesmo, do outro — sem o filtro da ansiedade de responder ou vencer. Talvez seja o que faltou em tantas discussões que terminam em gritos: a serenidade de quem sabe que não precisa ganhar o debate para ter paz.

O pensador brasileiro Huberto Rohden dizia que “não há serenidade possível sem autodisciplina interior”. A ataraxia, nesse sentido, não é uma conquista externa, mas um processo de escultura da alma. E talvez ela não nos leve à indiferença, mas sim a uma forma mais sutil e profunda de engajamento com a vida.

A leveza da não urgência

Talvez a pergunta mais urgente de hoje seja: como manter a leveza quando tudo é urgência? A resposta pode estar em cultivar esse centro calmo dentro de nós — esse lugar onde as buzinas, as manchetes e os julgamentos não conseguem entrar.

Ataraxia, afinal, não é se isolar do mundo. É viver no mundo sem deixar que ele tome posse da nossa alma. E isso, no tempo em que vivemos, talvez seja a forma mais autêntica de liberdade.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Roda da Fortuna

Outro dia, conversando com um amigo sobre como a vida parece brincar com a gente, ele disse: "Acho que a minha Roda da Fortuna emperrou." Rimos, mas no fundo, a metáfora era certeira. Tem fases em que tudo conspira a favor e momentos em que o destino parece rir na nossa cara. A Roda da Fortuna, um dos símbolos mais antigos da imprevisibilidade da vida, nos lembra que ninguém está permanentemente no topo — nem sempre no fundo.

A ideia da Roda da Fortuna tem raízes na Antiguidade. Os romanos viam Fortuna, a deusa do destino, como uma força cega que gira a roda ao acaso, elevando e derrubando pessoas sem aviso prévio. Na Idade Média, o conceito se tornou um lembrete moral: reis e mendigos eram igualmente sujeitos à instabilidade da existência. O pensador Boécio, em A Consolação da Filosofia, escreveu sobre como a verdadeira sabedoria está em não se apegar demais à boa sorte nem se desesperar diante da má sorte. Afinal, a roda gira.

No cotidiano, sentimos isso na pele. Um dia, um colega de trabalho recebe uma promoção inesperada, enquanto outro, tão competente quanto, é demitido sem explicação. A bolsa de valores sobe vertiginosamente e, no dia seguinte, despenca. Pessoas entram e saem da nossa vida sem que possamos prever. O que nos resta, então?

A resposta filosófica pode variar. Os estoicos sugeririam a apatheia, um estado de serenidade diante das mudanças. Nietzsche, por outro lado, falaria do amor fati — amar o destino, abraçar os altos e baixos como partes inseparáveis da existência. No Brasil, Clóvis de Barros Filho nos lembra que a felicidade não é um estado permanente, mas momentos fugazes que precisamos aproveitar sem ilusões de eternidade.

Talvez, no fim das contas, o segredo seja aprender a dançar conforme a música. Nem sempre temos controle sobre os giros da roda, mas podemos escolher como reagir a eles. E, quem sabe, entender que a beleza da vida está justamente nessa imprevisibilidade — porque se a roda parasse, perderíamos o encanto de esperar pelo próximo movimento.