Tem dias que a gente olha em volta e parece que todo mundo está meio desligado — como se a cidade fosse um grande hospital e o cotidiano estivesse passando anestesia na gente. Não dói, não incomoda, mas também não se sente muita coisa. Acordamos, trabalhamos, rolamos a tela do celular, rimos de memes, reclamamos um pouco do governo, e assim vai. O extraordinário virou rotina, e o incômodo foi dissolvido em pequenas doses de distração. É como se vivêssemos meio dormentes, para não sentir nem o peso da realidade nem o desconforto da mudança.
A
anestesia social é justamente esse fenômeno: a suspensão das nossas
reações, a neutralização das emoções coletivas, um jeito de evitar que algo se
torne insuportável. Mas será que ela nos protege ou nos mantém submissos?
Pense
numa fila de banco que demora uma hora. Todo mundo está insatisfeito, mas
ninguém faz nada. Esperam. Mexem no celular. Falam mal em voz baixa. E no
final, quando são atendidos, até agradecem. O mesmo acontece com salários que
não acompanham o custo de vida, com injustiças políticas, com violências
naturalizadas. Não se trata apenas de medo ou preguiça, mas de uma espécie de
entorpecimento: a raiva é diluída, a indignação vira piada, e a esperança é
adiada para depois.
Nas
redes sociais, por exemplo, vemos notícias trágicas e, alguns segundos depois,
um vídeo engraçado. O cérebro não tem tempo de processar a gravidade do que
acabou de ler. Em menos de um minuto, passamos da guerra para o gato fofinho. É
uma forma de anestesia digital. No trabalho, acontece algo semelhante: colegas
explorados sorriem para manter o emprego, chefes abusivos são normalizados, e o
descontentamento vira apenas conversa no cafezinho. Na política, a anestesia é
ainda mais evidente: escândalos se empilham, mas não geram mobilização — geram
memes. O riso vira um alívio temporário, e nada muda de fato.
O
filósofo Herbert Marcuse, na sua crítica à sociedade industrial
avançada, já falava disso. Ele chamava de “dessublimação repressiva”: quando o
sistema libera pequenos prazeres, pequenas válvulas de escape, para evitar que
as pessoas percebam que estão presas. Em outras palavras, damos risada,
consumimos, nos distraímos — e seguimos anestesiados.
Mas
há um problema nessa anestesia coletiva: ela não é uma cura. A dor que não
sentimos continua lá, só que mascarada. Mais cedo ou mais tarde, a anestesia
passa, e o impacto pode ser ainda maior. Sociedades que vivem adormecidas
muitas vezes despertam de forma brusca, com explosões de revolta ou crises
culturais.
A
pergunta que fica é: precisamos mesmo sentir dor para mudar? Talvez sim. A dor
é um sinal de que algo não vai bem. É o que nos faz retirar a mão do fogo.
Quando a sociedade deixa de sentir, ela deixa de se proteger. A anestesia
social é confortável, mas perigosa — porque impede que vejamos que algo precisa
ser transformado.
Marcuse
talvez dissesse que a tarefa do pensador, do artista, do educador é justamente
tirar um pouco dessa anestesia, reativar a sensibilidade coletiva, para que
possamos sentir de novo — e, sentindo, agir. Talvez o primeiro passo seja
aprender a ficar desconfortável outra vez, a deixar que certas notícias nos
toquem, que certas situações nos revoltem, que certos silêncios nos incomodem.
Só assim a anestesia social perde o efeito, e a vida volta a pulsar.




