Entre a Faísca e o Roteiro
A
criatividade é muitas vezes tratada como um sopro espontâneo, um raio que cai
de repente. Mas, se olharmos com mais cuidado, veremos que os momentos
criativos mais potentes costumam nascer de uma combinação paradoxal: liberdade
de imaginar somada a um método para não se perder. É aqui que entra a estratégia
de criatividade — um plano que não engessa, mas canaliza o fluxo inventivo.
O
pensador brasileiro Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, é um
exemplo vivo dessa ideia. Sua obra não se limitava a “ser criativo”; ele
estruturou procedimentos para que outras pessoas pudessem criar, mesmo sem
formação artística prévia. Para Boal, a estratégia era libertar a imaginação de
bloqueios sociais e pessoais, ao mesmo tempo em que oferecia jogos e técnicas
para que a invenção tivesse forma e alcance.
No
cotidiano, estratégias de criatividade aparecem nos lugares mais simples:
- Um cozinheiro que improvisa novos
pratos, mas mantém um conjunto de temperos-base sempre à mão.
- Um professor que incentiva debates
livres, mas define um tema central para não dispersar.
- Um escritor que anota ideias soltas
todos os dias, mas reserva um horário fixo para organizá-las em histórias.
A
vantagem dessa abordagem é dupla. Sem estratégia, a criatividade pode virar
apenas um monte de tentativas inconclusas. Sem criatividade, a estratégia se
transforma em rotina vazia. Quando ambas se encontram, surgem soluções que não
só impressionam, mas funcionam.
Boal
diria que a estratégia de criatividade é como um palco: precisa de luz, cenário
e direção, mas também de espaço para que o improviso floresça. É o equilíbrio
entre preparar o terreno e permitir que o inesperado aconteça.
No
fundo, pensar a criatividade como estratégia é aceitar que o “momento eureka”
raramente vem do nada. Ele é, na maior parte das vezes, o resultado de muitas
tentativas, erros e ajustes silenciosos — um trabalho quase invisível que
prepara o instante em que a faísca acende.