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domingo, 5 de outubro de 2025

Expressão Íntima

Pensar, falar e escrever: uma dança da consciência, da linguagem e da emoção

Vira e mexe retomo o tema, cada tentativa de falar me parece ter uma mesma dificuldade, entrar na expressão com sentido e se possível reunir tudo, (pensar, falar e escrever) numa palavra só, a moda dos egípcios, não é fácil, mas é saboroso pensar e escrever a respeito, então vamos lá saborear mais esta tentativa. Em principio a palavra que talvez reúna isto tudo seja “expressão”, uma palavra forte e carrega outras formas de demonstrar e externar o vai dentro de nós.

A tríade pensar, falar e escrever pode parecer, à primeira vista, uma sequência simples: primeiro nasce o pensamento, depois ele é expresso na fala, e finalmente fixado na escrita. Mas essa cadeia esconde uma complexidade fascinante, onde corpo, linguagem e emoção se entrelaçam para revelar a condição humana em sua plenitude.

Para aprofundar essa reflexão, recorremos a dois filósofos centrais do século XX: Ludwig Wittgenstein e Maurice Merleau-Ponty. Enquanto Merleau-Ponty nos ajuda a compreender a dimensão encarnada e emocional do pensamento e da expressão, Wittgenstein nos convida a pensar o funcionamento e os limites da linguagem no mundo.

O pensamento e seus limites: a visão de Wittgenstein

Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein afirmou que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Para ele, o pensamento é intrinsecamente ligado à linguagem — ou melhor, ao uso da linguagem. Não existe um pensamento puramente separado da linguagem, pois pensar é, em grande medida, articular sentidos e possibilidades dentro de um sistema linguístico.

Mas Wittgenstein também nos adverte que nem tudo pode ser dito; há aspectos do pensar que ficam “para além” das palavras — os sentimentos, as experiências vividas, o que é mostrado, mas não pode ser explicado. Isso cria um espaço entre pensar e falar, onde a emoção e a experiência pessoal são vividas, mas nem sempre verbalizadas com precisão.

Falar: o jogo da linguagem e a expressão

Wittgenstein propõe que a linguagem é um “jogo”, com regras que variam conforme o contexto e a prática social. Falar é, portanto, mais do que transmitir informações — é participar de um jogo que dá sentido e valor às palavras. O falar transforma o pensamento em algo público e compartilhado, mas sempre limitado pelo jogo de regras, pela interpretação e pela intenção.

A fala é um ato performativo, e a emoção permeia esse ato, colorindo o tom, o ritmo e a força das palavras. Essa dimensão de vivência torna o falar uma ponte entre o mundo interior do pensamento e o mundo exterior da comunicação.

Escrever: a materialização do sentido e da subjetividade

A escrita, por sua vez, é uma fixação da linguagem — uma forma de tornar permanente o que na fala é efêmero. No entanto, essa fixação traz a ambivalência de solidificar sentidos e, ao mesmo tempo, abrir espaços para novas interpretações, pois a escrita existe para além do momento da criação, sendo relida e ressignificada.

Merleau-Ponty acrescenta que escrever é um gesto do corpo, um ato que contém emoção e intenção, e que revela a subjetividade do autor mesmo nos traços das letras.

Merleau-Ponty e a corporeidade da tríade

Para Merleau-Ponty, pensar, falar e escrever são manifestações da consciência encarnada — um corpo que sente, percebe e se expressa. Pensar é um processo vivo, cheio de emoções e sensações que se manifestam no falar e no escrever, unindo corpo e linguagem.

A emoção, portanto, é o fio invisível que conecta pensar, falar e escrever, dando vida e profundidade ao processo de comunicação.

Entre limites e sentidos, o movimento da linguagem

Integrar Wittgenstein e Merleau-Ponty nos ajuda a compreender que a tríade pensar, falar e escrever é uma dinâmica complexa, onde:

  • O pensamento é tanto possível quanto limitado pela linguagem (Wittgenstein).
  • A fala é um jogo de sentidos permeado pela emoção e pelo corpo (Wittgenstein e Merleau-Ponty).
  • A escrita é a materialização da subjetividade e do fluxo emocional da consciência (Merleau-Ponty).

Desenhar essa tríade é tentar capturar um movimento que é interior e exterior, um gesto de criação que nos conecta a nós mesmos e aos outros, numa dança contínua entre o que se pode dizer e o que permanece para além da palavra.