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sábado, 6 de junho de 2026

Angústia Como Motor


A gente costuma tratar a angústia como um erro — algo que precisa ser eliminado o mais rápido possível. Mas, se você observar com mais cuidado, vai perceber que ela raramente aparece à toa. A angústia não é um defeito da vida; muitas vezes, é o sinal de que alguma coisa dentro de você começou a se mover.

Ela não é barulhenta como o medo. O medo tem objeto: você sabe do que está fugindo. A angústia, não. Ela é mais difusa, mais silenciosa — quase como um incômodo que não consegue se explicar. E justamente por isso, ela tem um papel curioso: ela desorganiza o que parecia estável.

Pensa em situações comuns. Você está num trabalho que, em teoria, é bom — paga as contas, é respeitável — mas algo ali começa a pesar. Não é exatamente insatisfação clara, é uma espécie de aperto constante. Ou então numa relação que “funciona”, mas já não vibra. A angústia entra como um ruído: nada está claramente errado, mas também não está realmente vivo.

É nesse ponto que ela deixa de ser um problema e começa a ser um motor.

O filósofo Søren Kierkegaard chamava a angústia de “a vertigem da liberdade”. Não é apenas sofrimento — é o choque de perceber que você pode escolher, que nada está totalmente determinado. E isso é desconfortável porque abre um abismo: se você pode escolher, também é responsável pelo que faz com a própria vida.

A angústia, então, aparece como uma espécie de portal. Ela não aponta diretamente o caminho, mas indica que o caminho atual já não basta.

No cotidiano, isso se traduz em pequenas rupturas. Você começa a questionar rotinas que antes eram automáticas. Aquilo que antes era “normal” passa a parecer estranho. E, muitas vezes, a primeira reação é tentar calar isso — distrações, excesso de trabalho, qualquer coisa que devolva a sensação de controle.

Só que, quando a angústia é abafada, ela não desaparece. Ela se desloca. Vira irritação, cansaço crônico, falta de sentido. Em outras palavras: o motor continua ligado, mas o carro não sai do lugar.

Agora, quando ela é escutada — não romantizada, mas levada a sério — algo diferente acontece. A angústia começa a revelar suas pistas. Não em forma de respostas prontas, mas como perguntas incômodas:

“Por que isso ainda está aqui na minha vida?”

“O que eu estou evitando mudar?”

“Isso ainda é meu, ou só virou hábito?”

E essas perguntas, embora desconfortáveis, têm uma força que poucas coisas têm: elas empurram.

Talvez o maior equívoco seja pensar que viver bem é viver sem angústia. Uma vida totalmente sem esse tipo de tensão provavelmente seria uma vida sem movimento — sem risco, sem escolha real, sem transformação.

A angústia é o preço de não estar completamente fechado.

No fundo, ela funciona como um tipo de bússola invertida: não mostra exatamente para onde ir, mas mostra claramente onde você já não pode mais ficar.

E talvez seja isso que a torna um motor tão potente — ela não deixa a vida permanecer adormecida por muito tempo.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Angustia Aprisionada no Livro Fechado



Há muita beleza na literatura, cabe a cada um de nós buscar esta beleza, melhor falando “resgatar esta beleza aprisionada” ao encontra-la é importante tentar mantê-la próxima de nossa mente. Na pré-história no tempo em que vivíamos em cavernas antes mesmo das inscrições rupestres e das escritas cuneiformes, ela já existia em sua forma oral, era em seu princípio o conhecimento era transmitido através da palavra falada a impressão ficava e era transmitido carregado de emoções. Ora e na palavra escrita também está carregada de emoções, quem já não se espantou com as diferentes formas de ver a vida?
Conforme Edival Lourenço, o registro literário desde a escrita rupestre, passando pela escrita cuneiforme, pelo papiro, pelo pergaminho, pelos incunábulos dos escribas dos mosteiros medievais, sempre permeou a vida da humanidade. Mas só o suporte de papel, em um chumaço impresso e encadernado, numa técnica desenvolvida por Gutenberg, no século 15, vulgarmente conhecido como livro, permitiu a disseminação massiva dos conteúdos literários.
Querem sentir uma angustia? Visitem um sebo e analisem as prateleiras, encontrarão cada livro velho e surrado, comprimido entre tantos outros livros, tanta coisa escrita, tanto trabalho impresso, tanto conhecimento oprimido e deixado nas prateleiras do esquecimento, a beleza e o espanto ainda estão presentes em cada livro, resgatar um deles é trazer a vida um moribundo, extraindo da caverna onde foram enclausurados.
Para quem é apaixonado pela literatura, lêr desde os castelos da imaginação de Santo Agostinho, a Filosofia dos Toltecas com sua filosofia da Magia Negra e Branca e digam quem não a praticou ou pratica a Magia Negra e Branca? A Flores do Mal de Baudelaire, As cartas de um poeta de Rilke, A Filosofia da Matemática de Russell, Lógica Booleana de Boole, A Republica de Platão, A Paideia de Jaeger, A liquidez de Baumann, O Príncipe de Maquiavel, A Crítica da Razão Pura de Kant, Para Alem do Bem e do Mal de Nietzche, A Angustia da Influência de Harold Bloom, Ser e Tempo de Heidegger, O Mundo Como Vontade e Representação de Schopenhauer, Tratado Sobre a Tolerância de Voltaire, A Tabula Rasa de Locke, Leviatã de Hobbes, Emilio de Rousseau, Discurso sobre o Método de Descartes, Novum Organum de Bacon, O argumento cético de Hume, o existencialismo sartriano,  enfim, me perdoem os demais pensadores se não os menciono, pois é quase um número infinito de pensamentos e obras. Tais obras foram desenvolvidas ao longo dos séculos, os pensamentos que o ser humano procurou registrar a sua maneira de ver o mundo, seu pensamento na sua medida permeados pelas experiências do convívio, pela abstração do possivel e do impossivel, o conhecimento é poder que ninguém nos tira, é a alteridade, ler a todos é impossível, mas inevitável manter um contato com eles, pelos menos com alguns deles.
O resgate da literatura é extrai-la do submundo a que foi relegada quando do abandono da maioria das pessoas do hábito da leitura, que dizem ter preguiça de ler, que tem preguiça de pensar, que tem preguiça de escrever corretamente, que tem preguiça de falar de forma correta, logo resgatar a literatura é resgatar o ser humano do abandono a que se entregou, preferindo a alegria do consumo, a satisfação da ilusão do ter em detrimento da completude do ser, o abandono da ideia da inutilidade do que é e sempre será útil, respondendo a pergunta de para que serve mesmo a literatura? Afinal inventamos a literatura, resultado do desenvolvimento cultural no processo civilizatório.
Seja como for, valendo-me inclusive de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:
1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luís de Camões? O que seria do Italiano sem Dante Alighieri? O que seria do Espanhol sem Cervantes? O que seria do Inglês sem Shakespeare? O que seria da Civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Puchkin? É bom lembrar que impérios que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu, como o vasto império Mongol de Genghis Khan, o maior em extensão territorial da história.
2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente.
3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores acumulados pelo processo civilizatório e universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha dentre eles ou até de rejeitá-los.
4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das ideias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente, proporciona a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro — pré-condição para a existência da ética na sociedade), prevenindo as pessoas contra o sectarismo político, ao fanatismo, à submissão cega a líderes maliciosos, a ideologias e a religiões.
5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, aguça a sensibilidade, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo-nos da fauna geral, onde gosto não se discute.
6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho retilíneo desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício de amadurecimento para o enfrentamento das frustrações reais impostas pela vida de fato, às quais é bom que resista e supere.
7º — A Literatura, como toda arte, estimula o cruzamento de informações, possibilita a sinergia do pensamento, amplia a visão da realidade e até cria realidade nova.
8° — Pelo que foi listado, a Literatura não é uma panaceia — remédio para todos os males —, mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade portadora de um clima onde pessoas de boa vontade possam ver implantados seus ideais de paz, respeito, leveza, cordialidade, lisura, honestidade, preservação e desenvolvimento sustentado.
Certamente o leitor verá na Literatura “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas.
A literatura também traz a sensação de fuga do para a frente, quem sabe é quem lê, estes usufruem de breves momentos do tempo que não passa, de sensações que ficarão e quem sabe no futuro retornarão à lembrança do que foi vivido através das linhas escritas por algum escritor em seus momentos de devaneio e solidão ou conforme “Fite”, enquanto momento de pura visão não passaria de um evanescente “flash” intuitivo que depois se transformaria em linguagem, uma forma petrificada, e por ser uma visão do sublime não possuiria nenhum tipo de referente, senão o seu desejo de ser algo mais. (FITE, 1985, p.17).
Então, vão desperdiçar a oportunidade de resgatar o conhecimento? Abrir um livro é sair da caverna, a sensação é de estar saindo aos poucos, tateando como alguém que ficou muito tempo na escuridão e agora cego pela claridade do sol, com o tempo os olhos acostumam, sabemos disso quando desenvolvemos o hábito de ler, a princípio não seja crítico e quando mais maduro não seja tão crítico, liberte-se do preconceito deste ou daquele autor ou daquele assunto, afinal a literatura também carrega seu aspecto socializante.
A literatura exerce o que se chama de “influere”, fluir para dentro a influência da literatura nas nossas emoções, a “influere” em sua origem assenta -se no sentido utilizado pelos astrólogos medievais, isto é, a ação dos astros sobre as emoções humanas.
Com o tempo desenvolveremos a capacidade de perceber o influxo, a fusão de conhecimentos e conexões da ideia de um escritor influenciando outro em uma linha causal de dependências, assim como influenciarão em nossa forma de pensar e quiçá de agir, influenciando na formação do indivíduo.
Quanto ao significado, conforme Castro o leitor não deve buscar um significado escondido, uma compreensão das relações ocultas na literatura, porque estas não existem. A linguagem é uma construção arbitrária, e segundo Bloom, dependente da imaginação do ser humano.
A imaginação é a força autoritária e prioritária sobre a linguagem. Não há uma gramática capaz de explicar os escritores, são estes que com suas obras estabelecem as gramáticas.
Assim, cabe ao leitor produzir o sentido com seu poder imaginativo. Como ele mesmo argumenta no livro “Como e Porque ler?” citando o filósofo transcendentalista Ralph Waldo Emerson: Recorro, novamente, a Emerson para definir o quarto princípio da leitura: Para ler bem é preciso ser inventor. O que, para Emerson, seria “leitura criativa” foi por mim chamado de “leitura equivocada”, Expressão que levou meus adversários a crer que eu sofresse de dislexia. O fracasso, ou o branco, que tais indivíduos veem quando se deparam com um poema está em seus próprios olhos. Autoconfiança não é dom, mas o Renascimento da mente, o que só ocorre após anos de muita leitura. (BLOOM, 1998, p. 21)
Ainda Castro, o poder da desleitura é ao mesmo tempo fonte de liberdade e exigência criativa. As análises do crítico podem ir muito além das barreiras da poesia. Entrar no jogo da angústia da influência é travar uma luta entre anterioridade e posteridade. O leitor deseja afastar-se do que lê, mesmo que esteja enredado pelo passado. A angústia da influência é uma teoria da leitura, metacrítica literária, estratégia de literatura comparada, filosofia estética, intertextualidade poética, psicologia e sociologia da arte. Sua complexidade aparece na sua capacidade de estabelecer relações. Talvez seja importante constar que Harold Bloom não defende uma leitura relativista independente de autores. São os autores, com seu poder retórico -cognitivo-estético que provocam as leituras criativas, entre textos e autores.
Castro afirma que Bloom defende que são sempre relações hierárquicas, mas não que sejam estáveis ou caducas. Sua visão permite uma metamorfose constante, contanto que não se perca de vista a luta necessária para a transformação. A literatura é vontade de potência e criatividade. Onde houver imaginação haverá luta, haverá complexidade, haverá influência.
O sentido que o leitor encontra no texto não é o mesmo sentido que o texto quer transmitir, o sentido para o leitor é aquele de fluência da desleitura que este fez e procurou o encaixe no seu quebra-cabeças emocional, no seu sentido próprio, tal como ferramentas que agem na metamorfose do indivíduo, a imaginação alimenta a luta, a influência e inevitável, a leitura requer muitas o distanciamento necessário para analisar os vários vieses.
Enfim, a literatura é apaixonante e bela, vamos abrir nossos olhos, abrir um livro e se deixar contagiar pela magia das palavras, vamos dar sentido e vibrar com a angustia de chegar ao final de um livro, quem sabe não relemos e relemos, sempre querendo ficar com o gostinho na boca.

Fontes:
http://www.revistabula.com/4209-a-literatura-e-o-unico-instrumento-realmente-capaz-de-mudar-o-homem/
BLOOM, Harold. Um mapa da desleitura. Rio de Janeiro:Imago,1995.
_____________.
A angústia da influência: uma teoria da poesia. Rio de Janeiro:Imago,1991.
_____________.
Cabala e crítica. Rio de Janeiro:Imago,1991.

CASTRO, Daniel Fraga de. A complexidade da angústia da influência de harold bloom, Paper

FITE, David. Harold Bloom: The rhetoric of romantic vision. Boston: The University of Massachussets press, 1985.