Han,
Byung-Chul. Sociedade do cansaço / Byung-Chul Han ; tradução de Enio Paulo
Giachini. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2015.
Byung-Chul Han, uma das
mais inovadoras vozes filosóficas surgidas na Alemanha, nos apresenta neste
ensaio a tese de que o Ocidente está a tornar-se uma sociedade do cansaço pelo
excesso de positividade, apresenta uma mudança paradigmática da sociedade da
negatividade para a sociedade da positividade.
Visto a partir da
perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como
bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão,
transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah),
Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB)
determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções,
mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente
diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer
técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é
estranho. Han, p.7
Neste início de
século está se falando muito de doenças e de problemas neurológicos que
constituem um panorama patológico de nossos dias, o autor neste ensaio desenvolve
uma tese onde ele afirma que a sociedade está passando por uma transformação de
uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho, onde passamos por
uma necessidade incessante de sermos altamente produtivos e positivos produzindo
a sociedade do cansaço. Ele consegue estabelecer uma relação, entre o sistema
imunológico do corpo humano e a filosofia, a sociologia e a linguagem, afirmando
que nossa era sofre os efeitos de alguma patologia neuronal.
A sociedade do século XXI não é mais a
sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes
não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e
produção. São empresários de si mesmos”. Han, p.14
A sociedade vive num século que deixou para trás uma sociedade
disciplinar Foucaultiana feita
de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de
hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma
sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos,
shopping centers e laboratórios de genética. Segundo Han, vivemos numa sociedade de desempenho e consequentemente do
cansaço causador de patologias neuronais. Esta mudança é cultural, pois reivindica
e estabelece a autonomização da própria vida por meio da técnica. A sociedade,
os habitantes não são mais sujeitos da obediência disciplinar movidos por um
certo controle comportamental instituído, mas são agora sujeitos de produção e
empresários de si mesmos.
No lugar de proibição, mandamento ou lei,
entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está
dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do
desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados. A mudança de
paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a
continuidade de um nível. Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o
desejo de maximizar a produção. Han p.14
e 15
A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais das
proibições, mandamentos ou leis, os projetos requerem iniciativa e a motivação em
busca do melhor e maior desempenho, mas que acaba produzindo sujeitos
depressivos e fracassados. A sociedade atual do sobreviver altamente vibrante e
ativo, restringe o viver saudável, ofuscando e restringindo os efeitos da beleza
e a intensidade da vida. Neste caso a positividade é tóxica, peca pelo
excesso, o excesso bloqueia as nossas emoções que consideramos negativas, desta
forma escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a
negatividade daquilo que é estranho.
A positividade é tóxica porque a pessoa que não
aceita uma existência para além da alegria uma hora simplesmente se esgota e
inevitavelmente chegara ao cansaço e num maior grau a exaustão já que a
positividade é alimentada continuamente.
Há exemplo simples deste novo paradigma, basta
analisarmos as postagens que em geral as pessoas fazem no facebook e Instagram,
o que se vê e sente é que todo mundo está bem o tempo inteiro. Saboreando as
melhores comidinhas, os melhores drinks, com sorrisos enormes, sempre com as
melhores becas, viajando nos lugares mais badalados, uma cena melhor do que
outra. O excesso de positividade por si só nos leva a editar a realidade de
cada um violentando e aniquilando a sociedade de maneira suave e consensual em
que só é permitido expressar, falar, postar os bons sentimentos e bons
momentos.
O autor dialoga com Baudrillard,
dizendo que se trata de uma violência da aniquilação suave, uma violência
genética e de comunicação; uma violência do consenso!
A violência viral, que continua seguindo o
esquema imunológico de interior e exterior ou de próprio e outro, e pressupõe
uma singularidade ou alteridade hostil ao sistema, não está mais em condições
de descrever enfermidades neuronais como depressão, Tdah ou SB. A violência
neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência
sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema. Tanto a depressão quanto
o Tdah ou o SB apontam para um excesso de positividade. A SB é uma queima do eu
por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O hiper da hiperatividade
não é uma categoria imunológica. Representa apenas uma massificação do
positivo. Han p.12
Em sua obra A sociedade do cansaço, Han
através da dialética de Hegel aponta importante transformação nos papéis que
anteriormente cada parte desempenhava. Han nos apresenta uma sociedade do
trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Diante das
tensões, elas geram novas coerções. A dialética de senhor e escravo está, não
em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria
capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva ao contrário a uma sociedade
do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho.
Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A
especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e
vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a
exploração é possível mesmo sem senhorio. A nossa auto exploração é compreendida como uma
espécie de realização e de sucesso.
A lamúria do indivíduo depressivo de que
nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é
impossível. Han p.16
Han retoma a ideia
de “cultura distinta” em Nietzsche, a partir do capitulo 5 - Pedagogia do
Ver ele explica, numa linguagem poética, ao dizer que precisamos “aprender
a ver, ou seja, habituar o olho ao descanso, à paciência, ao
deixar-aproximar-se-de-si, ao olhar demorado e lento” (p. 28).
Sem aqueles “instintos
limitativos”, o agir se deteriora numa reação e ab-reação inquieta e
hiperativa. A atividade pura nada mais faz do que prolongar o que já existe.
Uma virada real para o outro pressupõe a negatividade da interrupção. Só por
meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de ação pode dimensionar
todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade. É bem verdade
que o hesitar não representa uma ação positiva, mas é indispensável para que a
ação não decaia para o nível do trabalho. Hoje, vivemos num mundo muito pobre
de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo “A
principal carência do homem ativo”, escreve Nietzsche: “Aos ativos faltam
usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos.
[...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica”. Há
diversos tipos de atividade. A atividade que segue a estupidez da mecânica é
pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu
desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade
para hesitar. Han p.29
Diante disto,
percebemos que se trata de um processo meta-pedagógico, pois envolve uma
mudança pragmática de comportamento, desconstruir a ideia de que o “hiper-tudo”
produz liberdade em vez de uma mecânica social estúpida e ininterrupta. Acusa
nosso próprio modus operandi do agir mecanizado de produção culminando no
cansaço da sociedade moderna.
Há duas formas de potência. A potência
positiva é a potência de fazer alguma coisa. A potência negativa, ao contrário,
é a potência de não fazer, para falar com Nietzsche; para dizer não. Mas a
potência negativa distingue-se da mera impotência, a incapacidade de fazer
alguma coisa. A impotência é simplesmente o contrário da potência positiva. Ela
é, ela própria, positiva na medida em que está ligada com algo. Ela não é capaz
de alguma coisa. A potência negativa supera a positividade, que está presa em
alguma coisa. É uma potência de não fazer. Se, desprovidos da potência negativa
de não perceber, possuíssemos apenas a potência positiva de perceber algo, a percepção
estaria irremediavelmente exposta a todos os estímulos e impulsos insistentes e
intrusivos. Então não seria possível haver qualquer “ação do espírito”. Se
possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não tivéssemos a potência de não
fazer, incorreríamos numa hiperatividade fatal. Se tivéssemos apenas a potência
de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de
objetos. Seria impossível haver reflexão (Nachdenken), pois a potência
positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken).
Han p.30, 31
Dialogando com Nietzsche,
Han procura conjugar a experiência do “Humano: Demasiado Humano” da negatividade
do não-para nietzschiano, afirmando que é também um traço essencial da contemplação.
Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade pura do
não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflui e se impõe. Assim é
um processo extremamente ativo, e algo bem distinto que passividade. É um
exercício para alcançar em si um ponto de soberania, de ser centro. Se
possuíssemos apenas a potência positiva, estaríamos, ao contrário, expostos de
forma totalmente passiva ao objeto, que o leva ao adoecimento
social, refletindo uma espécie de (des)humanidade consigo mesmo.
Em seu escrito Vita activa, Hannah Arendt
procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida
contemplativa, rearticulando-a em seu múltiplo desdobramento interno. Em sua
opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera
agitação, nec-otium ou a-scholia. Han
p.22
Han
dialoga com filosofa Hannah
Arendt, no escrito Vita activa, Arendt procura reabilitar a vida ativa
contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu
múltiplo desdobramento interno. Em sua opinião, a vita activa foi
degradada de forma injusta na tradição à mera agitação. Para Arendt, o milagre
se processava no próprio nascimento (recomeço) do ser humano onde se realiza
uma ação, com dimensões milagrosas e revolucionárias. “Segundo Arendt, a
sociedade moderna, enquanto sociedade do trabalho, aniquila toda a
possibilidade de agir, degradando o homem a um animal laborans – um
animal trabalhador”.
No
entanto, as descrições do animal laborans de Arendt não correspondem às
observações que podemos fazer na sociedade de desempenho hoje, pois este não
abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se ao trabalho anônimo. Esta
sociedade radicalmente transitória, hiperativa e hiperneurótica pelo trabalho
se individualiza, tendo em vista o desempenho, a ponto de quase dilacerar-se no
isolamento, nervosismo e inquietação.
Precisamente,
com a histeria do trabalho e da produção, acelerado mundo de hoje aprisiona as
formas de ver e promove outras coerções e carências do ser. Na sociedade do
trabalho, o próprio senhor da dialética do senhor e do escravo se transformou
num escravo do trabalho, sem ter tempo livre para o lazer. E “a especificidade
desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima
e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos”. A absolutização da vida
ativa e a perda da capacidade contemplativa acabam sendo corresponsáveis pela
histeria e nervosismo da sociedade moderna. De acordo com Han “a vita
contemplativa pressupõe uma pedagogia específica do ver”.
O relato de Melvilles
“Bartleby”, que foi objeto de diversas interpretações metafísicas ou teológicas,
admite também uma leitura patológica. Essa “história provinda da Wall Street”
descreve um universo de trabalho desumano, cujos habitantes, todos eles, são
degradados a animal laborans. Apresenta-se detalhadamente a atmosfera sombria,
hostil do escritório espessamente rodeado de arranha-céus. A menos de três
metros ergue-se “alto o muro de tijolos, que se tornou preto por causa da idade
e por estar sempre à sombra”. Ao ambiente de trabalho, que parece uma caixa de
água, falta todo e qualquer traço de “vida” (deficiente in what landscape
painters call “life”). A melancolia e o mau-humor, de que se fala
constantemente no relato, forma a atmosfera fundamental da narrativa.
Han conclui a
narrativa: “Essa ‘história provinda de Wall Street’ não é uma história da ‘des-criação’,
mas uma história de esgotamento. Queixa e acusação, juntas, formam a
invocação com a qual se encerra a narrativa: ‘Oh, Bartleby!, Oh, humanidade!”
(p. 35).
Han epiloga seu
ensaio contrastando as expressões ‘doping cerebral’ e ‘neuro-enhancement’.
Menciona que “o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma”
(p. 38) e, baseando-se na obra “Ensaio Sobre o Cansaço”, de Handke (p. 38), Han
retoma de forma bastante didática o que caracteriza, em seus diversos tipos e
formas, a nossa “Sociedade do Cansaço” — a sociedade do não-para nos termos
nietzscheanos, a sociedade cuja preocupação reside no status e
visibilidade social.
A citação feita
por Han na contracapa, é conveniente e oportuna, Nietzsche, na obra “Humano:
Demasiado Humano” é magistral por sua sapiência e ainda atual, serve bem ao
propósito de corolário para sua tese: “Por falta de repouso nossa civilização
caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os
inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem
tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento
contemplativo”. A sociedade do desempenho caminha para o esgotamento, sob a
ditadura do desempenho até o amor esta se positivando na sexualidade e a
mercantilização do corpo como mercadoria, ai já é outra conversa, já é uma
conversa com outra obra de Han, a “Agonia do Eros”.
Byung-Chul
Han
(Pyong-Chol Han) (Seul, 1959)
é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de
Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e
Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994,
doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin
Heidegger. Atualmente, é professor de Filosofia e Estudos Culturais
na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de ensaios de críticas à
sociedade do trabalho e à tecnologia.
Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Byung-Chul_Han