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sexta-feira, 6 de março de 2026

Sociedade Contra o Estado


Se tem um livro que vira a chave da nossa cabeça sobre política, é esse aqui: A Sociedade Contra o Estado

Quando a gente escuta “sociedade sem Estado”, normalmente imagina bagunça, caos, ausência de organização. Mas o antropólogo francês Pierre Clastres mostrou algo surpreendente: existem sociedades que não têm Estado porque não querem ter.

E mais: elas se organizam ativamente para impedir que o Estado surja.

 

A tese central

Clastres estudou povos indígenas da América do Sul — especialmente grupos da região amazônica — e percebeu algo fundamental:

Nessas sociedades, o chefe não manda.

Ele fala, aconselha, representa… mas não tem poder coercitivo. Não pode obrigar ninguém a nada. Se tentar impor autoridade, perde legitimidade.

Ou seja:

a comunidade constrói mecanismos culturais para impedir que alguém concentre poder.

Enquanto no pensamento político clássico o Estado seria o “ápice da evolução social”, para Clastres ele é uma ruptura:

o momento em que o poder deixa de ser distribuído e passa a ser separado da sociedade.

 

Guerra como mecanismo político

Um ponto provocador do livro: para Clastres, a guerra entre tribos não é sinal de atraso.

Ela funciona como mecanismo de autonomia.

Pequenas comunidades mantêm sua independência justamente evitando se fundirem em grandes blocos centralizados. A fragmentação impede o nascimento de um poder central forte.

É como se dissesse:

Melhor vários grupos livres do que um grande grupo dominado.

 

O choque com nossa mentalidade moderna

Nós fomos educados a pensar que:

  • sem Estado = desordem
  • com Estado = civilização

Clastres inverte isso.

Ele sugere que o Estado nasce quando:

  • surge desigualdade estrutural
  • alguém consegue transformar prestígio em poder coercitivo
  • a sociedade deixa de conter essa centralização

O Estado, então, não é inevitável. É uma escolha histórica.

 

Por que isso ainda importa?

Mesmo aqui, no Brasil, onde o Estado é onipresente — impostos, normas, registros, licenças — a pergunta de Clastres continua desconfortável:

  • Até que ponto o poder está separado de nós?
  • Em que momento aceitamos que alguém mande?
  • Existe autoridade legítima sem coerção?

Ele não propõe que voltemos à vida tribal.

Mas ele desmonta a ideia de que o Estado é destino natural da humanidade.

 

Resumindo

“Sociedade contra o Estado” mostra que existem formas de organização social onde o poder não se separa da comunidade.

Não é ausência de política.

É outra política.

Uma política onde a sociedade vigia o poder — e não o contrário.


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Sociedade do Espetáculo

A Vida como Imagem

Vivemos numa época em que a imagem se tornou mais importante que a realidade. Ao andar pelas redes sociais, ver propagandas ou até observar conversas em cafés, percebemos que não basta mais viver: é preciso aparecer. Esse fenômeno, que parece tão atual, já foi diagnosticado por Guy Debord em 1967, em sua obra A Sociedade do Espetáculo, onde ele afirma que "tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação". Então, vamos dar uma visada nesta obra tão atual deste visionário.

Para Debord, o espetáculo não é apenas o conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A vida passa a ser organizada em função daquilo que pode ser mostrado. A experiência direta, subjetiva, rica em nuances, cede espaço ao que é visível, vendável, compartilhável. Com isso, perdemos a densidade da vida real e mergulhamos numa espécie de vitrine infinita, onde todos são espectadores e atores de si mesmos.

Essa lógica invade todos os aspectos da vida: o trabalho vira portfólio, o lazer vira conteúdo, as amizades viram interações públicas. Até a dor e o luto, que antes pediam silêncio e interioridade, agora podem ser postados, curtidos, comentados. Isso não quer dizer que toda exposição é falsa, mas que a forma como a vida se organiza cada vez mais responde à lógica do espetáculo, do olhar do outro, do valor de troca da imagem.

Debord antecipou um mundo em que o capital já não depende apenas da produção de mercadorias, mas também da produção de experiências formatadas para o consumo simbólico. A alienação, nesse novo modelo, não é apenas em relação ao produto, mas também à própria vida: a pessoa se vê vivendo para o espetáculo, se distancia daquilo que sente e daquilo que é, trocando autenticidade por visibilidade.

Essa crítica permanece urgente. Não se trata de nostalgia por um tempo "antes das telas", mas de um convite à consciência: estamos vivendo ou apenas representando? Estamos construindo relações reais ou apenas trocando aparências?

A filosofia de Debord é um alerta contra a passividade diante das imagens e uma convocação à retomada da experiência vivida — aquela que não precisa de plateia para fazer sentido.

Vale a pena ler o livro, fica aí a sugestão de leitura.


domingo, 8 de setembro de 2024

Sociedade Infantilizada?

A ideia de que a sociedade atual está emocionalmente menos desenvolvida do que as antigas civilizações pode parecer, à primeira vista, uma crítica exagerada ou nostálgica. Afinal, vivemos em tempos de avanços tecnológicos, de teorias psicológicas sofisticadas e de uma infinidade de recursos para lidar com nossas emoções. Mas será que, no fundo, não nos tornamos menos capazes de lidar com a complexidade emocional e espiritual da vida do que nossos antepassados? Olhando para o cotidiano, as relações humanas e o papel dos pensadores, começamos a perceber que, talvez, algo essencial tenha sido perdido.

Cotidiano e Superficialidade Emocional

Uma cena comum: alguém, ao enfrentar um dia difícil no trabalho, desconta a frustração com os amigos em uma conversa rápida via mensagem. Em vez de confrontar o que realmente o incomoda, essa pessoa busca distrações – uma série na Netflix, horas no Instagram, ou mesmo uma compra online para aliviar a tensão. Emocionalmente, nos tornamos dependentes de válvulas de escape que nos oferecem alívio momentâneo, mas que nos distanciam da verdadeira introspecção e do enfrentamento da raiz dos nossos problemas.

Na Antiguidade, as pessoas também tinham suas distrações, mas havia um sentido maior nas dificuldades enfrentadas. Os gregos, por exemplo, acreditavam que o sofrimento e os desafios eram formas de aprendizado profundo, tal como a prática do estoicismo, uma filosofia que prega a aceitação da dor como parte natural da vida. Sêneca, um dos grandes pensadores estóicos, dizia: "O homem que sofre antes de ser necessário sofre mais do que o necessário." Hoje, ao invés de encararmos nossas dores de frente, tendemos a antecipá-las e tentar evitá-las, sem absorver as lições que elas poderiam nos ensinar.

Espiritualidade e Conexão Perdida

No plano espiritual, muitos de nós ainda seguimos tradições religiosas ou práticas de meditação e mindfulness, mas será que essas práticas são vividas com profundidade? Muitas vezes, a espiritualidade moderna parece se reduzir a mais uma tarefa na nossa lista de afazeres – uma meditação rápida no aplicativo, uma oração para pedir ajuda ou proteção, sem refletir realmente sobre nosso lugar no universo ou a natureza de nossa existência.

Em comparação, a espiritualidade antiga era integrada à vida cotidiana. Para os egípcios, gregos e romanos, os rituais religiosos e filosóficos não eram apenas uma formalidade; eram uma forma de viver em harmonia com o cosmos. Plotino, um filósofo neoplatônico, acreditava que o ser humano devia buscar a união com o Uno, uma experiência de transcendência e harmonia com o todo. Hoje, estamos mais inclinados a buscar respostas rápidas e consolos instantâneos, muitas vezes desconectados dessa visão de unidade com o universo.

Relações Humanas e Conflitos Evitados

Em nossas interações cotidianas, a infantilização emocional é visível na forma como lidamos com os conflitos. Pense naquela reunião de trabalho onde todos sabem que algo está errado, mas ninguém fala. O medo de confrontar emoções desconfortáveis e a expectativa de que alguém, ou algo, resolva o problema, refletem uma incapacidade de assumir o controle da própria vida emocional.

Antigas sociedades valorizavam a discussão aberta e o debate. Nas praças gregas, os cidadãos se reuniam para discutir as questões mais importantes, confrontando opiniões e ideias. Sócrates era mestre em fazer perguntas desconfortáveis, levando seus interlocutores a confrontarem suas próprias crenças e, eventualmente, crescerem a partir disso. Hoje, preferimos evitar essas discussões, buscando zonas de conforto onde nossas opiniões não sejam desafiadas.

Somos Menos Desenvolvidos?

Pode parecer um paradoxo, mas, em muitos aspectos, a modernidade nos ofereceu ferramentas que nos tornaram emocionalmente mais frágeis. As antigas sociedades enfrentavam a vida com uma certa crueza e realismo que, de certa forma, nos foi retirado. Nossa vida moderna é, em grande parte, mediada por tecnologias que nos desconectam das experiências brutas da vida. Um exemplo claro disso é como evitamos o confronto com a morte. Enquanto antigamente a morte era parte visível e inevitável do ciclo da vida, hoje a escondemos em hospitais e a tratamos como um tabu.

Pensadores como Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo, argumentam que vivemos em uma sociedade que busca a perfeição e o desempenho constante, mas que, ao fazê-lo, elimina o espaço para o erro e para o verdadeiro crescimento emocional. Segundo Han, a constante busca pela felicidade e pela produtividade cria indivíduos ansiosos, incapazes de lidar com a frustração e a imperfeição.

Será que somos menos desenvolvidos emocionalmente do que as sociedades antigas? Talvez não seja uma questão de comparação direta, mas sim de perceber que, ao longo do tempo, nossa relação com o mundo emocional e espiritual mudou drasticamente. Em vez de confrontar e aprender com nossas emoções, tendemos a fugir delas. Em vez de buscar um senso profundo de conexão com o cosmos, frequentemente reduzimos a espiritualidade a um ritual vazio.

Para reconquistar esse desenvolvimento, é necessário que voltemos a encarar as dificuldades e frustrações da vida como oportunidades de crescimento, em vez de obstáculos a serem evitados. É preciso redescobrir o valor das emoções profundas, da espiritualidade vivida e das relações humanas autênticas – e talvez, ao fazê-lo, possamos nos reconectar com uma sabedoria que os antigos já conheciam tão bem.


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Fragmentos e comentários acerca do ensaio “Sociedade do Cansaço” do filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han


Han, Byung-Chul. Sociedade do cansaço / Byung-Chul Han ; tradução de Enio Paulo Giachini. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2015.

 

Byung-Chul Han, uma das mais inovadoras vozes filosóficas surgidas na Alemanha, nos apresenta neste ensaio a tese de que o Ocidente está a tornar-se uma sociedade do cansaço pelo excesso de positividade, apresenta uma mudança paradigmática da sociedade da negatividade para a sociedade da positividade.

Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho. Han, p.7

Neste início de século está se falando muito de doenças e de problemas neurológicos que constituem um panorama patológico de nossos dias, o autor neste ensaio desenvolve uma tese onde ele afirma que a sociedade está passando por uma transformação de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho, onde passamos por uma necessidade incessante de sermos altamente produtivos e positivos produzindo a sociedade do cansaço. Ele consegue estabelecer uma relação, entre o sistema imunológico do corpo humano e a filosofia, a sociologia e a linguagem, afirmando que nossa era sofre os efeitos de alguma patologia neuronal.

 

A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”. Han, p.14

 

A sociedade vive num século que deixou para trás uma sociedade disciplinar Foucaultiana feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. Segundo Han, vivemos numa sociedade de desempenho e consequentemente do cansaço causador de patologias neuronais. Esta mudança é cultural, pois reivindica e estabelece a autonomização da própria vida por meio da técnica. A sociedade, os habitantes não são mais sujeitos da obediência disciplinar movidos por um certo controle comportamental instituído, mas são agora sujeitos de produção e empresários de si mesmos.

 

No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados. A mudança de paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a continuidade de um nível. Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção.  Han p.14 e 15

 

A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais das proibições, mandamentos ou leis, os projetos requerem iniciativa e a motivação em busca do melhor e maior desempenho, mas que acaba produzindo sujeitos depressivos e fracassados. A sociedade atual do sobreviver altamente vibrante e ativo, restringe o viver saudável, ofuscando e restringindo os efeitos da beleza e a intensidade da vida. Neste caso a positividade é tóxica, peca pelo excesso, o excesso bloqueia as nossas emoções que consideramos negativas, desta forma escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.

A positividade é tóxica porque a pessoa que não aceita uma existência para além da alegria uma hora simplesmente se esgota e inevitavelmente chegara ao cansaço e num maior grau a exaustão já que a positividade é alimentada continuamente.

Há exemplo simples deste novo paradigma, basta analisarmos as postagens que em geral as pessoas fazem no facebook e Instagram, o que se vê e sente é que todo mundo está bem o tempo inteiro. Saboreando as melhores comidinhas, os melhores drinks, com sorrisos enormes, sempre com as melhores becas, viajando nos lugares mais badalados, uma cena melhor do que outra. O excesso de positividade por si só nos leva a editar a realidade de cada um violentando e aniquilando a sociedade de maneira suave e consensual em que só é permitido expressar, falar, postar os bons sentimentos e bons momentos.

O autor dialoga com Baudrillard, dizendo que se trata de uma violência da aniquilação suave, uma violência genética e de comunicação; uma violência do consenso!

 

A violência viral, que continua seguindo o esquema imunológico de interior e exterior ou de próprio e outro, e pressupõe uma singularidade ou alteridade hostil ao sistema, não está mais em condições de descrever enfermidades neuronais como depressão, Tdah ou SB. A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema. Tanto a depressão quanto o Tdah ou o SB apontam para um excesso de positividade. A SB é uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O hiper da hiperatividade não é uma categoria imunológica. Representa apenas uma massificação do positivo. Han p.12

Em sua obra A sociedade do cansaço, Han através da dialética de Hegel aponta importante transformação nos papéis que anteriormente cada parte desempenhava. Han nos apresenta uma sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Diante das tensões, elas geram novas coerções. A dialética de senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva ao contrário a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio. A nossa auto exploração é compreendida como uma espécie de realização e de sucesso.

A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.  Han p.16

 

Han retoma a ideia de “cultura distinta” em Nietzsche, a partir do capitulo 5 - Pedagogia do Ver ele explica, numa linguagem poética, ao dizer que precisamos “aprender a ver, ou seja, habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si, ao olhar demorado e lento” (p. 28).

 

Sem aqueles “instintos limitativos”, o agir se deteriora numa reação e ab-reação inquieta e hiperativa. A atividade pura nada mais faz do que prolongar o que já existe. Uma virada real para o outro pressupõe a negatividade da interrupção. Só por meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de ação pode dimensionar todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade. É bem verdade que o hesitar não representa uma ação positiva, mas é indispensável para que a ação não decaia para o nível do trabalho. Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo “A principal carência do homem ativo”, escreve Nietzsche: “Aos ativos faltam usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos. [...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica”. Há diversos tipos de atividade. A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar.  Han p.29

 

Diante disto, percebemos que se trata de um processo meta-pedagógico, pois envolve uma mudança pragmática de comportamento, desconstruir a ideia de que o “hiper-tudo” produz liberdade em vez de uma mecânica social estúpida e ininterrupta. Acusa nosso próprio modus operandi do agir mecanizado de produção culminando no cansaço da sociedade moderna.

 

Há duas formas de potência. A potência positiva é a potência de fazer alguma coisa. A potência negativa, ao contrário, é a potência de não fazer, para falar com Nietzsche; para dizer não. Mas a potência negativa distingue-se da mera impotência, a incapacidade de fazer alguma coisa. A impotência é simplesmente o contrário da potência positiva. Ela é, ela própria, positiva na medida em que está ligada com algo. Ela não é capaz de alguma coisa. A potência negativa supera a positividade, que está presa em alguma coisa. É uma potência de não fazer. Se, desprovidos da potência negativa de não perceber, possuíssemos apenas a potência positiva de perceber algo, a percepção estaria irremediavelmente exposta a todos os estímulos e impulsos insistentes e intrusivos. Então não seria possível haver qualquer “ação do espírito”. Se possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não tivéssemos a potência de não fazer, incorreríamos numa hiperatividade fatal. Se tivéssemos apenas a potência de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de objetos. Seria impossível haver reflexão (Nachdenken), pois a potência positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken). Han p.30, 31

 

 

Dialogando com Nietzsche, Han procura conjugar a experiência do “Humano: Demasiado Humano” da negatividade do não-para nietzschiano, afirmando que é também um traço essencial da contemplação. Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade pura do não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflui e se impõe. Assim é um processo extremamente ativo, e algo bem distinto que passividade. É um exercício para alcançar em si um ponto de soberania, de ser centro. Se possuíssemos apenas a potência positiva, estaríamos, ao contrário, expostos de forma totalmente passiva ao objeto, que o leva ao adoecimento social, refletindo uma espécie de (des)humanidade consigo mesmo.

 

Em seu escrito Vita activa, Hannah Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu múltiplo desdobramento interno. Em sua opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera agitação, nec-otium ou a-scholia.   Han p.22

 

Han dialoga com filosofa Hannah Arendt, no escrito Vita activa, Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu múltiplo desdobramento interno. Em sua opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera agitação. Para Arendt, o milagre se processava no próprio nascimento (recomeço) do ser humano onde se realiza uma ação, com dimensões milagrosas e revolucionárias. “Segundo Arendt, a sociedade moderna, enquanto sociedade do trabalho, aniquila toda a possibilidade de agir, degradando o homem a um animal laborans – um animal trabalhador”.

 

No entanto, as descrições do animal laborans de Arendt não correspondem às observações que podemos fazer na sociedade de desempenho hoje, pois este não abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se ao trabalho anônimo. Esta sociedade radicalmente transitória, hiperativa e hiperneurótica pelo trabalho se individualiza, tendo em vista o desempenho, a ponto de quase dilacerar-se no isolamento, nervosismo e inquietação.

 

Precisamente, com a histeria do trabalho e da produção, acelerado mundo de hoje aprisiona as formas de ver e promove outras coerções e carências do ser. Na sociedade do trabalho, o próprio senhor da dialética do senhor e do escravo se transformou num escravo do trabalho, sem ter tempo livre para o lazer. E “a especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos”. A absolutização da vida ativa e a perda da capacidade contemplativa acabam sendo corresponsáveis pela histeria e nervosismo da sociedade moderna. De acordo com Han “a vita contemplativa pressupõe uma pedagogia específica do ver”.

 

O relato de Melvilles “Bartleby”, que foi objeto de diversas interpretações metafísicas ou teológicas, admite também uma leitura patológica. Essa “história provinda da Wall Street” descreve um universo de trabalho desumano, cujos habitantes, todos eles, são degradados a animal laborans. Apresenta-se detalhadamente a atmosfera sombria, hostil do escritório espessamente rodeado de arranha-céus. A menos de três metros ergue-se “alto o muro de tijolos, que se tornou preto por causa da idade e por estar sempre à sombra”. Ao ambiente de trabalho, que parece uma caixa de água, falta todo e qualquer traço de “vida” (deficiente in what landscape painters call “life”). A melancolia e o mau-humor, de que se fala constantemente no relato, forma a atmosfera fundamental da narrativa.

 

Han conclui a narrativa: “Essa ‘história provinda de Wall Street’ não é uma história da ‘des-criação’, mas uma história de esgotamento. Queixa e acusação, juntas, formam a invocação com a qual se encerra a narrativa: ‘Oh, Bartleby!, Oh, humanidade!” (p. 35).

Han epiloga seu ensaio contrastando as expressões ‘doping cerebral’ e ‘neuro-enhancement’. Menciona que “o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma” (p. 38) e, baseando-se na obra “Ensaio Sobre o Cansaço”, de Handke (p. 38), Han retoma de forma bastante didática o que caracteriza, em seus diversos tipos e formas, a nossa “Sociedade do Cansaço” — a sociedade do não-para nos termos nietzscheanos, a sociedade cuja preocupação reside no status e visibilidade social.

 

A citação feita por Han na contracapa, é conveniente e oportuna, Nietzsche, na obra “Humano: Demasiado Humano” é magistral por sua sapiência e ainda atual, serve bem ao propósito de corolário para sua tese: “Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”. A sociedade do desempenho caminha para o esgotamento, sob a ditadura do desempenho até o amor esta se positivando na sexualidade e a mercantilização do corpo como mercadoria, ai já é outra conversa, já é uma conversa com outra obra de Han, a “Agonia do Eros”.

 

Byung-Chul Han (Pyong-Chol Han) (Seul, 1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente, é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de ensaios de críticas à sociedade do trabalho e à tecnologia.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Byung-Chul_Han