Quando o certo elimina o outro
Há
um ponto em que o debate deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre
salvação. Nesse ponto, não se discute mais o que é melhor, mais justo ou mais
eficaz — discute-se o que é absolutamente certo contra o que é absolutamente
errado. É aí que nascem as disputas morais absolutas.
Diferente
das divergências comuns, onde há espaço para negociação, revisão e aprendizado,
as disputas morais absolutas operam em uma lógica binária. Não há meio-termo,
não há gradação, não há contexto suficiente para relativizar. O outro não está
apenas equivocado — está moralmente errado. E, quando isso acontece, o diálogo
se fragiliza, porque o desacordo deixa de ser intelectual e passa a ser
ético-existencial.
Esse
fenômeno pode ser compreendido à luz do pensamento de Friedrich Nietzsche,
que criticava a pretensão de verdades morais universais e fixas. Para
Nietzsche, muitas das nossas certezas morais são construções históricas que se
apresentam como absolutas para garantir poder e estabilidade. Quando essas
certezas são questionadas, a reação tende a ser intensa — não apenas por
discordância, mas por ameaça à identidade.
Na
contemporaneidade, essas disputas são amplificadas por contextos de polarização
política e pelas dinâmicas das redes sociais. Questões complexas — como justiça
social, liberdade de expressão, direitos individuais — são frequentemente
reduzidas a slogans morais. Cada lado constrói para si uma posição de
superioridade ética, e o outro passa a ser visto não apenas como adversário,
mas como alguém que representa o mal a ser combatido. Estamos em ano de
eleições, então estamos vivendo o purgatório democrático construído por muitas
narrativas polarizadas com suas disputas morais absolutas.
Nesse
cenário, a análise de Carl Schmitt volta a aparecer com força: a
política estruturada na distinção entre amigo e inimigo. Mas, nas disputas
morais absolutas, essa distinção se intensifica, pois o inimigo não é apenas
político — é moral. E um inimigo moral não deve ser convencido, mas derrotado.
Por
outro lado, Hannah Arendt nos alerta para os perigos dessa lógica.
Quando o espaço público é dominado por certezas absolutas, ele deixa de ser um
espaço de pluralidade e se transforma em um campo de imposição. A política
perde sua função mediadora e se aproxima de formas autoritárias de pensamento,
mesmo quando defendidas em nome de causas consideradas justas.
Há
também um aspecto psicológico importante: as disputas morais absolutas oferecem
segurança. Em um mundo incerto, acreditar que se está “do lado certo” fornece
identidade, pertencimento e direção. No entanto, essa segurança tem um custo:
ela reduz a complexidade do real e dificulta o reconhecimento da legitimidade
do outro.
É
nesse ponto que o pensamento de Emmanuel Levinas se torna crucial. Para
Levinas, a ética começa no encontro com o outro, antes de qualquer sistema
moral fechado. Isso significa que nenhuma convicção — por mais forte que seja —
pode justificar a negação da humanidade do outro. A responsabilidade ética precede
a certeza moral.
Ao
mesmo tempo, Karl Popper oferece uma alternativa: a ideia de uma sociedade
aberta, onde nenhuma verdade está imune à crítica. Isso não implica
relativismo absoluto, mas um compromisso com a revisibilidade das nossas
próprias posições. Em vez de defender verdades incontestáveis, trata-se de
sustentar convicções com disposição para o diálogo.
Na
prática, isso significa transformar disputas morais absolutas em debates éticos
complexos. Em vez de perguntar “quem está certo?”, talvez seja mais produtivo
perguntar “o que está em jogo?”, “quais valores estão em conflito?”, “quais são
as consequências de cada posição?”. Essas perguntas não eliminam o desacordo,
mas o tornam mais reflexivo e menos destrutivo.
A
educação tem, mais uma vez, um papel decisivo. Formar sujeitos capazes de lidar
com ambiguidade, de sustentar dúvidas e de reconhecer limites nas próprias
convicções é essencial para evitar a radicalização moral. Paulo Freire
insistia na importância da consciência crítica — não como certeza absoluta, mas
como abertura ao diálogo e à transformação.
As
disputas morais absolutas, portanto, revelam uma tensão fundamental da vida em
sociedade: o desejo de afirmar valores e a necessidade de conviver com a
diferença. Quando o primeiro anula o segundo, o conflito se torna
intransponível. Mas quando ambos são equilibrados, abre-se espaço para uma
ética mais madura — uma ética que não abdica de princípios, mas reconhece sua
própria incompletude.
Talvez
o desafio não seja abandonar nossas convicções, mas aprender a sustentá-las sem
transformá-las em armas contra o outro. Reconhecer que, mesmo quando
acreditamos estar certos, ainda estamos inseridos em um mundo compartilhado,
onde a convivência exige mais do que certeza: exige responsabilidade, escuta e,
sobretudo, humanidade.
E
é justamente nesse equilíbrio delicado — entre firmeza e abertura — que a paz
encontra sua possibilidade.





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