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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Sociedade do Espetáculo

A Vida como Imagem

Vivemos numa época em que a imagem se tornou mais importante que a realidade. Ao andar pelas redes sociais, ver propagandas ou até observar conversas em cafés, percebemos que não basta mais viver: é preciso aparecer. Esse fenômeno, que parece tão atual, já foi diagnosticado por Guy Debord em 1967, em sua obra A Sociedade do Espetáculo, onde ele afirma que "tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação". Então, vamos dar uma visada nesta obra tão atual deste visionário.

Para Debord, o espetáculo não é apenas o conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. A vida passa a ser organizada em função daquilo que pode ser mostrado. A experiência direta, subjetiva, rica em nuances, cede espaço ao que é visível, vendável, compartilhável. Com isso, perdemos a densidade da vida real e mergulhamos numa espécie de vitrine infinita, onde todos são espectadores e atores de si mesmos.

Essa lógica invade todos os aspectos da vida: o trabalho vira portfólio, o lazer vira conteúdo, as amizades viram interações públicas. Até a dor e o luto, que antes pediam silêncio e interioridade, agora podem ser postados, curtidos, comentados. Isso não quer dizer que toda exposição é falsa, mas que a forma como a vida se organiza cada vez mais responde à lógica do espetáculo, do olhar do outro, do valor de troca da imagem.

Debord antecipou um mundo em que o capital já não depende apenas da produção de mercadorias, mas também da produção de experiências formatadas para o consumo simbólico. A alienação, nesse novo modelo, não é apenas em relação ao produto, mas também à própria vida: a pessoa se vê vivendo para o espetáculo, se distancia daquilo que sente e daquilo que é, trocando autenticidade por visibilidade.

Essa crítica permanece urgente. Não se trata de nostalgia por um tempo "antes das telas", mas de um convite à consciência: estamos vivendo ou apenas representando? Estamos construindo relações reais ou apenas trocando aparências?

A filosofia de Debord é um alerta contra a passividade diante das imagens e uma convocação à retomada da experiência vivida — aquela que não precisa de plateia para fazer sentido.

Vale a pena ler o livro, fica aí a sugestão de leitura.


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Leviatã e o Poder

Quando o monstro nos representa

 

Há dias em que basta assistir a uma sessão do parlamento ou a uma reunião de condomínio para que a gente entenda por que alguém, em algum momento da história, pensou ser melhor concentrar o poder nas mãos de um único soberano do que deixar todo mundo decidir tudo junto. Em meio ao caos cotidiano, à gritaria dos interesses e à vontade desencontrada das pessoas, surge a pergunta: quem vai nos proteger de nós mesmos? Foi com esse dilema que Thomas Hobbes criou a imagem do Leviatã, uma espécie de monstro político formado pela soma de todos nós.

 

O monstro necessário

O nome vem de uma criatura bíblica, um ser gigantesco das profundezas, incontrolável, assustador. Mas Hobbes não o invoca para aterrorizar — ao contrário, para proteger. Em seu livro Leviatã (1651), ele defende que, sem um poder soberano que concentre as decisões, a humanidade mergulha no estado de natureza, onde todos vivem em guerra contra todos. Ali, segundo ele, a vida é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”.

Hobbes parte de um princípio pessimista, mas realista: os seres humanos são movidos pelo medo, pela autopreservação e pelo desejo de poder. Nesse cenário, um contrato social é necessário — um pacto em que todos abrem mão de parte de sua liberdade em troca de segurança. E o Leviatã, o soberano absoluto, é quem garante a ordem e o cumprimento desse pacto. Ele não é eleito para ser simpático, mas para impedir que o mundo vire um campo de batalha de interesses.

 

O Leviatã nos dias de hoje

O problema é que, ao longo da história, o Leviatã cresceu. Em vez de ser apenas um protetor contra o caos, muitas vezes se tornou um opressor. O que era para proteger, passou a sufocar. E o que era para unir, passou a dividir. A crítica contemporânea aponta: quando o Estado concentra demais, torna-se também o autor da violência — e não seu antídoto. Pensadores como Michel Foucault vão mostrar que o Leviatã moderno não só reprime, mas molda, disciplina, define quem somos. O monstro já não nos protege apenas: ele nos fabrica.

Mas o mais inquietante talvez seja pensar que o Leviatã não é um ser externo. Ele é composto pelos corpos dos cidadãos. Cada decisão nossa, cada medo que temos, cada vez que pedimos mais segurança e menos liberdade, estamos alimentando o monstro. Ele cresce com a nossa delegação. E é aqui que o pensamento de Hobbes se atualiza de forma perturbadora: o Leviatã é o espelho do nosso desejo de ordem — mesmo quando isso nos custa autonomia.

 

Nietzsche, o Leviatã e a vontade de poder

Nietzsche, que rejeitava tanto o Estado quanto qualquer instância que se colocasse como verdade absoluta, provavelmente olharia para o Leviatã com desprezo e ironia. Em Assim falou Zaratustra, ele escreve: “O Estado é o mais frio de todos os monstros frios. Ele mente friamente; e esta é a mentira que escapa de sua boca: 'Eu, o Estado, sou o povo'.” Para Nietzsche, o Leviatã hobbesiano representa a negação da vontade individual, da potência criadora de cada ser humano. É uma máquina de mediocridade, de nivelamento, de obediência.

Se Hobbes acha que o Leviatã é a salvação contra o caos, Nietzsche vê no caos a chance de criação, de superação, de liberdade autêntica. O Leviatã, com sua promessa de segurança, paralisa o impulso vital. Ele evita o pior, sim, mas também impede o melhor.

 

E se o Leviatã estiver dentro de nós?

A grande virada filosófica pode estar em perceber que o Leviatã não é só uma metáfora do Estado. Ele também representa nossa própria tentativa de nos dominar. Criamos regras internas, repressões, identidades rígidas para dar conta do medo que temos de nós mesmos. Talvez o maior Leviatã não seja o governo nem a autoridade externa, mas aquela voz que diz “seja produtivo”, “seja normal”, “obedeça”.

Por isso, pensar o Leviatã hoje é refletir sobre o equilíbrio entre proteção e liberdade, ordem e potência, segurança e criação. E talvez, mais importante ainda, é perceber que o monstro que nos governa também é feito de nossas escolhas, nossos silêncios e nossas entregas.