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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Inputs da Sociedade


“Inputs da sociedade” — gosto de pensar nisso como a respiração coletiva do mundo. Aquilo que entra em nós sem pedir permissão e aquilo que sai de nós sem que a gente perceba.

A sociedade é um grande sistema de inputs e outputs humanos.

Ela nos envia valores, opiniões, modas, medos, urgências.

E nós devolvemos atitudes, discursos, silêncios, escolhas.

Mas quase nunca percebemos o que está entrando.

Acordamos e, antes mesmo de pensar por conta própria, já recebemos inputs: notícias, notificações, conversas, expectativas sociais. Alguém diz que o sucesso é correr. Outro diz que felicidade é consumir. Outro diz que é preciso opinar sobre tudo. E assim, sem perceber, a mente vai sendo alimentada por ideias que nem sempre nasceram dentro de nós.

Depois, no decorrer do dia, começam os outputs.

O jeito que respondemos.

O tom com que falamos.

As opiniões que repetimos.

Até os julgamentos que fazemos sobre os outros.

E o curioso é que muitos desses “outputs” não são realmente nossos. São ecos sociais.

Percebo isso em situações simples:

Quando alguém fala mal de algo e, minutos depois, me pego concordando sem refletir.

Quando uma tendência vira opinião coletiva e parece estranho discordar.

Quando o silêncio de um grupo molda o que é aceitável pensar.

A sociedade nos programa sutilmente, não por imposição direta, mas por repetição constante. Como se fosse uma pedagogia invisível do cotidiano. Nesse sentido, a reflexão de Paulo Freire faz muito sentido: somos seres em constante formação, influenciados pelo mundo que nos cerca, mas também responsáveis por transformá-lo.

Ou seja, não somos apenas receptores passivos de inputs sociais. Somos também emissores que alimentam o próprio sistema.

Se eu espalho pressa, a sociedade recebe mais pressa.

Se eu espalho gentileza, ela recebe mais humanidade.

Se eu espalho cinismo, ela devolve desconfiança.

Há um ciclo silencioso aí.

O problema é quando o volume de inputs supera nossa capacidade de reflexão. Aí começamos a viver em modo automático: repetindo ideias prontas, reagindo em vez de compreender, opinando antes de pensar. É como se a mente virasse apenas um canal de retransmissão social.

E, sinceramente, isso me cansa.

Porque a sensação de autenticidade diminui. A pessoa fala, mas não sabe se a voz é dela ou do ambiente. Pensa, mas não sabe se a ideia nasceu da experiência ou da influência.

Talvez o verdadeiro exercício de consciência hoje seja filtrar os inputs antes de produzir outputs.

Perguntar:
“Isso que penso veio de mim ou do ruído social?”

“Essa reação é minha ou aprendida?”

Quando começo a observar isso, algo muda. O pensamento fica menos reativo e mais próprio. A fala deixa de ser eco e vira expressão. E, aos poucos, a gente deixa de ser apenas um produto da sociedade para se tornar também um agente dela.

No fundo, a sociedade não é uma entidade distante.

Ela acontece dentro da gente, o tempo todo.

Nos inputs que absorvemos.

E, principalmente, nos outputs que escolhemos devolver ao mundo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Imaginário dos Homens


Às vezes, enquanto caminho pela rua ainda meio sonolento, percebo que cada pessoa que cruza meu campo de visão carrega um mundo inteiro na cabeça — um mundo que ninguém vê, mas que ordena tudo o que ela faz. É curioso como essa dimensão interior, silenciosa e quase sempre invisível, molda nossos gestos, expectativas e até nossas frustrações. Outro dia, enquanto esperava o ônibus, fiquei observando um senhor que conversava sozinho. Talvez estivesse revisando mentalmente as tarefas do dia, talvez falando com memórias; quem sabe estava apenas arrumando uma desculpa para não se sentir tão só. Mas ali, diante de mim, estava a materialização do imaginário humano: essa linguagem secreta que cada um fala consigo mesmo.

O imaginário dos homens funciona como uma espécie de segundo ambiente. Não é apenas fantasia, mas a força estruturante que nos permite sustentar o real, reinterpretar o que vemos e domesticar aquilo que nos escapa. É nele que guardamos as imagens fundamentais da infância — as primeiras heroicidades, os primeiros medos — e também os modelos de vida que tentamos, às vezes desastradamente, imitar.

Penso sempre no quanto o imaginário é mais poderoso do que a realidade objetiva. Basta reparar no cotidiano: quantas relações terminam não pelo que de fato acontece, mas pelo que alguém imagina que aconteceu? Quantos projetos desmoronam porque o imaginário da derrota se impôs antes mesmo que o primeiro passo fosse dado? Quantos conflitos sociais não são alimentados por fantasias compartilhadas, por estereótipos endurecidos, por mitos que deveriam ter sido aposentados há décadas?

Para entender essa força, gosto de recorrer ao pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos que mais profundamente refletiu sobre o imaginário. Ele afirma que o imaginário não é mero espelho da realidade, mas uma potência criadora que institui significações. Ou seja: não vemos o mundo tal como ele é, mas tal como somos capazes de imaginá-lo. Castoriadis dizia que toda sociedade se funda sobre um imaginário social — uma grande ficção organizada, compartilhada, que dá sentido ao que fazemos sem que percebamos.

Trazendo isso para a vida diária, fica evidente: somos educados para imaginar o sucesso como velocidade, o amor como perfeição, o corpo como máquina sempre em forma e a felicidade como uma linha reta. Nenhuma dessas imagens é real em si; são construções, idealizações, molduras para enquadrar nossa experiência. Mas o problema é que muitas vezes confundimos a moldura com o quadro. E sofrermos por não caber no desenho que nós mesmos reforçamos.

O imaginário dos homens é também o lugar onde escondemos nossas sombras. Criamos histórias internas para justificar medos, sustentamos autoimagens heroicas para evitar encarar fragilidades, inventamos antagonistas para dar coerência ao caos. No fundo, cada um de nós é um contador de histórias — histórias que acreditamos antes de qualquer outra coisa.

Castoriadis nos lembraria que, se o imaginário cria, ele também pode recriar. Ou seja: podemos revisitar nossas imagens internas, romper com algumas, reinventar outras. Isso é profundamente libertador. Talvez seja por isso que certas conversas — aquelas em que finalmente conseguimos dizer o que o imaginário escondia — têm o poder quase mágico de reorganizar a vida.

No fim das contas, o imaginário dos homens é a prova de que não vivemos apenas no mundo: vivemos também dentro de nós. E se esse espaço pode ser prisão, também pode ser possibilidade. A pergunta que fica é simples, mas desafiadora: quem está criando o imaginário que estamos vivendo? Somos nós — ou estamos apenas repetindo imagens que herdamos sem perceber?

Talvez a verdadeira maturidade seja justamente aprender a imaginar melhor. A cultivar imagens interiores que sustentem nossa humanidade, e não que nos reduzam a caricaturas de nós mesmos. Porque, no fundo, aquilo que imaginamos — de nós, dos outros, do futuro — é o que decide o tamanho da vida que conseguimos viver.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Éthos e Hegemonia

Quando o jeito de ser vira lei

Já parou para pensar por que, em certos grupos, um jeito de falar, vestir, agir ou até mesmo pensar parece “natural”, enquanto outros modos são vistos como estranhos ou errados? Por que certas ideias, valores e estilos de vida dominam a cena social, como se fossem a única forma “correta” de existir?

É aqui que entram dois conceitos poderosos — éthos e hegemonia — que, juntos, explicam como o poder se infiltra no cotidiano, moldando não só nossas instituições, mas a própria alma das comunidades.

Éthos vem do grego e significa algo como “caráter” ou “modo de ser”. Não é apenas um traço individual, mas o espírito coletivo que orienta o comportamento e as crenças dentro de um grupo. É o pano de fundo que faz com que certas atitudes pareçam “normais” ou até “virtuosas” para quem está dentro daquele universo.

Já hegemonia é uma ideia central na obra do pensador italiano Antonio Gramsci. Para ele, a hegemonia não é apenas dominação por força, mas o domínio cultural e ideológico — quando uma classe ou grupo social consegue fazer com que sua visão de mundo seja aceita como universal e legítima. Essa hegemonia se espalha pelo éthos coletivo, naturalizando o poder e ocultando as relações de opressão que o sustentam.

Na prática, pense nas escolas, na mídia, nas redes sociais. Elas ajudam a construir o éthos dominante: a “forma correta” de ser cidadão, consumidor, trabalhador, jovem, mulher ou homem. O que Gramsci mostra é que o poder não depende só da repressão, mas da capacidade de convencer as pessoas a “querer o que é necessário” para manter a ordem vigente.

Essa dinâmica aparece claramente nas narrativas sobre meritocracia, por exemplo — a ideia de que quem trabalha duro sobe na vida e merece seu lugar. Quem não consegue, supostamente, falhou por incompetência própria. Essa crença está tão entranhada no éthos social que poucas vezes é questionada, mesmo que esconda desigualdades estruturais.

O éthos hegemonicamente construído também pode ditar padrões de beleza, comportamento e até mesmo linguagem, criando grupos de exclusão e marginalização. Quem foge desses padrões pode ser visto como “fora do lugar”, “anormal” ou “rebelde”. Mas, justamente aí reside a possibilidade da transformação social: contestar o éthos dominante é um passo para desestabilizar a hegemonia.

Hoje, um campo onde o éthos hegemônico aparece de forma cristalina é nas redes sociais. Plataformas como Instagram e TikTok estabelecem padrões estéticos, estilos de vida e formas de comunicação que rapidamente se tornam “normais” e desejáveis. Influenciadores e marcas moldam gostos e comportamentos, fazendo com que milhões sigam tendências sem perceber que estão reproduzindo um modo de ser imposto — um éthos digital que valoriza a performance, o consumo e a aprovação social.

Mas também surgem resistências: movimentos sociais, como o Black Lives Matter ou os coletivos LGBTQIA+, desafiam os éthos dominantes ao reivindicar novos modos de ser e existir que rompem com padrões tradicionais. Eles buscam criar uma contra-hegemonia, propondo um éthos mais plural, inclusivo e crítico das desigualdades.

No ambiente corporativo, o éthos hegemônico é visível nas culturas organizacionais que valorizam competitividade, produtividade e conformidade. A ideia do “funcionário ideal” muitas vezes se traduz num padrão de comportamento que exclui quem não se encaixa, seja por gênero, raça, estilo ou crenças. A contestação a esses padrões internos pode gerar conflitos, mas também impulsiona debates sobre diversidade e inclusão — justamente um esforço para alterar o éthos dominante e, com isso, a hegemonia cultural dentro das empresas.

Gramsci acreditava que os grupos subalternos precisavam criar sua própria “contra-hegemonia” — uma nova cultura e um novo éthos que questionem o status quo e ampliem o sentido de liberdade e justiça. Essa luta é constante, feita nas pequenas batalhas diárias de percepção, linguagem e comportamento.

Por isso, pensar em éthos e hegemonia é olhar para o poder não só como algo que impõe de fora, mas que vive e se reproduz dentro de cada um de nós. É um convite para refletir sobre quais modos de ser estamos adotando e por quê — e se eles realmente nos pertencem ou foram impostos.

No fim das contas, o éthos é o palco onde a hegemonia dança — e só compreendendo essa dança é que podemos escolher se queremos ser os dançarinos oficiais ou inventar uma nova coreografia.


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Controlar a Energia

Me perguntei como poderia controlar a energia da presença, numa dialética de mim comigo mesmo, redundante, coisas da imaginação. Pensei, controlar a energia que emana de nossa presença não é sobre abafar quem somos, mas sim sobre tomar consciência de como nos manifestamos no mundo — com o corpo, a voz, os gestos, o olhar, o silêncio e até a respiração. É como afinar um instrumento: não se trata de mudar a melodia, mas de tocar com intenção.

No dia a dia, todos percebemos isso. Basta lembrar de alguém que entra em um ambiente e, sem dizer uma palavra, muda o clima. Pode ser para melhor — com leveza e segurança — ou para pior, com tensão ou arrogância. E muitas vezes, quem tem essa presença marcante nem percebe o efeito que causa. A chave está em perceber.

A energia da presença está diretamente ligada ao nosso estado interior. Se estamos ansiosos, irritados, inseguros ou eufóricos demais, isso se projeta no nosso campo — mesmo que tentemos disfarçar com palavras gentis ou sorriso social. Por isso, o primeiro passo para controlar essa energia é nos observar de dentro para fora. Antes de falar, sentir. Antes de agir, respirar.

É um treino. Por exemplo:

– Numa reunião de trabalho, ao invés de entrar falando alto para “mostrar serviço”, experimente escutar primeiro e entender o clima do grupo.

– Em casa, se chegar estressado, em vez de descarregar no outro, dê-se dois minutos de silêncio consciente — nem que seja no banheiro, respirando fundo.

– Ao conversar com alguém em sofrimento, pratique o olhar presente, sem pressa e sem julgamento. Só isso já emana apoio.

A filósofa Simone Weil dizia que “a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade.” Talvez seja isso: controlar a energia da presença é um ato generoso, que começa com atenção a si mesmo e se expande como cuidado com o outro.

No fundo, a presença é como um perfume sutil: a gente não precisa borrifar nos outros — basta estar inteiro, lúcido, com o coração poroso. O resto se comunica sozinho.

Tá aí, coisas da imaginação!


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

A Filosofia no Ambiente Corporativo


Ultimamente tenho estado imerso nas ideias de Martha Nussbaum, essa filósofa contemporânea que não só faz a gente pensar, mas também traz um toque de humanidade para esse mundão corporativo em que vivemos. Resolvi compartilhar um pouco dessa experiência. Então, vamos lá, pega seu café e vem comigo nesse papo sobre como as ideias dela têm feito a diferença no dia a dia entre relatórios e planilhas. Martha Nussbaum é uma filósofa contemporânea norte-americana, nascida em 6 de maio de 1947, conhecida por suas contribuições significativas no campo da ética, filosofia política, filosofia do direito e filosofia da mente. Ela é atualmente professora de Direito e Ética na Universidade de Chicago.

 

Martha Nussbaum

Muitas vezes, a filosofia é vista como algo distante, confinado às mentes dos acadêmicos que discutem teorias em salas de aula isoladas. No entanto, ao explorar as ideias de filósofos como Martha Nussbaum, percebemos que a filosofia é uma ferramenta incrivelmente atuante e relevante em nossas vidas diárias. A filosofia, quando aplicada ao mundo prático, oferece insights valiosos para enfrentar os desafios cotidianos, sejam eles no ambiente de trabalho, na educação ou em qualquer outro aspecto da vida. As ideias de Nussbaum, que inicialmente podem parecer teóricas, ganham vida quando aplicadas em situações reais, como discutimos no artigo sobre o ambiente corporativo.

Ao incorporar princípios éticos, promover o diálogo intergeracional e abraçar a responsabilidade social, percebemos que a filosofia não está apenas nos livros, mas nas escolhas que fazemos todos os dias. Ela se torna uma bússola, guiando-nos não apenas na busca do conhecimento, mas também na construção de um legado significativo e duradouro. Portanto, podemos dizer com certeza que a filosofia não está distante ou inacessível; ela está profundamente enraizada em nossas experiências cotidianas, moldando a maneira como vivemos e interagimos com o mundo ao nosso redor.

O ambiente corporativo, muitas vezes guiado por metas e resultados, pode parecer distante da filosofia. No entanto, ao aplicar as ideias de Martha Nussbaum, renomada filósofa contemporânea, podemos explorar como conceitos como virtudes humanas, diálogo intergeracional e transformação social podem influenciar positivamente o mundo dos negócios, contribuindo para um efeito de posteridade palpável. Imagine uma empresa que incorpora as virtudes humanas na cultura organizacional. Em vez de focar exclusivamente em lucros, os líderes incentivam a empatia, a integridade e a colaboração entre os funcionários. Nussbaum argumentaria que essa abordagem não apenas cria um ambiente de trabalho mais ético, mas também estabelece um legado de valores que resiste às flutuações do mercado ao longo do tempo.

Em uma reunião estratégica, líderes e funcionários de diferentes faixas etárias participam de um diálogo aberto, seguindo a filosofia de Nussbaum. A troca de ideias entre as gerações não apenas respeita a experiência passada, mas também impulsiona a inovação. Nussbaum defenderia que, ao incorporar diversas perspectivas, a empresa não apenas mantém uma tradição de sucesso, mas também se adapta e cresce de maneira sustentável.

Nussbaum destacaria a importância de as empresas se envolverem em projetos sociais que vão além dos lucros. Isso pode incluir iniciativas de responsabilidade social corporativa, como programas de educação, sustentabilidade ambiental e filantropia. Ao integrar a responsabilidade social no núcleo dos negócios, a empresa contribui para uma transformação social positiva, agindo como agente de mudança em sua comunidade e deixando um legado de impacto social.

Ao aplicar as ideias de Martha Nussbaum em um ambiente corporativo, percebemos que sua filosofia não é apenas teórica, mas prática e adaptável aos desafios contemporâneos. O efeito de posteridade, segundo Nussbaum, não se limita à academia, mas pode ser construído em qualquer contexto. Ao adotar princípios éticos, diálogo intergeracional e responsabilidade social, as empresas podem não apenas prosperar no presente, mas também criar um legado positivo que transcende as flutuações do mundo dos negócios.

Às vezes, tudo que a gente precisa no escritório é um toque de filosofia para dar aquele empurrãozinho, né? Vamos tentar colocar em prática esses insights da Nussbaum e ver como podemos criar não só resultados, mas um ambiente de trabalho que realmente importa. Quem sabe a gente não transforma nosso escritório no lugar onde a ética, o diálogo e a responsabilidade social são as estrelas do show?

 

sábado, 19 de novembro de 2011

O Ambiente é “Meio” ou “Fim”?




Tanto se fala em preservação do meio ambiente, tantos falam tantas coisas acerca do tema, com tanta propriedade, que até conseguem convencer uma grande parcela da população, cidadãos éticos, melhor dizendo: cidadãos “bioéticos”, agem a partir do principio de para cada um, de acordo com as regras de livre mercado, mercado dominado por poucos, agem em beneficio próprio, como únicos proprietários dos bens naturais, utilizando os meios com fins lucrativos.
Bioéticos, seriam cidadãos que refletem a relação do homem com o homem e com a natureza, porem os resultados dizem outra coisa.
A relação causa e consequência, contrariam “Hume”, quando a fala e discurso apontam numa direção, os atos em outra e as conseqüências que ocupam nossa realidade, confirmam que para cada ato injusto uma conseqüência justa.
A cada ato uma conseqüência, a repetição dos atos e conseqüências, fornecem fortes indicativos do que começa errado ou torto, não pode acabar bem.
O senso comum com sua vasta experiência já atesta, que é assim, isto de longa data, desde que o homem começou a andar sobre os membros inferiores.
Pergunto o que o futuro ao julgar o presente, que passado um dia será!, penalizará a quem ainda aqui estiver conjugando o verbo viver ou o verbo sobreviver?
O homem, com suas teorias normativas, defende a idéia de que as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas, teoria moral que orienta nossas escolhas sobre o que deve ser feito.
Sendo livre, age movido por uma vontade livre, almejando, por sua vez, a perfeição moral. Então sendo livre, porque age contra o que mais almeja? Porque nada contra a correnteza? A felicidade que é o objetivo comum e universal, esta em outra extremidade, no entanto as atitudes o levam a outro extremo, por que?
Em 610 a.C, Anaximandro, filósofo pré-socrático, desempenhou seu papel nas atividades práticas de Mileto, dizem que foi o “primeiro homem a desenhar o mundo habitado num quadro”, para a época dele, a representação do mundo habitado num quadro foi fruto de um posicionamento especial com relação ao meio, onde ele assumiu uma posição de quem olha de fora, mas estando dentro.
Este filósofo, buscou na natureza explicações para os acontecimentos, isto é fora da mitologia, pensou que a natureza das coisas nenhum oposto isolado consegue obter ascendência permanente, pois tal domínio destruiria o equilíbrio do universo. Sendo assim, o processo do mundo é auto-regulador, mantendo seu ritmo graças a oscilações alternadas na direção de um extremo a outro.
As coisas outorgam a devida retribuição umas as outras por sua injustiça de acordo com o esquema feito pelo tempo. Há uma justiça inerente a justiça das coisas que refaz o equilíbrio após o decurso de um certo período de tempo.

Como afirma Prof. Luís Antônio Vieira, Para explicar o nascimento e o desaparecimento das coisas, o filósofo grego transferiu para o mundo natural a idéia de direito que se aplicava antes apenas à vida social. Para Anaximandro, os elementos da natureza pagam pelas injustiças que são cometidas no mundo. E foi assim que teve origem a idéia filosófica de cosmos palavra que designava anteriormente apenas a justa ordem da comunidade e do Estado. A crença na idéia de lei e de direito como fundamento da existência levou o pensamento grego a projetar, no próprio universo, a imagem do cosmos sócio-político. A ordem cósmica foi pensada, assim, a partir da ordem política. Não só na vida humana, mas também na natureza, devia prevalecer a isonomia, ou seja, o princípio da igualdade de todos perante a lei.
Dois mil e quinhentos anos mais tarde, as idéias de Anaximandro cobrem-se de sentido ante as evidências da crise ecológica contemporânea. O tipo de ordem estabelecido na sociedade está hoje, sem dúvida, gerando desordem na natureza. A desorganização das leis da natureza parece estar refletindo as injustiças da vida social. A crise ambiental coloca, portanto em questão o próprio modo de organização da sociedade e as leis que regem sua reprodução, isto é, sua continuidade.
Ha uma atividade constante dentro do meio ambiente e um equilíbrio que possibilitam a continuidade da vida, neste momento a continuidade depende de organização racional da utilização do meio ambiente de forma sustentável, ou a palavra continuidade deixará de ter sentido, pelo menos para o homem, ser que tem consciência de seus atos. Será que tem consciência?
Ainda Vieira: Somos então levados a nos perguntar: como a antiga intuição do filósofo grego se materializa nos dias de hoje? Como se relacionam os fatos sociais e os fenômenos de natureza? Que relação existiria entre o efeito estufa e a desigualdade social, entre a destruição da camada de ozônio e os direitos humanos, entre o meio ambiente e a democracia? Seguindo a pista de Anaximandro, tentaremos investigar na presente crise ambiental os elementos que refletem processos de destruição de direitos e de produção de desigualdades. Assim fazendo, estaremos também identificando nas lutas ambientais os caminhos que levam, ao mesmo tempo, ao restabelecimento do equilíbrio na natureza e à construção da democracia na sociedade.
Anaximandro, com sua inteligência especulativa, pode ser visto como o criador da física teórica, sendo este filósofo observador da natureza, entendeu que a cada movimento há uma reação contraria, como forma de equilíbrio e auto-regulação, aplicados a vida social, associando-se a idéia como articulação das lutas democráticas.
O movimento social contra a degradação do meio ambiente vem se articulando crescentemente com as lutas democráticas pela implantação de um novo modelo de cidadania. A defesa dos direitos ambientais das populações unifica lutas sociais com distintos objetivos específicos: o acesso a bens coletivos como a água e o ar, em níveis e qualidade compatíveis com condições adequadas de existência; o acesso a recursos naturais de uso comum necessário à existência de grupos sócio-culturais específicos como seringueiros, apanhadores de castanha e comunidade indígenas; a garantia de uso público do patrimônio natural constituído por áreas verdes, cursos d.água e nascentes, freqüentemente degradados pelo uso privado incompatível com os interesses coletivos da sociedade.


Essas lutas têm por objetivo geral introduzir princípios democráticos nas relações sociais mediadas pela natureza: a igualdade no usufruto dos recursos naturais e na distribuição dos custos ambientais do desenvolvimento; a liberdade de acesso aos recursos naturais, respeitados os limites físicos e biológicos da capacidade de suporte da natureza; a solidariedade entre as populações que compartilham o meio ambiente comum; o respeito à diversidade da natureza e os diferentes tipos de relação que as populações com ela estabeleçam; a participação da sociedade no controle das relações entre os homens e a natureza.
A solução possível, dentro da organização social, é conciliar progresso e Natureza, viver com conforto, mas preservar o meio ambiente, não há outra opção para a continuidade da vida, pois é preciso que se faça imediatamente uma parceria psicológica entre – O homem e o meio. Levamos muito tempo para concluir que é a partir do entendimento, é a partir da iniciativa e boa vontade, mas para isto primeiro precisamos levar a sério a questão ambiental, e que nesta luta todos perdem. O homem é parte da natureza, ele não é melhor, mas pode tornar-se o pior.
Ainda Vieira, tais lutas exprimem a busca de democratização do controle sobre os recursos naturais. Pois, como o meio ambiente é o suporte natural da vida e do trabalho das populações, a luta contra a degradação ambiental tem por objetivo a preservação dos direitos dos cidadãos à vida e ao trabalho. Como as relações das populações com o meio ambiente constituem formas culturais específicas de existência dos grupos sociais, a degradação do meio ambiente é, via de regra, um processo de destruição de modos de vida e do direito à diversidade cultural de relacionamento das comunidades com a natureza. A crise ambiental exprime, assim, um duplo processo de expropriação das condições materiais e culturais de existência e de trabalho das populações. A superação desta crise passa, portanto, pela restauração e consolidação dos direitos ambientais das populações atingidas por agressões ao meio ambiente.



A destruição da natureza e sua exploração desenfreada e injusta, é tão prejudicial, que as culturas terminam por ser modificadas, destituídas, destruídas e tendem a desaparecer, juntamente com o pretenso personagem principal, o homem como assim se vê, e assim em sua pretensão explora a natureza, sob alegação de que tem direito de explorar se for para o bem da humanidade.

Fontes:
LUCE, J.V. Curso de Filosofia Grega. Jorge Zahar Editor. 1992. Rio de Janeiro/RJ
http://www.defendebrasil.org.br/mat_colaboradores.php?Codigo=412