Às
vezes — e aqui falo quase em voz baixa, como quem mexe numa caixa antiga — me
pego pensando naquele tipo de impulso que não sabemos explicar. Não é raiva,
não é fé, não é entusiasmo comum. É como se algo maior cutucasse por dentro. Já
sentiu? Aquele momento em que você faz algo que parecia impossível, ousado
demais ou completamente fora do seu “perfil habitual”. E depois, quando volta
ao estado normal, pensa: “Meu Deus, o que deu em mim?”.
Chamemos
isso de furor divino — não porque seja literalmente divino, mas porque
escapa à lógica cotidiana. É um desses fenômenos que parecem nascer de um lugar
onde razão e mistério se tocam, como dois vizinhos que raramente se
cumprimentam, mas às vezes trocam um aceno silencioso.
O
Furor que ultrapassa o humano
Na
tradição filosófica, ninguém falou melhor sobre isso do que Platão,
especialmente no diálogo Íon e no Fedro. Ali, o filósofo descreve
o “furor divino” (theia mania) como um estado em que o humano é
arrebatado por uma força superior. Não é loucura comum; é uma espécie de êxtase
criativo, profético, amoroso ou poético.
Platão
distingue quatro tipos de mania:
- A profética,
inspirada por Apolo;
- A ritual,
ligada a Dioniso;
- A poética,
dada pelas Musas;
- A amorosa,
presente em Afrodite e Eros.
O
que chama atenção é que, para ele, momentos verdadeiramente grandiosos da vida
— e aqui podemos incluir decisões transformadoras, intuições certeiras,
criações inesperadas — não surgem do cálculo frio. Surgem desse excesso, desse
transbordamento que não cabe na planilha da razão.
E
quando penso nisso no cotidiano, lembro de situações quase banais, mas
reveladoras.
Às vezes alguém passa meses travado num projeto e, de repente, em uma
madrugada, escreve o texto perfeito. Um casal que parecia arrastando a vida
descobre um impulso de renovação amorosa inesperada. Uma pessoa tímida toma uma
atitude corajosa que nem ela imaginava. Há quem mude de profissão, de cidade,
de vida, num surto de clareza que parece vir de outro plano.
É
raro, mas quando acontece, sentimos a vibração do furor.
O
que esse fenômeno nos diz hoje?
Talvez
o que chamamos de “furor divino” seja aquilo que ainda não aprendemos a nomear
dentro de nós. Uma espécie de energia originária, uma fagulha de vida
que nos escapa quando tentamos controlá-la demais.
O
pensador brasileiro Roberto Machado, ao comentar a genealogia das
paixões e dos impulsos, dizia que há forças em nós que não devem ser totalmente
domadas, pois são justamente elas que nos projetam para fora da repetição
mecânica da vida. O furor, nesse sentido, é uma potência de ruptura — perigosa,
sim, mas também necessária.
É
como se a vida tivesse um dispositivo interno de desorganização criativa. Sem
ele, seríamos apenas previsíveis. E o que é mais triste do que ser totalmente
previsível para si mesmo?
O
risco e o brilho
É
claro que o furor divino não é confortável. Ele mexe, desloca, empurra. Ele faz
com que você perceba que viveu demasiado tempo acomodado no raso. E há pessoas
que passam a vida inteira tentando evitar esse tipo de impulso, com medo do que
podem descobrir sobre si.
Mas
o curioso é que, muitas vezes, é justamente no furor que encontramos a versão
mais verdadeira do que somos. Não a versão educada, adaptada, disciplinada —
mas aquela que sabe o que quer antes mesmo de saber por que quer.
O
furor divino não pede licença. Ele aparece.
E
talvez o ponto mais filosófico de tudo seja este:
o
furor divino não vem de fora — ele nos devolve o que já era nosso, mas que
tínhamos esquecido.
No
fim das contas…
O
furor divino é um remédio amargo, mas é remédio. É aquele estado em que a vida
nos toma pela gola e diz:
“Agora,
preste atenção.”
E
quando passa, ficamos meio tontos, estranhamente iluminados e, quem sabe, um
pouco mais próximos daquilo que podemos ser.


