Entre a Margem e o Centro
Costumamos
ouvir que todo ser humano é digno, e que a dignidade é um direito inalienável.
No entanto, há séculos a humanidade dos proletários — isto é, daqueles que
vivem do próprio trabalho, que vendem sua força física ou intelectual para
sobreviver — tem sido uma humanidade em disputa. Nem sempre reconhecida, nem
sempre respeitada. Em muitos momentos históricos, tratada como uma extensão da
máquina, como recurso descartável ou massa estatística. Este ensaio busca
refletir, com um olhar filosófico e sociológico, sobre o que significa afirmar
a humanidade dos proletários em um mundo que frequentemente os reduz a função,
número ou obstáculo.
I.
O proletário como sujeito invisível
Karl
Marx,
em sua análise do capitalismo, foi um dos primeiros a denunciar a desumanização
estrutural imposta ao trabalhador. No "Manifesto Comunista",
ele mostra como o trabalhador é alienado do produto de seu trabalho, do
processo de produção, de sua própria essência como ser criativo. O proletário,
segundo Marx, se torna uma mercadoria. A sua humanidade, ao invés de ser
celebrada, é colocada à venda.
Essa
alienação, no entanto, não é apenas econômica. É também simbólica e cultural. O
sociólogo Pierre Bourdieu, ao estudar os mecanismos de reprodução
social, nos lembra que o proletário também é excluído dos sistemas legítimos de
gosto, fala, saber e presença. Sua forma de estar no mundo é muitas vezes
considerada “vulgar”, “errada”, “fora do padrão”. A negação da humanidade passa
então pelo desprezo estético e cultural.
A
filósofa Simone Weil, por sua vez, acrescenta um dado crucial: o
sofrimento do trabalhador não é apenas físico ou material — é um sofrimento da
alma. Em "A condição operária", ela descreve como o trabalho
repetitivo, sem sentido e sem reconhecimento, pode anular o sentimento de
existência. “A atenção ao sofrimento do outro é o verdadeiro gesto de amor”,
diz ela. E quem tem olhado com atenção para o sofrimento dos proletários?
II.
Entre a miséria e a resistência
A
condição proletária é, ao mesmo tempo, miséria e potência. É miséria quando se
impõe a exclusão sistemática dos meios de reconhecimento e autorrealização. Mas
é potência quando se transforma em consciência coletiva, quando o trabalhador
se reconhece em outro trabalhador, e reivindica, não só melhores salários, mas
o direito de existir plenamente.
Antonio
Gramsci, ao falar da cultura popular e da luta por hegemonia,
via na classe trabalhadora não apenas um grupo explorado, mas uma reserva moral
e intelectual capaz de produzir nova cultura e novos sentidos. Para Gramsci, o
proletário não deve ser apenas um objeto de políticas, mas um sujeito ativo da
história.
Nesse
sentido, há uma humanidade insurgente nos proletários: aquela que, mesmo
recusada pelas instituições dominantes, se afirma nas redes de solidariedade,
nos mutirões, nas greves, nas festas de rua, nos bailes de favela, nos sambas
de resistência, nas palavras ditas entre um turno e outro de trabalho.
III.
A dignidade encarnada
Zygmunt
Bauman escreveu que a sociedade moderna líquida tende a
produzir “refugos humanos”: aqueles cuja presença não é útil ao sistema. O
proletário, em suas diversas versões contemporâneas (o entregador de
aplicativo, a diarista, o motorista de ônibus, o operário fabril ou o técnico
precarizado), está sempre à beira desse descarte simbólico. Ainda assim,
persiste. Persiste porque resiste, e porque insiste em amar, criar, cantar,
sonhar.
Ao
afirmarmos a humanidade dos proletários, não fazemos um gesto de piedade, mas
de verdade. Eles não são apenas “trabalhadores”, mas também pais, mães,
artistas, pensadores, líderes, cuidadores, inventores — mesmo que não
reconhecidos oficialmente como tal. O filósofo brasileiro Roberto Machado
dizia que é preciso pensar a partir das margens para que o centro revele seu
avesso. É olhando para a humanidade dos proletários que vemos o quanto a
sociedade ainda falha em ser plenamente humana.
IV.
O futuro da humanidade passa pelo proletariado
A
humanidade dos proletários é, por vezes, a única humanidade realmente concreta:
aquela que sangra, que se esforça, que constrói prédios, limpa ruas, prepara
alimentos, cuida dos outros. No entanto, ela continua sendo sistematicamente
esquecida, como se fosse uma engrenagem do mundo e não sua alma.
A
tarefa filosófica e sociológica de nosso tempo talvez seja essa: resgatar o
sentido pleno de humanidade para todos, começando por aqueles a quem mais se
negou esse direito. Como diria Paulo Freire, outro pensador fundamental:
“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em
comunhão.” E só haverá comunhão se todos forem reconhecidos em sua inteireza —
inclusive, e sobretudo, os proletários.