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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Humanidade dos Proletários

Entre a Margem e o Centro

Costumamos ouvir que todo ser humano é digno, e que a dignidade é um direito inalienável. No entanto, há séculos a humanidade dos proletários — isto é, daqueles que vivem do próprio trabalho, que vendem sua força física ou intelectual para sobreviver — tem sido uma humanidade em disputa. Nem sempre reconhecida, nem sempre respeitada. Em muitos momentos históricos, tratada como uma extensão da máquina, como recurso descartável ou massa estatística. Este ensaio busca refletir, com um olhar filosófico e sociológico, sobre o que significa afirmar a humanidade dos proletários em um mundo que frequentemente os reduz a função, número ou obstáculo.

I. O proletário como sujeito invisível

Karl Marx, em sua análise do capitalismo, foi um dos primeiros a denunciar a desumanização estrutural imposta ao trabalhador. No "Manifesto Comunista", ele mostra como o trabalhador é alienado do produto de seu trabalho, do processo de produção, de sua própria essência como ser criativo. O proletário, segundo Marx, se torna uma mercadoria. A sua humanidade, ao invés de ser celebrada, é colocada à venda.

Essa alienação, no entanto, não é apenas econômica. É também simbólica e cultural. O sociólogo Pierre Bourdieu, ao estudar os mecanismos de reprodução social, nos lembra que o proletário também é excluído dos sistemas legítimos de gosto, fala, saber e presença. Sua forma de estar no mundo é muitas vezes considerada “vulgar”, “errada”, “fora do padrão”. A negação da humanidade passa então pelo desprezo estético e cultural.

A filósofa Simone Weil, por sua vez, acrescenta um dado crucial: o sofrimento do trabalhador não é apenas físico ou material — é um sofrimento da alma. Em "A condição operária", ela descreve como o trabalho repetitivo, sem sentido e sem reconhecimento, pode anular o sentimento de existência. “A atenção ao sofrimento do outro é o verdadeiro gesto de amor”, diz ela. E quem tem olhado com atenção para o sofrimento dos proletários?

II. Entre a miséria e a resistência

A condição proletária é, ao mesmo tempo, miséria e potência. É miséria quando se impõe a exclusão sistemática dos meios de reconhecimento e autorrealização. Mas é potência quando se transforma em consciência coletiva, quando o trabalhador se reconhece em outro trabalhador, e reivindica, não só melhores salários, mas o direito de existir plenamente.

Antonio Gramsci, ao falar da cultura popular e da luta por hegemonia, via na classe trabalhadora não apenas um grupo explorado, mas uma reserva moral e intelectual capaz de produzir nova cultura e novos sentidos. Para Gramsci, o proletário não deve ser apenas um objeto de políticas, mas um sujeito ativo da história.

Nesse sentido, há uma humanidade insurgente nos proletários: aquela que, mesmo recusada pelas instituições dominantes, se afirma nas redes de solidariedade, nos mutirões, nas greves, nas festas de rua, nos bailes de favela, nos sambas de resistência, nas palavras ditas entre um turno e outro de trabalho.

III. A dignidade encarnada

Zygmunt Bauman escreveu que a sociedade moderna líquida tende a produzir “refugos humanos”: aqueles cuja presença não é útil ao sistema. O proletário, em suas diversas versões contemporâneas (o entregador de aplicativo, a diarista, o motorista de ônibus, o operário fabril ou o técnico precarizado), está sempre à beira desse descarte simbólico. Ainda assim, persiste. Persiste porque resiste, e porque insiste em amar, criar, cantar, sonhar.

Ao afirmarmos a humanidade dos proletários, não fazemos um gesto de piedade, mas de verdade. Eles não são apenas “trabalhadores”, mas também pais, mães, artistas, pensadores, líderes, cuidadores, inventores — mesmo que não reconhecidos oficialmente como tal. O filósofo brasileiro Roberto Machado dizia que é preciso pensar a partir das margens para que o centro revele seu avesso. É olhando para a humanidade dos proletários que vemos o quanto a sociedade ainda falha em ser plenamente humana.

IV. O futuro da humanidade passa pelo proletariado

A humanidade dos proletários é, por vezes, a única humanidade realmente concreta: aquela que sangra, que se esforça, que constrói prédios, limpa ruas, prepara alimentos, cuida dos outros. No entanto, ela continua sendo sistematicamente esquecida, como se fosse uma engrenagem do mundo e não sua alma.

A tarefa filosófica e sociológica de nosso tempo talvez seja essa: resgatar o sentido pleno de humanidade para todos, começando por aqueles a quem mais se negou esse direito. Como diria Paulo Freire, outro pensador fundamental: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” E só haverá comunhão se todos forem reconhecidos em sua inteireza — inclusive, e sobretudo, os proletários.


quinta-feira, 10 de julho de 2025

Éthos e Hegemonia

Quando o jeito de ser vira lei

Já parou para pensar por que, em certos grupos, um jeito de falar, vestir, agir ou até mesmo pensar parece “natural”, enquanto outros modos são vistos como estranhos ou errados? Por que certas ideias, valores e estilos de vida dominam a cena social, como se fossem a única forma “correta” de existir?

É aqui que entram dois conceitos poderosos — éthos e hegemonia — que, juntos, explicam como o poder se infiltra no cotidiano, moldando não só nossas instituições, mas a própria alma das comunidades.

Éthos vem do grego e significa algo como “caráter” ou “modo de ser”. Não é apenas um traço individual, mas o espírito coletivo que orienta o comportamento e as crenças dentro de um grupo. É o pano de fundo que faz com que certas atitudes pareçam “normais” ou até “virtuosas” para quem está dentro daquele universo.

Já hegemonia é uma ideia central na obra do pensador italiano Antonio Gramsci. Para ele, a hegemonia não é apenas dominação por força, mas o domínio cultural e ideológico — quando uma classe ou grupo social consegue fazer com que sua visão de mundo seja aceita como universal e legítima. Essa hegemonia se espalha pelo éthos coletivo, naturalizando o poder e ocultando as relações de opressão que o sustentam.

Na prática, pense nas escolas, na mídia, nas redes sociais. Elas ajudam a construir o éthos dominante: a “forma correta” de ser cidadão, consumidor, trabalhador, jovem, mulher ou homem. O que Gramsci mostra é que o poder não depende só da repressão, mas da capacidade de convencer as pessoas a “querer o que é necessário” para manter a ordem vigente.

Essa dinâmica aparece claramente nas narrativas sobre meritocracia, por exemplo — a ideia de que quem trabalha duro sobe na vida e merece seu lugar. Quem não consegue, supostamente, falhou por incompetência própria. Essa crença está tão entranhada no éthos social que poucas vezes é questionada, mesmo que esconda desigualdades estruturais.

O éthos hegemonicamente construído também pode ditar padrões de beleza, comportamento e até mesmo linguagem, criando grupos de exclusão e marginalização. Quem foge desses padrões pode ser visto como “fora do lugar”, “anormal” ou “rebelde”. Mas, justamente aí reside a possibilidade da transformação social: contestar o éthos dominante é um passo para desestabilizar a hegemonia.

Hoje, um campo onde o éthos hegemônico aparece de forma cristalina é nas redes sociais. Plataformas como Instagram e TikTok estabelecem padrões estéticos, estilos de vida e formas de comunicação que rapidamente se tornam “normais” e desejáveis. Influenciadores e marcas moldam gostos e comportamentos, fazendo com que milhões sigam tendências sem perceber que estão reproduzindo um modo de ser imposto — um éthos digital que valoriza a performance, o consumo e a aprovação social.

Mas também surgem resistências: movimentos sociais, como o Black Lives Matter ou os coletivos LGBTQIA+, desafiam os éthos dominantes ao reivindicar novos modos de ser e existir que rompem com padrões tradicionais. Eles buscam criar uma contra-hegemonia, propondo um éthos mais plural, inclusivo e crítico das desigualdades.

No ambiente corporativo, o éthos hegemônico é visível nas culturas organizacionais que valorizam competitividade, produtividade e conformidade. A ideia do “funcionário ideal” muitas vezes se traduz num padrão de comportamento que exclui quem não se encaixa, seja por gênero, raça, estilo ou crenças. A contestação a esses padrões internos pode gerar conflitos, mas também impulsiona debates sobre diversidade e inclusão — justamente um esforço para alterar o éthos dominante e, com isso, a hegemonia cultural dentro das empresas.

Gramsci acreditava que os grupos subalternos precisavam criar sua própria “contra-hegemonia” — uma nova cultura e um novo éthos que questionem o status quo e ampliem o sentido de liberdade e justiça. Essa luta é constante, feita nas pequenas batalhas diárias de percepção, linguagem e comportamento.

Por isso, pensar em éthos e hegemonia é olhar para o poder não só como algo que impõe de fora, mas que vive e se reproduz dentro de cada um de nós. É um convite para refletir sobre quais modos de ser estamos adotando e por quê — e se eles realmente nos pertencem ou foram impostos.

No fim das contas, o éthos é o palco onde a hegemonia dança — e só compreendendo essa dança é que podemos escolher se queremos ser os dançarinos oficiais ou inventar uma nova coreografia.