Nesta
manhã enquanto caminhava no parque pensei: A gente aprende cedo a andar.
Primeiro alguém segura nossa mão, depois solta por segundos, cai, levanta, e um
dia simplesmente vai. O curioso é que, na vida adulta, o processo se inverte:
quanto mais crescem as possibilidades, mais buscamos mãos invisíveis para nos
guiar — manuais, opiniões, algoritmos, expectativas. Falar em capacidade de
fluir e em caminhar com as próprias pernas é falar desse momento
silencioso em que alguém percebe que continuar segurando tudo pode ser
justamente o que impede o movimento.
Fluir
não é escorrer, é sustentar o movimento
Fluir
costuma ser confundido com leveza constante, como se fosse viver sem atrito.
Mas fluir, filosoficamente, não é ausência de resistência; é capacidade de
atravessar resistências sem endurecer. Um rio não flui porque o terreno é
fácil, mas porque ele se adapta, contorna, insiste. O fluxo não elimina o
obstáculo, ele o incorpora.
No
cotidiano, isso aparece quando um plano falha e, em vez de paralisar, a pessoa
ajusta o passo. O ônibus atrasou, a reunião mudou de horário, a resposta
esperada não veio. Fluir, aqui, não é sorrir para o imprevisto, mas não
transformar o imprevisto em identidade. É seguir andando sem precisar de um
roteiro fechado para cada passo.
Caminhar
com as próprias pernas
Caminhar
com as próprias pernas não significa caminhar sozinho. Significa assumir a
autoria do próprio movimento, mesmo quando se aceita ajuda. Há uma
diferença sutil entre apoio e dependência. O apoio fortalece o caminhar; a
dependência substitui o gesto.
Pense
em decisões simples: escolher um caminho diferente para ir ao trabalho, dizer
“não” sem justificar demais, aceitar um convite sem calcular excessivamente o
que isso dirá sobre você. Caminhar com as próprias pernas é esse exercício
diário de confiar no próprio senso de direção — mesmo sabendo que ele é falho,
provisório e revisável.
Muitas
vezes, o medo não é de errar, mas de errar sem álibi. Quando seguimos
conselhos demais, terceirizamos o risco. Quando caminhamos por conta própria, o
erro também nos pertence — e isso assusta. Mas é justamente aí que o movimento
se torna real.
A
ética do fluxo
Há
uma ética implícita na capacidade de fluir. Ela exige atenção, não rigidez.
Exige escuta do corpo, do tempo, das circunstâncias. Quem flui percebe quando
insistir vira teimosia e quando recuar vira sabedoria. Não é passividade, é
sensibilidade ativa.
No
trabalho, por exemplo, fluir pode significar perceber que um método que
funcionava já não funciona mais — e largá-lo sem ressentimento. Nas relações,
pode ser aceitar que certas conversas precisam mudar de tom, ou até cessar.
Fluir é reconhecer que permanência não é sinônimo de fidelidade, e mudança não
é traição.
Autonomia
como processo, não como estado
Caminhar
com as próprias pernas não é um ponto de chegada, é um exercício contínuo. Há
dias em que a gente anda firme, outros em que tropeça, e outros em que precisa
sentar na calçada por um instante. Isso não invalida o caminhar. Pelo
contrário: faz parte dele.
A
maturidade talvez não esteja em nunca precisar de amparo, mas em saber quando
ele ajuda e quando atrasa. A verdadeira autonomia não se anuncia em discursos
grandiosos, mas em gestos pequenos: decidir sem pedir permissão interior, mudar
de ideia sem culpa, seguir mesmo sem aplauso.
Movimento
sem muletas
Fluir
e caminhar com as próprias pernas é aceitar que a vida não oferece chão
estável, apenas ritmo. Quem espera segurança absoluta não anda; quem
aceita o desequilíbrio aprende a avançar. O fluxo não promete conforto, mas
continuidade. E caminhar por conta própria não garante acerto, mas garante algo
mais raro: presença.
No
fim, talvez viver bem seja isso — não correr atrás de um caminho perfeito, mas
manter o corpo em movimento, atento, disponível, capaz de seguir mesmo quando o
mapa acaba.


