O Que Vemos e o Que Escolhemos Não Ver
Outro
dia, olhava um mapa turístico da cidade. As ruas eram corretas, os pontos
famosos estavam lá, mas algo me chamou atenção: não havia becos, terrenos
baldios ou lugares “sem interesse”. O mapa não mentia — apenas não dizia tudo.
E percebi que, no fundo, a vida funciona do mesmo jeito. Cada um de nós carrega
um mapa próprio, que não é a realidade em si, mas a versão filtrada que
conseguimos (ou queremos) suportar.
O
sociólogo brasileiro Muniz Sodré, ao tratar da mediação cultural, lembra
que qualquer representação do mundo é sempre filtrada. Isso vale para o jornal
que escolhe quais notícias publicar, para o fotógrafo que enquadra uma cena e
até para a memória, que apaga ou suaviza episódios difíceis. O mapa é a ordem
que damos ao caos; o filtro é a escolha — consciente ou não — de quais pedaços
do caos entram nesse desenho.
No
cotidiano, mapeamos e filtramos o tempo todo. Ao contar como foi o dia para
alguém, omitimos o que não parece relevante (ou conveniente). Ao lembrar de uma
viagem, destacamos momentos felizes e deixamos de lado o desconforto da fila no
aeroporto. Até na conversa interna que temos com nós mesmos, fazemos cortes:
certas dores ficam de fora do relato porque não sabemos ainda como lidar com
elas.
Mas
há um risco: quando confundimos o mapa com o território, passamos a acreditar
que a realidade é só aquilo que cabe na nossa versão filtrada. É como viver
olhando o mundo através de óculos com lentes coloridas e esquecer que o céu não
é daquela cor. Muniz Sodré diria que isso é perigoso porque empobrece a
experiência, reduzindo a vida ao que se encaixa no desenho já conhecido.
Por
outro lado, não há como viver sem filtros. Um mapa sem seleção seria ilegível;
uma vida sem escolhas de foco seria insuportável. A questão talvez não seja
eliminar filtros, mas revisá-los de tempos em tempos, para que não virem grades
invisíveis. Afinal, um mapa é útil não por mostrar tudo, mas por indicar
caminhos — e às vezes o melhor caminho é justamente aquele que antes não
aparecia.
Talvez
a filosofia dos mapas e filtros nos ensine que viver bem é alternar entre
seguir o traçado e se permitir caminhar fora dele. Porque há becos que não
estão no mapa, mas que levam a lugares onde a vida finalmente parece inteira.





