Como
quem puxa uma cadeira e começa a pensar em voz alta
Às
vezes, quando estou parado numa fila — banco, lotérica, cafeteria lotada numa
segunda-feira — fico com a nítida impressão de que a consciência é essa voz que
tenta atravessar o barulho do mundo para dizer: “ei, percebe isso aqui?”
Não é uma iluminação mística, nem uma espécie de “download da verdade”, mas um
tipo de vibração que surge quando alguma parte do cotidiano escapa do roteiro.
Pode
ser um detalhe simples: o trabalhador que sorri mesmo cansado demais; a criança
que faz uma pergunta inconvenientemente honesta; ou a sensação estranha de
estar “funcionando” no dia, mas não exatamente vivendo. É nesses
intervalos que a consciência fala — e, quando fala, nunca diz só sobre nós, mas
sobre a estrutura inteira na qual estamos mergulhados.
É
a partir desse ponto, quase banal, quase invisível, que começa qualquer
reflexão séria sobre consciência.
O
que é essa tal consciência?
Do
ponto de vista filosófico, consciência é a capacidade que o sujeito tem de se
perceber, pensar sobre si mesmo e reconhecer sua própria posição no mundo. Mas
do ponto de vista sociológico, essa definição é apenas o primeiro degrau. A
consciência não existe solta no ar; ela está sempre atravessada por forças
sociais: classe, cultura, linguagem, instituições, moral, tecnologia, economia.
É
como se cada pessoa carregasse duas consciências:
- A íntima,
aquela voz interna que diz “eu”;
- A moldada,
aquela que já chega ao mundo carregando valores, crenças e horizontes que
a sociedade coloca dentro dela antes mesmo que ela perceba.
Entre
essas duas, existe uma tensão constante.
A
consciência que pensa que escolhe
A
sociologia clássica, especialmente Durkheim, já alertava que muito do
que tomamos como decisão individual é, na verdade, a internalização de fatos
sociais. Nossa moral, nossos hábitos, o que achamos bonito ou feio, certo ou
errado — tudo isso é menos “eu decidi” e mais “eu aprendi a decidir assim”.
Marx,
por sua vez, aprofunda esse ponto ao afirmar que a consciência é uma construção
histórica, profundamente influenciada pelas condições materiais. Em outras
palavras:
não
é a consciência que determina a vida, mas a vida social que molda a
consciência.
É
por isso que duas pessoas podem enxergar o mesmo fato de modos completamente
diferentes: porque suas condições sociais estruturam até a forma como percebem
o mundo.
A
consciência desperta (ou o momento em que o cotidiano vira teoria)
Existe,
porém, aquele instante crítico — quase sempre silencioso — em que a consciência
percebe que era moldada. É o momento em que o sujeito entende que não é apenas
um “eu” espalhado no tempo, mas um “eu situado”, atravessado por forças que
operam de modo invisível.
Althusser
chama isso de interpelação: o modo como as estruturas sociais nos
chamam, nos nomeiam, nos posicionam. Quando percebemos isso, surge o que
podemos chamar de uma consciência crítica.
Não
é uma rebeldia explosiva, mas um deslocamento interno:
é
quando você percebe que trabalha, consome, sonha e sofre dentro de sistemas que
te antecedem — e que, sem perceber, você tem servido a lógicas que nunca
escolheu.
A
consciência como espelho e como ferida
Ter
consciência é um espelho: você se vê.
Ter
consciência crítica é uma ferida: você se vê e vê o que te atravessa.
Por
isso tantos preferem não pensar muito. A consciência pode incomodar porque exige
responsabilidade, exige posicionamento, exige lidar com o que até então ficava
debaixo do tapete.
Hannah
Arendt diria que pensar é perigoso não porque te torna
radical, mas porque impede a banalidade — impede que você aja sem refletir. A
consciência é, no fundo, uma convocação para deixar de ser automático.
Consciência
e vida coletiva
Na
sociologia contemporânea, a consciência aparece como um fenômeno relacional:
ela cresce, expande-se, amadurece quando entra em contato com outras
consciências. Não existe consciência verdadeira isolada. A reflexão nasce do
choque, da convivência, da fricção.
É
por isso que movimentos sociais, grupos culturais, sindicatos, coletivos e até
pequenas comunidades têm um papel tão forte na formação da consciência: eles
permitem que indivíduos percebam sua condição não como “falha pessoal”, mas
como fenômeno estrutural.
Quando
essa percepção se amplia, surge a consciência coletiva — aquela que Durkheim
apontava como o cimento moral de uma sociedade e que Marx enxergava como
potencial transformador quando orientada para a mudança estrutural.
Quando
a consciência fala, o mundo responde
Ter
consciência não resolve a vida, mas muda a maneira como se anda nela.
É como acender a luz de um cômodo onde você vivia tropeçando: os móveis são os
mesmos, mas agora você enxerga.
A
consciência não é uma resposta; é uma disposição permanente a perguntar.
Ela não é uma certeza; é a recusa de aceitar certezas prontas.
Ela não é um conforto; é um convite à liberdade — e liberdade, quase sempre,
dói.
O
que ela diz, no fundo, é simples:
“Olha
de novo. Nada é tão natural quanto parece.”
E
é nesse momento, justamente quando o cotidiano ganha estranhamento, que começa
o caminho filosófico-sociológico da consciência — esse esforço de se perceber,
perceber o outro, e perceber o mundo como algo que pode, sim, ser pensado,
questionado e transformado.