Há palavras que possuem força ao serem ditas, pronunciadas, carregadas de energia. Há coisas que envelhecem com o tempo. Outras apodrecem. Outras se transformam. Mas existem algumas — raras, silenciosas — que não se deixam corroer. Elas não brilham, não se anunciam, não disputam espaço. Apenas permanecem. Incorruptíveis. Eternas. Não no sentido do que dura para sempre no calendário, mas no sentido do que não perde o sentido.
O
incorruptível no cotidiano
Você
já percebeu como certos gestos não envelhecem?
Um
pedido sincero de perdão.
Uma
verdade dita sem cálculo.
Um
amor que não exige retorno.
Um
olhar que respeita.
Essas
coisas atravessam o tempo sem se deformar. Podem ser esquecidas na memória, mas
não se corrompem no valor. Elas continuam sendo o que sempre foram.
O
incorruptível não é o que resiste à matéria, mas o que resiste à conveniência.
A
eternidade que não depende do tempo
A
eternidade não é uma linha infinita no futuro. É uma qualidade de presença.
Algo é eterno quando não depende do instante para existir. Quando poderia ter
acontecido ontem, hoje ou há mil anos — e ainda assim faria sentido.
Platão
chamou isso de mundo das ideias. Santo Agostinho chamou de tempo
interior. Bergson chamou de duração. Todos tentaram dizer a mesma coisa:
há algo em nós que não passa, mesmo quando tudo passa.
O
que se corrompe não é o ser, é o uso
Nada
se perde por ser verdadeiro. Perde-se quando é usado como instrumento. A fé se
corrompe quando vira poder. A justiça, quando vira discurso. O amor, quando
vira posse. A verdade, quando vira estratégia.
O
incorruptível é aquilo que se recusa a servir à mentira.
A
eternidade do que é simples
Curiosamente,
o que mais se aproxima do eterno é o simples. A criança que confia. O velho que
perdoa. O silêncio que acolhe. O gesto que não pede registro.
Nietzsche
dizia que o eterno retorno não é a repetição do mesmo, mas a capacidade de
afirmar a vida mesmo quando ela se repete. O eterno, então, não é o que nunca
muda — é o que nunca deixa de valer.
Incorruptível
e eterno — dentro de nós
Talvez
não exista nada absolutamente incorruptível fora do humano. Mas existe algo
incorruptível no humano: a capacidade de reconhecer o que não pode ser
comprado, manipulado ou destruído sem que algo essencial morra junto.
Quando
você escolhe não trair a própria consciência, mesmo perdendo, algo eterno
acontece em você.
E
isso não precisa durar para sempre.
Basta
não se corromper enquanto existe.
Porque,
no fundo, o eterno não é aquilo que nunca termina.
É
aquilo que, enquanto existe, não se vende.



