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domingo, 19 de julho de 2026

O Símbolo Perdido

Resenha sobre o livro de Dan Brown

Publicado em 2009, O Símbolo Perdido, de Dan Brown, é um thriller que combina mistério, simbologia, história e ciência em uma narrativa acelerada e intrigante. A obra marca o retorno do professor de simbologia Robert Langdon, personagem já conhecido por leitores de O Código Da Vinci e Anjos e Demônios.

A história se passa em Washington, D.C., e gira em torno do desaparecimento de Peter Solomon, mentor e amigo de Langdon, uma figura influente na Maçonaria. Ao ser chamado para resolver um enigma aparentemente simples, Langdon se vê envolvido em uma conspiração complexa que envolve rituais maçônicos, códigos secretos e conhecimentos antigos. O antagonista, conhecido como Mal’akh, representa uma força obscura que busca acessar um poder oculto ligado à mente humana.

Um dos principais pontos fortes do livro é a habilidade de Dan Brown em mesclar fatos históricos com ficção. A Maçonaria, frequentemente envolta em mistério, é explorada de forma detalhada, trazendo elementos reais que aumentam a verossimilhança da narrativa. Além disso, o autor introduz conceitos científicos relacionados à noética — o estudo da consciência — ampliando o debate entre ciência e espiritualidade.

Outro aspecto relevante da obra é a presença densa e multifacetada de tradições filosóficas que atravessam a narrativa, não apenas como referências pontuais, mas como estrutura conceitual implícita. Ideias associadas a Platão emergem na noção de que a realidade visível é apenas uma sombra de verdades mais profundas, evocando a alegoria da caverna e a busca por um conhecimento superior oculto aos sentidos imediatos. Em paralelo, a influência de Aristóteles pode ser percebida na valorização da razão como instrumento de decifração do mundo, ainda que, no romance, essa razão precise dialogar com dimensões simbólicas e iniciáticas.

A presença de Francis Bacon introduz uma tensão particularmente interessante: ao mesmo tempo em que Bacon é associado ao nascimento do método científico moderno, sua figura histórica também se conecta, em tradições esotéricas, à ideia de conhecimento velado e transmitido por sociedades discretas. Essa ambiguidade ecoa diretamente no romance, que sugere que ciência e mistério não são opostos, mas camadas complementares de compreensão.

Essa convergência se aprofunda quando o livro tangencia questões que podem ser lidas à luz de Baruch Spinoza, especialmente na ideia de que mente e realidade não são entidades separadas, mas expressões de uma mesma substância. A noética, apresentada na narrativa, aproxima-se dessa visão ao propor que a consciência humana possui um papel ativo na constituição do real. Já sob uma perspectiva mais contemporânea, é possível estabelecer um diálogo com Gilles Deleuze, sobretudo na concepção de que o conhecimento não é linear ou fixo, mas um campo de forças, signos e interpretações em constante transformação — algo que o próprio percurso de Langdon ilustra ao decifrar símbolos que nunca possuem um único significado definitivo.

Dessa forma, O Símbolo Perdido ultrapassa a condição de simples thriller ao sugerir que o verdadeiro enigma não está apenas nos códigos externos, mas na própria capacidade humana de interpretar, criar e transformar sentido. O romance, ainda que estruturado como entretenimento, articula uma reflexão sobre o conhecimento como experiência simultaneamente racional, simbólica e intuitiva, onde ciência, filosofia e misticismo convergem em um mesmo horizonte de busca.

Entretanto, a obra também apresenta algumas críticas recorrentes ao estilo de Brown. A narrativa segue uma fórmula já conhecida: capítulos curtos, repletos de suspense e reviravoltas constantes, o que pode tornar a leitura previsível para alguns leitores. Além disso, certas explicações são repetitivas ou excessivamente didáticas, como se o autor temesse que o leitor não acompanhasse o raciocínio.

Apesar disso, O Símbolo Perdido se mantém como uma leitura envolvente e acessível, especialmente para aqueles que apreciam enigmas, sociedades secretas e teorias sobre o potencial humano. O livro provoca reflexões interessantes sobre o poder da mente, o papel dos símbolos na cultura e a relação entre conhecimento antigo e ciência moderna.

Em síntese, trata-se de uma obra que, embora não inove radicalmente na fórmula consagrada de Dan Brown, consegue entreter e instigar o leitor, mantendo o ritmo e a tensão até suas páginas finais.

sábado, 19 de abril de 2025

Ardil 22

A armadilha que pensa como a gente

Outro dia, tentando cancelar um serviço de internet, me vi preso num diálogo kafkiano com um robô que me dizia que eu só poderia cancelar pelo telefone — e o telefone me mandava de volta pro site. Depois de meia hora nisso, me caiu a ficha: isso é um Ardil 22. E mais — nós somos cheios de pequenos Ardis 22. Eles moram nas empresas, nos sistemas, nas relações e até dentro da cabeça da gente.

O famoso "Catch-22", inventado por Joseph Heller, é mais do que uma ironia militar: é um modo de existência. Na história, o piloto Yossarian quer sair da guerra alegando insanidade. Mas o fato de ele querer sair da guerra prova que ele é são. Logo, não pode sair. Está preso. Pronto. A lógica fecha sobre si mesma como uma ratoeira — elegante, cruel, racional.

Mas será que o Ardil 22 não é, no fundo, uma metáfora do labirinto lógico em que vivemos quando tudo parece exigir coerência, mas o mundo real é feito de paradoxos?

O paradoxo como forma de controle

Os Ardis 22 da vida não precisam usar farda. Eles aparecem em frases como:

– "Se você precisa pedir ajuda, então não está pronto para recebê-la."

– "Você só pode conseguir experiência tendo experiência."

– "Se você não tem segurança, não pode conseguir crédito. Mas sem crédito, como terá segurança?"

O Ardil 22 é uma estrutura mental e social que gera imobilidade. Ele usa a lógica para travar a ação. E talvez o mais angustiante seja perceber que muitas dessas armadilhas não vêm de fora, mas são construídas dentro da gente. São as autoexigências circulares: “Só vou descansar quando terminar tudo” — mas “nunca termina tudo”, então nunca descanso.

Segundo Zygmunt Bauman, vivemos em uma modernidade líquida, onde as certezas evaporaram e as estruturas sólidas viraram gelatina. Dentro desse mundo fluido, o Ardil 22 atua como uma espécie de pseudoestrutura: ele nos dá a sensação de lógica e ordem, mesmo quando está nos paralisando.

O Ardil interior: quando a mente vira carcereira

Vamos além: talvez o Ardil 22 seja também um modo de operar do ego. O ego quer proteger, mas também quer controlar. Ele diz: “Se você se mostrar vulnerável, será fraco.” Mas também: “Se você não se mostrar, nunca será compreendido.” Estamos presos entre ser vistos e ser julgados, entre agir e falhar, entre falar e ser mal interpretados.

E aí surge a pergunta: existe saída? Ou o Ardil é como um labirinto cujas paredes se movem cada vez que encontramos uma saída?

Sri Ram e o Ardil do espírito

O pensador N. Sri Ram, num de seus escritos mais belos, disse que "a liberdade não está em escapar das condições, mas em compreendê-las por dentro." Ou seja, talvez a saída do Ardil 22 não esteja na quebra do paradoxo, mas no reconhecimento da sua natureza. Ele é uma armadilha — sim — mas só porque acreditamos que ele precisa ser resolvido como um problema de matemática. E talvez ele seja, na verdade, um koan zen: um paradoxo para silenciar a mente lógica e abrir o coração.

Rir antes que nos enlouqueçamos

O Ardil 22 da vida é aquele momento em que, para ser feliz, você precisa parar de buscar a felicidade — mas parar de buscar já é, de novo, uma forma de busca. É aquele nó que só se desfaz quando você para de puxar. Quando percebe que a saída do labirinto talvez seja parar de correr por ela e simplesmente sentar no chão. Ou rir. Porque o Ardil 22 perde a força quando você ri dele. Quando você entende que ele pensa como você, mas você pode pensar diferente.

E aí, talvez, a verdadeira sanidade seja exatamente aceitar que às vezes não há saída lógica. E tudo bem. A vida é maior do que as suas contradições.

 

Fica aí a sugestão de leitura do romance:

“Ardil 22” por Joseph Heller (Autor), A. B. Pinheiro de Lemos (Tradutor), Mariana Menezes (Tradutor)Edição de Bolso da Best Seller