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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Inputs da Sociedade


“Inputs da sociedade” — gosto de pensar nisso como a respiração coletiva do mundo. Aquilo que entra em nós sem pedir permissão e aquilo que sai de nós sem que a gente perceba.

A sociedade é um grande sistema de inputs e outputs humanos.

Ela nos envia valores, opiniões, modas, medos, urgências.

E nós devolvemos atitudes, discursos, silêncios, escolhas.

Mas quase nunca percebemos o que está entrando.

Acordamos e, antes mesmo de pensar por conta própria, já recebemos inputs: notícias, notificações, conversas, expectativas sociais. Alguém diz que o sucesso é correr. Outro diz que felicidade é consumir. Outro diz que é preciso opinar sobre tudo. E assim, sem perceber, a mente vai sendo alimentada por ideias que nem sempre nasceram dentro de nós.

Depois, no decorrer do dia, começam os outputs.

O jeito que respondemos.

O tom com que falamos.

As opiniões que repetimos.

Até os julgamentos que fazemos sobre os outros.

E o curioso é que muitos desses “outputs” não são realmente nossos. São ecos sociais.

Percebo isso em situações simples:

Quando alguém fala mal de algo e, minutos depois, me pego concordando sem refletir.

Quando uma tendência vira opinião coletiva e parece estranho discordar.

Quando o silêncio de um grupo molda o que é aceitável pensar.

A sociedade nos programa sutilmente, não por imposição direta, mas por repetição constante. Como se fosse uma pedagogia invisível do cotidiano. Nesse sentido, a reflexão de Paulo Freire faz muito sentido: somos seres em constante formação, influenciados pelo mundo que nos cerca, mas também responsáveis por transformá-lo.

Ou seja, não somos apenas receptores passivos de inputs sociais. Somos também emissores que alimentam o próprio sistema.

Se eu espalho pressa, a sociedade recebe mais pressa.

Se eu espalho gentileza, ela recebe mais humanidade.

Se eu espalho cinismo, ela devolve desconfiança.

Há um ciclo silencioso aí.

O problema é quando o volume de inputs supera nossa capacidade de reflexão. Aí começamos a viver em modo automático: repetindo ideias prontas, reagindo em vez de compreender, opinando antes de pensar. É como se a mente virasse apenas um canal de retransmissão social.

E, sinceramente, isso me cansa.

Porque a sensação de autenticidade diminui. A pessoa fala, mas não sabe se a voz é dela ou do ambiente. Pensa, mas não sabe se a ideia nasceu da experiência ou da influência.

Talvez o verdadeiro exercício de consciência hoje seja filtrar os inputs antes de produzir outputs.

Perguntar:
“Isso que penso veio de mim ou do ruído social?”

“Essa reação é minha ou aprendida?”

Quando começo a observar isso, algo muda. O pensamento fica menos reativo e mais próprio. A fala deixa de ser eco e vira expressão. E, aos poucos, a gente deixa de ser apenas um produto da sociedade para se tornar também um agente dela.

No fundo, a sociedade não é uma entidade distante.

Ela acontece dentro da gente, o tempo todo.

Nos inputs que absorvemos.

E, principalmente, nos outputs que escolhemos devolver ao mundo.

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