“Inputs
da sociedade” — gosto de pensar nisso como a respiração coletiva do mundo.
Aquilo que entra em nós sem pedir permissão e aquilo que sai de nós sem que a
gente perceba.
A
sociedade é um grande sistema de inputs e outputs humanos.
Ela
nos envia valores, opiniões, modas, medos, urgências.
E
nós devolvemos atitudes, discursos, silêncios, escolhas.
Mas
quase nunca percebemos o que está entrando.
Acordamos
e, antes mesmo de pensar por conta própria, já recebemos inputs: notícias,
notificações, conversas, expectativas sociais. Alguém diz que o sucesso é
correr. Outro diz que felicidade é consumir. Outro diz que é preciso opinar
sobre tudo. E assim, sem perceber, a mente vai sendo alimentada por ideias que
nem sempre nasceram dentro de nós.
Depois,
no decorrer do dia, começam os outputs.
O
jeito que respondemos.
O
tom com que falamos.
As
opiniões que repetimos.
Até
os julgamentos que fazemos sobre os outros.
E
o curioso é que muitos desses “outputs” não são realmente nossos. São ecos
sociais.
Percebo
isso em situações simples:
Quando
alguém fala mal de algo e, minutos depois, me pego concordando sem refletir.
Quando
uma tendência vira opinião coletiva e parece estranho discordar.
Quando
o silêncio de um grupo molda o que é aceitável pensar.
A
sociedade nos programa sutilmente, não por imposição direta, mas por repetição
constante. Como se fosse uma pedagogia invisível do cotidiano. Nesse sentido, a
reflexão de Paulo Freire faz muito sentido: somos seres em constante
formação, influenciados pelo mundo que nos cerca, mas também responsáveis por
transformá-lo.
Ou
seja, não somos apenas receptores passivos de inputs sociais. Somos também
emissores que alimentam o próprio sistema.
Se
eu espalho pressa, a sociedade recebe mais pressa.
Se
eu espalho gentileza, ela recebe mais humanidade.
Se
eu espalho cinismo, ela devolve desconfiança.
Há
um ciclo silencioso aí.
O
problema é quando o volume de inputs supera nossa capacidade de reflexão. Aí
começamos a viver em modo automático: repetindo ideias prontas, reagindo em vez
de compreender, opinando antes de pensar. É como se a mente virasse apenas um
canal de retransmissão social.
E,
sinceramente, isso me cansa.
Porque
a sensação de autenticidade diminui. A pessoa fala, mas não sabe se a voz é
dela ou do ambiente. Pensa, mas não sabe se a ideia nasceu da experiência ou da
influência.
Talvez
o verdadeiro exercício de consciência hoje seja filtrar os inputs antes de
produzir outputs.
Perguntar:
“Isso que penso veio de mim ou do ruído social?”
“Essa
reação é minha ou aprendida?”
Quando
começo a observar isso, algo muda. O pensamento fica menos reativo e mais
próprio. A fala deixa de ser eco e vira expressão. E, aos poucos, a gente deixa
de ser apenas um produto da sociedade para se tornar também um agente dela.
No
fundo, a sociedade não é uma entidade distante.
Ela
acontece dentro da gente, o tempo todo.
Nos
inputs que absorvemos.
E,
principalmente, nos outputs que escolhemos devolver ao mundo.
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