O Humano Como Obra Inacabada
Sempre
me intrigou essa sensação de que a gente nunca “fica pronto”. Não importa a
idade, o diploma pendurado na parede ou a agenda cheia de compromissos: há
sempre algo em ajuste, uma dobra por fazer, uma rachadura recém-descoberta. O
humano parece mais um rascunho permanente do que uma escultura finalizada.
No
cotidiano isso aparece de formas simples. A gente promete mudar um hábito —
dormir melhor, ouvir mais, reagir menos — e descobre, algumas semanas depois,
que mudou só um pouco. Ou mudou de lugar o problema. No trabalho, achamos que
finalmente “aprendemos a jogar o jogo”, até o jogo mudar. Nas relações,
acreditamos ter entendido alguém, até que uma frase atravessada revela um
território inteiro ainda desconhecido.
Paulo
Freire dizia que o ser humano é um ser inacabado,
consciente do seu inacabamento. Essa consciência é decisiva. Uma cadeira não
sofre por ser cadeira; nós sofremos — e crescemos — porque percebemos que
poderíamos ser diferentes. O inacabamento não é defeito: é condição de
possibilidade. É o que permite aprender, errar, pedir desculpa, recomeçar.
Há
dias em que esse estado cansa. Dá vontade de fechar a obra, colocar a placa de
“pronto” e seguir em paz. Mas talvez a paz não esteja no acabamento, e sim no
canteiro. A vida acontece entre andaimes: improvisos, correções, desvios. Quem
exige de si mesmo uma versão definitiva costuma endurecer; quem aceita o
inacabamento ganha mobilidade.
Gosto
de pensar que somos como textos em revisão contínua. Algumas frases precisam
ser cortadas, outras reescritas; certas ideias só fazem sentido depois de um
tempo. E tudo bem. O perigo não é ser inacabado — é achar que já terminou.
Quando alguém se declara pronto, fecha as janelas por onde o mundo poderia
entrar.
No
fundo, viver é isso: trabalhar na própria obra sabendo que ela nunca será
final, mas pode ser cada vez mais honesta, mais justa, mais humana. E
talvez seja exatamente aí que mora a beleza.