Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador #morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #morte. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de março de 2025

Morte e Imortalidade

Olhando para um retrato antigo de um bisavô desconhecido, me veio a pergunta inevitável: quem foi ele, o que pensou, o que sentiu? Se, por um lado, sabemos que a morte é uma realidade inescapável, por outro, algo dessa existência resiste ao tempo. Mas o que exatamente sobrevive? E o que significa ser imortal?

A resposta desta reflexão fui buscar junto a nosso mentor Hegel na sua dialética infinita, em sua vastidão especulativa, ele nos oferece uma resposta peculiar. Para ele, a morte não é apenas um fim, mas um momento necessário na dialética do espírito. Nada simplesmente desaparece; ao contrário, tudo se transforma e se eleva em um nível superior de compreensão e desenvolvimento.

Na Fenomenologia do Espírito, Hegel descreve a morte como um processo de superação (Aufhebung): uma negação da individualidade finita que, paradoxalmente, permite sua permanência em uma realidade mais ampla. O indivíduo morre, mas sua essência — suas ideias, seus atos, sua influência — permanece integrada no curso do espírito absoluto.

Isso significa que a imortalidade, na perspectiva hegeliana, não é um prolongamento infinito da existência individual, mas uma incorporação dessa existência no todo maior da história e da cultura. Nossa finitude não nos condena ao esquecimento; pelo contrário, é precisamente a morte que nos insere em um horizonte mais amplo, onde nosso ser encontra continuidade na consciência coletiva.

Se olharmos para os grandes pensadores, artistas ou revolucionários, percebemos que suas existências singulares desapareceram, mas suas contribuições continuam vivas. Napoleão, por exemplo, não é apenas um nome nos livros de história; ele é um momento do próprio desenvolvimento histórico. O mesmo se aplica a qualquer um de nós: à medida que impactamos o mundo, tornamo-nos parte de uma totalidade que transcende a nossa presença física.

No cotidiano, essa ideia se reflete em pequenas imortalidades: um conselho que damos e que molda a vida de alguém, um gesto de bondade que ecoa através das gerações, uma lembrança que persiste na memória de outros. A morte, longe de ser um apagamento absoluto, é um movimento dentro da própria vida do espírito.

Se aceitarmos essa visão, talvez a angústia da morte se transforme. Em vez de temê-la como um aniquilamento, podemos vê-la como um processo de transmissão e continuidade. Somos partes de algo maior, e a nossa imortalidade não está na repetição infinita da existência, mas na nossa inscrição na história do mundo.

Assim, ao olhar para o retrato do bisavô, percebemos que ele não desapareceu por completo. Ele sobrevive, transformado, em nós. A sua presença se refaz no nosso olhar, nos traços que herdamos, nas histórias que ouvimos sobre ele. A morte, em seu paradoxo dialético, é também uma forma de permanência.


quarta-feira, 24 de julho de 2024

Morte Inconsciente

Já pensou em como seria a morte inconsciente? Talvez nunca tenhamos pensado muito sobre isso, afinal, a morte é um assunto que, por si só, já nos deixa desconfortáveis. Mas e se, ao invés de ser um evento consciente e doloroso, fosse algo que ocorre sem que percebêssemos, como adormecer sem sonhos e nunca mais acordar?

Imagine um dia comum: você está sentado em um café, tomando um expresso e folheando as páginas do jornal. A vida segue seu curso normal, cheia de compromissos, responsabilidades e pequenos prazeres. De repente, sem aviso, você simplesmente não acorda mais. A transição entre a vida e a morte é tão suave que nem se dá conta do que aconteceu. Uma morte inconsciente.

Essa ideia, de certa forma, traz um certo alívio. Não haveria dor, medo ou sofrimento. Seria como fechar os olhos e não mais abrir, sem a consciência do fim. Para muitos, essa perspectiva pode ser mais reconfortante do que encarar a morte como um evento doloroso e temido.

Reflexão Filosófica

Para aprofundar essa discussão, vamos trazer um pouco de filosofia à mesa. O filósofo romeno Emil Cioran, conhecido por suas reflexões sobre a existência e o absurdo da vida, oferece uma visão interessante sobre a morte. Cioran, em sua obra "Breviário de Decomposição", fala sobre a morte como uma libertação do fardo da existência. Ele argumenta que a morte, especialmente uma morte inconsciente, poderia ser vista como um alívio da consciência, uma forma de escapar do tormento constante de ser.

Cioran diz: "O sono é a única categoria estética em que a vida e a morte se reconciliam." Nesse sentido, a morte inconsciente seria uma extensão eterna do sono, um estado em que deixamos de lado todas as angústias e tormentos que a vida nos impõe. Para Cioran, a ausência de consciência na morte poderia ser a forma mais pura de paz.

Situações Cotidianas

Vamos imaginar algumas situações do dia a dia onde essa ideia de morte inconsciente poderia ser explorada:

Trânsito Caótico: Você está preso no trânsito, estressado e preocupado com a demora para chegar ao trabalho. No entanto, a ideia de que a morte pode vir de forma inconsciente faz com que esses pequenos estresses pareçam triviais. Afinal, a qualquer momento, sem aviso, tudo pode terminar de maneira tranquila e sem dor.

Exames Médicos: Enfrentar exames médicos muitas vezes nos deixa ansiosos, com medo de receber más notícias. Mas a possibilidade de uma morte inconsciente coloca tudo em perspectiva. Talvez não devêssemos temer tanto esses momentos, pois a própria consciência do medo poderia ser algo do qual seríamos poupados.

Despedidas e Encontros: A morte inconsciente nos faz pensar nas despedidas que nunca acontecem. Imagine partir sem dizer adeus, simplesmente não acordar mais. Isso torna cada encontro e cada momento com as pessoas que amamos ainda mais valiosos, pois nunca sabemos quando será a última vez.

A ideia de morte inconsciente pode parecer assustadora à primeira vista, mas também carrega uma certa serenidade. É um lembrete de que a vida é frágil e que talvez o maior presente seja viver plenamente, aproveitando cada momento como se fosse o último. E se, como Emil Cioran sugere, a morte é um sono eterno, então que nossos dias acordados sejam cheios de vida, risos e amor.

Em última análise, a morte inconsciente nos desafia a repensar nosso medo do fim e a valorizar ainda mais os momentos que temos. É uma reflexão sobre a importância de viver sem arrependimentos, aproveitando cada segundo, pois a transição final pode ser tão simples quanto fechar os olhos e não mais abrir. 

terça-feira, 16 de abril de 2024

Morte Anunciada

Se é para morrer, que seja de amor", já dizia Vinicius de Moraes. A morte, tão certa quanto o nascer do sol, é um daqueles temas que todos preferem evitar, mas que não deixam de pairar sobre nossas cabeças, como uma nuvem escura em um dia ensolarado. É como se fosse uma presença constante, nos lembrando da finitude da vida e da nossa própria fragilidade.

No entanto, essa "morte anunciada" não se resume apenas ao fim da vida física. Ela pode se manifestar de diversas formas ao longo da nossa jornada. Às vezes, é a morte de um relacionamento que estava fadado ao fracasso desde o início, mas que insistimos em manter vivo, mesmo sabendo que já não havia mais vida ali. Ou talvez seja a morte de um sonho, aquele que alimentamos com tanto carinho, mas que, por mais que lutemos, nunca parece ganhar vida.

Lembro-me de uma conversa com um amigo certa vez, enquanto tomávamos um café em uma tarde chuvosa. Ele citou as palavras de Albert Camus: "O único problema filosófico realmente sério é o suicídio". Para ele, essa frase ia além do ato físico de tirar a própria vida. Era sobre a aceitação da morte em todas as suas formas. Era sobre como lidamos com o fim, seja ele qual for.

E como não lembrar de Gabriel García Márquez e seu emblemático livro "Crônica de uma Morte Anunciada"? Na trama, a morte do personagem Santiago Nasar é anunciada desde o início, mas ainda assim ninguém consegue evitar o trágico desfecho. É como se estivéssemos todos destinados a seguir um roteiro pré-determinado, mesmo que tentemos lutar contra ele com todas as nossas forças.

No entanto, apesar da inevitabilidade da morte, ainda nos resta o poder de escolha. Podemos escolher como enfrentar os momentos de despedida, como lidar com as perdas e como seguir em frente após a partida de algo ou alguém que amamos. Podemos escolher viver cada dia com intensidade, sabendo que um dia será o último, e assim aproveitar ao máximo cada momento que nos é dado.

Então, que possamos encarar essa "morte anunciada" não como um fardo, mas como um lembrete precioso da efemeridade da vida. Que possamos valorizar cada instante, cada sorriso, cada abraço, como se fossem os últimos. E que, no final, possamos partir deste mundo com a certeza de que vivemos uma vida plena, repleta de amor, alegria e significado. 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Resenha do Livro “A Morte de Ivan Ilitch” de Liév Tolstói

O autor do Livro “A Morte de Ivan Ilitch” é o renomado escritor russo Liév Tolstói ou mais conhecido em português por Leon Tolstói (1828-1910), profundo pensador social e moral é considerado um dos mais importantes autores da narrativa realista. Realista porque consegue mostrar toda a fragilidade do ser humano, muitas vezes ele choca pela forma como expressa a brutal realidade, suas obras nos fazem analisar a importância de nossos valores e nos conscientiza que eventualmente estejamos vivendo e passando pelos mesmos dramas, por esta razão a leitura de suas obras se tornam importantes e mais interessantes, além de ser muito atual, elas quando tratam do tema da morte o tratam como um elemento catártico.

Nasceu em 1828, em uma família aristocrática, Tolstói é conhecido pelos romances Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877), muitas vezes citados como verdadeiros pináculos da ficção realista. Ele alcançou aclamação literária ainda jovem, primeiramente com sua trilogia semi-autobiográfica, Infância, Adolescência e Juventude (1852-1856) e por suas Crônicas de Sebastopol (1855), obra que teve como base suas experiências na Guerra da Crimeia. A ficção de Tolstói inclui dezenas de histórias curtas e várias novelas como A Morte de Ivan Ilitch (1886), Felicidade Conjugal (1859) e Hadji Murad (1912). Ele também escreveu algumas peças e diversos ensaios filosóficos.


Depois de ler O Mundo como Vontade e Representação do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, Tolstói converteu-se gradualmente à moral ascética. Para ele, esse seria o caminho espiritual ideal a ser traçado pela alta-classe.

Nas palavras de Tolstói: “Estou convencido de que Schopenhauer é o mais genial dos homens. (…) Ao lê-lo não posso compreender como o seu nome pôde permanecer desconhecido. A única explicação possível é a que ele mesmo repete tantas vezes, de que há quase só idiotas no mundo.”

No capítulo VI de A Confissão, Tolstói citou o último parágrafo do trabalho de Schopenhauer. Nele, Schopenhauer explica como o nada que resulta da completa "negação de si mesmo" é apenas um nada relativo, e, portanto, não deve ser temido. O romancista ficou impressionado com a descrição da renúncia ascética cristã, budista e hindu como o caminho da santidade. Depois de ler essas passagens, que são abundantes nos capítulos éticos de Schopenhauer, o nobre russo escolheu a pobreza e a negação formal da vontade:

“Já encontramos um caminho para o ascetismo, ou negação do querer propriamente dito, entendendo eu por tal expressão precisamente aquilo que o Evangelho chama renunciar a si mesmo e levar a própria cruz (Mateus XVI). Tal caminho se acentuou sempre mais e deu origem aos penitentes, aos anacoretas e ao estado monacal, que, puro e santo primeiro, e, portanto, fora de proporção com a natureza da maior parte dos homens, não podia conduzir senão à hipocrisia e à abominação, porque abusus optimi, pessimus (torna-se péssimo o abuso do ótimo). Desenvolvendo-se o cristianismo, vemos este embrião ascético germinar e atingir o florescimento nos escritos dos santos e dos místicos cristãos. Estes, além do mais puro amor, pregam a resignação absoluta, a pobreza voluntária, a verdadeira calma, a completa indiferença pelas coisas da terra, o dever de morrer para a vontade e de renascer em Deus, o olvido total da própria pessoa para a absorção na contemplação do Senhor.”

"Assim, Sidarta Gautama nasceu um príncipe, mas voluntariamente passou a viver como mendigo; e Francisco de Assis, o fundador das ordens mendicantes que, foi criado numa redoma, e poderia escolher dentre qualquer filha de qualquer nobre. No entanto, quando lhe fora perguntado 'Agora, Francisco, você não vai fazer sua escolha agora dessas beldades?' ele: 'Eu fiz uma escolha muito mais bonita!' 'Qual?' 'La povertà (a pobreza)': depois disso ele abandonou tudo e perambulou pela terra como um mendicante."

Eis algumas obras de Tolstói:

  • Infância (1852)
  • Adolescência (1854)
  • Juventude (1856)
  • Felicidade Conjugal (1859)
  • Os cossacos (1863)
  • Guerra e Paz (1869)
  • Anna Karenina (1877)
  • A Morte de Ivan Ilitch (1886)
  • A Sonata a Kreutzer (1889)
  • O Diabo (1889)
  • Ressurreição (1899)
  • Falso Cupom (1904)
  • Hadji Murat (1904)


Então, vamos falar da obra objeto desta resenha o livro A Morte de Ivan Ilitch, esta obra mergulha na turbulência de nosso interior, lá existe uma forte luta de forças internas onde habita a angustia de se viver entre a vida e a morte sentida muito próxima, o livro é um retrato muito realista dessa angustia de se viver e morrer, pressentindo o desenlace muito próximo ele faz analises e passa a examinar a vida que levou, o drama é intensificado pelo combate a uma doença terminal subjugando-o e extraindo suas forças e a própria vontade de viver.

É um livro curto, trata-se de uma pequena novela de 80 páginas, a história acompanha a trajetória de vida e que levou à morte de Ivan Ilitch. Ivan é um burocrata, um juiz que viveu uma vida bem dentro de um padrão esperado na sua época, seu lema era ter uma vida “leve, agradável, alegre e sempre decente e aprovada pela sociedade”: formou-se em direito, progrediu em cargos nos empregos que ocupou, casou-se não por amor, mas por achar que era o que a sociedade aprovaria e era isto o melhor a fazer, teve filhos e comprou uma casa. Enquanto decorava sua nova sala de estar, Ivan leva um escorregão e bate com as costas em uma quina, não levando a sério as consequências que o acidente lhe poderia ter causado. Achando que fora somente um acidente leve, continua com suas rotinas diárias normalmente, o acidente nos sugere que seja este o causador da doença inexplicável.

Diante da morte iminente, Ivan é confrontado e tem que encarar sua própria fragilidade, assim como ele, que achava que a morte era algo distante e intocável, agora a vê batendo a sua porta, a maioria das pessoas também pensam como ele. Um dos seus conflitos era ver seus familiares seguindo a vida de certa forma normal, aparentemente vividos e sem preocupar-se ou sensibilizar-se com seu drama, ele esperava que seus familiares fossem mais atenciosos com ele, ele encontra apoio apenas em Guerrássim, o humilde copeiro, que passa horas conversando com o enfermo e tratando-o como ele realmente é: uma pessoa, que cuida dele como a um doente terminal, um moribundo, que o trata como igual, sem escalas sociais, que limpa as suas fezes sem reclamar ou fazer ares de nojo, ele é o como um representante dos humildes trabalhadores, que na sua simplicidade são mais sábios e humanos. As vezes encontramos nos estranhos o apoio que mais precisamos nos momentos mais frágeis de nossas vidas!

As reflexões de Ilitch são reflexões que atingem a todos os seres humanos, ela é de cunho global, porque são dúvidas e sofrimentos naturais a qualquer um que esteja vivo, encaráramos nossa própria fragilidade quando estamos perto de nossa morte ou da morte de alguém próximo a nós, o enfrentamento é tão terrível que inventamos desculpas para fugir deste tipo de reflexões, pois estamos sempre muito ocupados com as coisas dos vivos: estudos, emprego, compra da casa, viagens, família e até a reforma na sala de estar.

“Eu não existirei, então o que existirá? Não existirá nada. Então onde estarei, quando eu não existir? Será a morte? Não, não quero.” Pg. 47

A morte dele chega justamente quando está no cume de sua ascensão, isto é, está bem empregado, com bom salário, as boas funções, a estima social e jurisdição adequadas para a sua posição na sociedade, tudo acontece muito rápido, a doença lhe vai consumindo toda sua vitalidade, só ele tem consciência da gravidade da doença, as pessoas a sua volta o tratam apenas como um doente fazendo tratamento, e isso o irrita e deprime profundamente, a família próxima fisicamente, mas distante afetivamente, sem falar nos diagnósticos dos médicos e sua forma de tratar como apenas mais um caso, um corpo nada mais do que isso, numa frieza, sem dialogo, apenas diagnósticos insatisfatórios.

O livro nos permite ter contato com a luta derradeira e seus movimentos dentro da consciência, é um diálogo com ele mesmo, ele deixa claro sua concepção de morte e ao mesmo tempo nos faz pensar a respeito de valores e convenções sociais, convenções sociais que atribuímos valores irreais e a partir disto escolhemos a nossa maneira equivocada de viver, nos faz um alerta para não deixarmos este tipo de revisão de vida somente para o final da caminhada quando já é tarde demais para fazer mudanças, antes de tudo nos faz pensar a respeito do que seja realmente importante buscar nesta vida, é um livro impressionante.