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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Enfim, Dezembro


Dezembro sempre chega como quem abre a porta devagar, deixando entrar um vento que não é só de verão — é um vento de balanço. Um mês que parece ter memória própria, que nos chama para aquele tipo de reflexão que só aparece quando o ano começa a se despedir.

É curioso como, nas festas de final de ano, todo mundo tenta colocar a vida em ordem: arrumamos a casa, repensamos escolhas, revisitamos arrependimentos como quem folheia um álbum antigo. É quase um ritual filosófico, ainda que ninguém admita. A gente percebe que o tempo não corre — ele nos atravessa. E dezembro é o lembrete final, quase pedagógico, de que tudo muda, até aquilo que jurávamos eterno.

Nessas semanas, as luzes piscam nas ruas como se quisessem imitar o que sentimos por dentro: um misto de esperança, saudade e esse desejo meio secreto de recomeçar direito. Talvez seja isso que faz dezembro tão único: ele nos coloca diante do que fomos, mas também nos empurra para o que ainda podemos ser.

E, no fundo, há uma sabedoria simples escondida nesse mês: a de que celebrar não é esquecer a dureza do caminho, mas reconhecer que seguimos caminhando. Que apesar dos tropeços, chegamos até aqui. E que, por um instante, é permitido respirar, abraçar, agradecer — e sonhar de novo.

Dezembro não é só o fim. É o intervalo em que o espírito encontra um lugar para se ajeitar antes de começar outra jornada. E isso, por si só, já é filosofia suficiente para encerrar o ano com o coração um pouco mais inteiro.

 

sábado, 18 de outubro de 2025

Máscaras da Depressão

Outro dia, numa conversa despretensiosa, alguém comentou: “Fulano sempre está sorrindo, nem parece que tem depressão.” A frase ficou ecoando na minha cabeça. Desde quando a tristeza precisa ser óbvia? Desde quando a dor psíquica precisa se apresentar de maneira transparente? Se há algo que a sociedade moderna ensinou bem é o talento para disfarçar. E poucos sentimentos se camuflam tão bem quanto a depressão.

A depressão não anda por aí com um cartaz dizendo: “Ei, estou aqui.” Pelo contrário, ela se esconde, se mascara, se dilui nas exigências do cotidiano. Às vezes, veste o rosto da produtividade extrema — a pessoa que faz tudo, que nunca para, que está sempre disponível. Outras vezes, assume a forma da ironia — aquele humor ácido que disfarça um cansaço existencial profundo. Pode ainda aparecer como sociabilidade forçada — o riso alto na festa, as redes sociais cheias de registros de felicidade encenada.

Nietzsche dizia que “todo profundo espírito precisa de uma máscara.” Talvez a depressão tenha compreendido essa lição melhor do que ninguém. A necessidade de esconder a dor não é apenas individual, mas social. Vivemos em tempos onde a felicidade virou um dever, um produto de marketing. Se a infelicidade aparece, ela precisa ser logo justificada ou eliminada. Então, quem sente a tristeza persistente aprende a vesti-la com outra face, para que ninguém perceba.

Mas há um custo nisso tudo. A máscara, que em um primeiro momento parece proteger, pode se tornar uma prisão. Quem passa a vida disfarçando a dor, corre o risco de esquecer que é possível falar sobre ela, tratá-la, encará-la de frente. Em algum momento, as máscaras precisam cair — nem que seja em um ambiente seguro, diante de alguém que realmente escuta. Afinal, como disse Simone Weil, “a verdade é a necessidade mais profunda da alma humana.”

E talvez essa seja a grande ironia: para encontrar alívio, é preciso primeiro deixar de fingir.


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Seres de Sobrecarga


Tem dias que a gente acorda já cansado. Antes mesmo do café, o peso do mundo já nos visita: mensagens não respondidas, metas inalcançadas, promessas esquecidas. Parece que vivemos como se tudo fosse urgente, tudo fosse essencial, tudo fosse pessoal. A isso, Nietzsche poderia chamar de "sobrecarga do espírito". Mas será que esse excesso é apenas um mal moderno? Ou já havia, no âmago da existência humana, uma tendência a se deixar esmagar pelo que carrega?

Nietzsche, em A Gaia Ciência e Assim Falava Zaratustra, nos convida a olhar para o que nos oprime não como vítimas, mas como criadores. O homem moderno — diz ele — se tornou um ser de sobrecarga porque perdeu a arte de esquecer. Acumula lembranças, dores, moralismos, expectativas, tudo em nome de uma pretensa evolução. Mas Nietzsche não acredita nesse acúmulo como virtude. Para ele, o excesso pesa, imobiliza, transforma o ser humano em um animal ressentido, incapaz de dançar.

O ser de sobrecarga é aquele que vive carregando tudo: o passado que não digeriu, os valores que não questiona, os desejos que não são seus. É um Atlas neurótico, dobrado não sob o peso do mundo, mas sob o peso de seus próprios “deveres”. O inovador aqui é pensar que a sobrecarga não é só uma questão de excesso externo, mas uma falha de digestão interna. Nietzsche nos sugere que a vida é uma arte do estômago: só vive bem quem sabe digerir.

Então, qual a saída? Nietzsche propõe o contrário do acúmulo: o esquecimento ativo, o desprendimento criador, a leveza do espírito que sabe dizer “sim” ao instante. O ideal nietzschiano não é um ser carregado de valores, mas um artista de si mesmo, alguém que escolhe o que vale a pena carregar e, principalmente, o que deve ser jogado fora. O Übermensch, ou além-do-homem, é aquele que transforma a sobrecarga em potência criadora, que usa a pressão para fazer jorrar sentido, não para se afundar em lamentos.

Hoje, quando sentimos a alma esgotada, talvez não estejamos trabalhando demais, mas vivendo de menos. Talvez estejamos apenas acumulando, como aqueles colecionadores de tralhas emocionais que Nietzsche tanto criticava. O convite nietzschiano é claro: esvazie-se. Esqueça. Escolha o que merece ser lembrado. E então, leve apenas o necessário — como quem dança, não como quem arrasta.

Afinal, como dizia o próprio Nietzsche: “Você precisa ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.” Mas cuidado: caos demais vira peso. Estrela que não dança, explode.

sábado, 6 de setembro de 2025

Inquietar o Espírito

Inquietar o espírito não é cultivar tormentos desnecessários, nem viver numa busca compulsiva por crises. É, antes, recusar-se a aceitar que a vida se resume a repetir o que já sabemos, a seguir passos que não escolhemos e a permanecer confortáveis em certezas que talvez sejam apenas heranças mal examinadas.

Paulo Freire dizia que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão”. Mas essa comunhão só é verdadeira quando há diálogo real — e o diálogo começa na pergunta que desmonta a naturalidade das coisas. Para Freire, a educação libertadora nasce quando a realidade deixa de ser vista como “dada” e passa a ser percebida como “construída”. Isso significa que inquietar o espírito é um ato pedagógico: ele rompe o transe do hábito e abre caminho para uma nova forma de ver.

Kierkegaard, o filósofo dinamarquês que tanto falou sobre a subjetividade e a autenticidade, via na inquietação um ponto de virada. Para ele, a angústia não é sinal de fracasso, mas de possibilidade — o desconforto que sentimos quando percebemos que somos responsáveis por nossas escolhas. A inquietação é, nesse sentido, um tipo de vertigem existencial: ao mesmo tempo em que nos desequilibra, nos revela o chão que realmente é nosso.

Mas como, na prática, inquietar o espírito sem cair no caos estéril? Há algumas estratégias simples que funcionam como “micro-revoluções” pessoais:

  • Trocar de perspectiva: ler um autor que contradiga profundamente nossas convicções e buscar entender onde ele pode ter razão.
  • Perguntar em profundidade: diante de uma crença, aplicar a regra dos “cinco porquês” para descobrir a raiz.
  • Sair da bolha cotidiana: mudar de rota, de ambiente ou de hábito, para forçar novos olhares.
  • Praticar o diálogo vulnerável: conversar sem a intenção de convencer, mas para realmente ouvir e ser ouvido.

Essas pequenas rupturas desestabilizam o conforto mental e emocional que, com o tempo, pode se tornar estagnação.

Inquietar o espírito, no entanto, não significa destruir por destruir. É preciso ética nesse movimento. Não se trata de provocar inseguranças apenas para exibir superioridade intelectual ou “ganhar discussões”. A inquietação fecunda é aquela que gera transformação — tanto no outro quanto em nós mesmos — e que está disposta a sustentar o cuidado após a ruptura.

Freire nos lembraria que a inquietação não é individualista: ela se alimenta da troca, da escuta e do respeito à experiência alheia. Kierkegaard completaria dizendo que a inquietação é um passo rumo à autenticidade: não basta romper com as ilusões externas, é preciso também encarar as ilusões internas.

Se o espírito não se inquieta, ele adormece — e quando acorda, pode ser tarde demais para recuperar o tempo perdido. Por isso, inquietar é, paradoxalmente, uma forma de preservar a vida: manter os sentidos despertos, as perguntas afiadas e a coragem de mudar de caminho, mesmo quando todos esperam que continuemos na mesma estrada.

No fundo, inquietar o espírito é um ato de esperança. É acreditar que sempre há mais para ver, para entender e para ser. É recusar a versão reduzida de nós mesmos que o costume insiste em apresentar. E, como diria Kierkegaard, “a angústia é a possibilidade da liberdade”. Não se acomode, pois o tempo flui a cada respiração.


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Véu de Maia


 Quando o mundo engana com delicadeza

Outro dia, enquanto sorvia um mate no final da tarde, reparei num pôr do sol absurdo de bonito. Céu alaranjado, nuvens cor-de-rosa e um leve vento que parecia dançar com as folhas da árvore ao lado. Por um instante, tudo parou. E logo depois, tudo voltou: buzinas, pressa, notificações. Foi quando me veio a pergunta — e se isso tudo fosse só um cenário? E se a beleza, a pressa, o tédio e até a matéria fossem... encenações?

A filosofia oriental, especialmente no hinduísmo, tem um conceito encantador para isso: Maia. Uma palavra pequena para uma ideia enorme — a ilusão do mundo sensível. Segundo essa visão, tudo o que percebemos com os sentidos é uma espécie de teatro cósmico. Não que seja “falso”, mas que é incompleto. O mundo como o vemos seria um véu — bonito, detalhado, realista — que esconde algo mais verdadeiro por trás.

O cotidiano por trás da cortina

A gente vive nesse véu o tempo todo. Na conversa com o colega que sorri, mas por dentro chora. No “tá tudo bem” que serve de capa para o caos emocional. No desejo que nos arrasta para comprar um celular novo, como se isso fosse salvar o dia. A realidade parece sólida, mas talvez seja só espuma.

O curioso é que até a ciência moderna nos ajuda a duvidar da solidez das coisas. Os átomos que compõem tudo são, em sua maior parte, espaço vazio. A matéria é vibração, campo, possibilidade. A física quântica, mesmo sem intenção mística, nos diz que o que chamamos de real é muito mais estranho do que pensamos.

E no fundo, quem nunca viveu aquela sensação de acordar de um sonho que parecia mais real do que a segunda-feira?

O ego também é Maia disfarçada

Na psicologia, principalmente na psicanálise e na psicologia transpessoal, há uma ideia parecida: o eu que achamos que somos não é quem realmente somos. Criamos uma persona — o profissional, o engraçado, o tímido, o forte — e acreditamos nela como se fosse identidade. Mas por trás da máscara, há um outro ser: mais silencioso, mais profundo, talvez até mais sábio. Só que ele não grita, não posta stories, não bate ponto.

Viver sob o véu de Maia, então, é mais do que uma metáfora espiritual: é a nossa rotina. É reagir a imagens, a sombras, a expectativas. É sofrer por algo que nem aconteceu, ou desejar algo que, depois de conquistado, vira paisagem.

Rasgando o véu, mesmo que só um pouco

Mas às vezes, sem querer, o véu rasga. Um luto, uma queda, um amor profundo. Algo nos tira do automático. Como se um raio atravessasse a encenação. E por alguns segundos, vemos — mesmo sem entender — que existe algo maior, mais calmo, mais verdadeiro por trás do corre.

Os mestres espirituais dizem que essa verdade se chama Consciência. Aquilo que observa tudo sem se confundir com nada. Não é a mente, nem o corpo, nem as emoções — é o que permanece quando tudo isso muda.

Como se vive sabendo disso?

Não há uma receita. Mas talvez seja esse o convite: olhar o mundo com delicadeza, mas sem apego. Apreciar o teatro, sabendo que é teatro. Brincar de viver, sabendo que há um mistério nos bastidores. Não precisa sair da vida comum. Só lembrar, de vez em quando, que talvez a realidade seja como aquele pôr do sol: linda, mas passageira. E que, por trás de tudo isso, há um silêncio que nunca muda. Talvez ali more o real.

“A realidade, tal como a percebemos, é apenas uma ilusão — embora uma ilusão bastante persistente.”

Albert Einstein

domingo, 20 de abril de 2025

Koan Zen

Outro dia, fui fechar a janela do quarto e notei que o vento tinha espalhado umas folhas pelo chão. Nada demais. Só que, enquanto recolhia as folhas, uma pergunta estalou na mente como se tivesse vindo com o vento: “Qual era o meu rosto antes de eu nascer?”. Simplesmente assim, sem cerimônia. Parei com a folha na mão, como quem segura um enigma. E aí me lembrei: isso é um koan.

Os koans são aquelas perguntas malucas (mas estranhamente lúcidas) do Zen budismo, feitas para arrebentar as amarras da lógica comum. Tipo: “Qual o som de uma palma só?” ou “Se você encontrar o Buda pelo caminho, mate-o.” Não é poesia, nem enigma para decifrar com inteligência. É mais como uma pedrinha lançada no lago da mente — o objetivo não é responder, mas desinstalar o programa racional.

O enigma que não quer resposta

Koans não têm respostas claras. E é exatamente isso que os torna tão potentes. Eles não querem ser compreendidos, querem ser vividos. Como uma crise existencial às três da manhã. Como um pôr do sol que te faz chorar sem saber por quê.

Diferente dos dilemas da filosofia ocidental, que muitas vezes tentam organizar o pensamento e encontrar uma saída lógica, os koans são implosões. Eles colocam a gente diante de um limite — o ponto em que o raciocínio tropeça. E nesse tropeço, abre-se o chão. Quem cai, acorda. Pelo menos é o que dizem os mestres Zen.

Koan no cotidiano: a contradição que revela

Imagine que você está esperando um ônibus que está sempre atrasado. Vem aquela raiva. Você pensa: “Por que sempre comigo?” — e já começa a se armar contra o mundo. Mas, de repente, alguém do lado diz: “O ônibus chega quando você parar de esperar.” Parece piada, mas é quase um koan. É uma afirmação que não quer te consolar, mas quebrar o eixo da sua espera ansiosa. E se o ônibus, ou qualquer outra coisa, só chega quando a gente se esvazia da expectativa?

Um amigo me contou que, quando estava se recuperando de uma separação, uma senhora japonesa da vizinhança disse apenas: “O bambu entorta, mas não quebra.” Ele riu, achou bonito, mas só meses depois entendeu. Não com a mente, mas com o corpo, com o tempo, com o sentir.

Filosofia do absurdo lúcido

Dá pra pensar os koans como aquilo que o filósofo francês Albert Camus chamaria de “o absurdo”. Mas ao invés de se angustiar com o silêncio do universo, o Zen sorri para ele. O koan é esse sorriso, desconcertante e silencioso.

O brasileiro Huberto Rohden, em sua ponte entre mística oriental e filosofia ocidental, falava da necessidade de uma “inteligência intuitiva”, capaz de perceber além dos conceitos. Os koans vivem exatamente aí — onde a mente se rende, e o coração começa a ouvir.

Quando o koan vira espelho

A mágica (ou o terror) de um koan é que ele sempre devolve a pergunta pra você. “Quem está ouvindo este som?” “Quem você é quando não está sendo ninguém?” — São perguntas que não apontam para fora, mas fazem o espelho se transformar em abismo.

E talvez o mais inovador seja isso: o koan é uma anti-filosofia que filosofa por choque, por quebra, por vazio. É como se dissesse: “Enquanto você tentar entender, não vai perceber.” É um chamado para estar, não para saber.

Conclusão? Nem pensar.

No espírito dos koans, talvez o melhor seja terminar este ensaio com um vazio. Ou com outra pergunta:

Se você fechar os olhos agora, onde você está?

Talvez a resposta venha com o vento. Ou com a folha que escapou pela janela.


sábado, 22 de março de 2025

Identidade e Alteridade

Outro dia, sentado num café, observei uma cena curiosa. Dois amigos discutiam sobre um filme: um via nele uma obra-prima, o outro, um desastre. Nenhum dos dois era capaz de aceitar completamente o ponto de vista do outro. Fiquei pensando em como nossa identidade se constrói não apenas pelo que afirmamos ser, mas também pelo que negamos. Esse embate entre identidade e diferença é uma tensão fundamental da existência humana e um dos pilares da filosofia de Hegel.

Hegel compreende a identidade não como algo fixo, mas como um processo. Em sua "Ciência da Lógica", ele nos mostra que a identidade pura, isolada de tudo, se torna vazia. Para que algo seja idêntico a si mesmo, ele precisa passar pelo confronto com o outro. Ou seja, identidade só existe na relação com a diferença. Esse movimento é dialético: a identidade se constitui ao se diferenciar e integrar essa diferença.

A alteridade, nesse jogo, tem um papel crucial. O outro não é apenas um espelho onde nos enxergamos, mas também um desafio, um obstáculo que nos obriga a nos transformar. Em "Fenomenologia do Espírito", Hegel descreve esse processo no famoso exemplo da dialética do senhor e do escravo. O reconhecimento do outro é uma batalha, um embate de consciências que lutam pelo direito de serem vistas. Identidade, portanto, não é um dado, mas algo que se conquista através do reconhecimento.

No cotidiano, vivemos esse movimento o tempo todo. Ao entrar em um novo grupo, nos perguntamos: quem sou eu aqui? Como sou visto? A resposta nunca é unívoca, pois somos sempre atravessados pelo olhar do outro. Hegel nos ensina que a identidade é fluida porque depende desse reconhecimento recíproco. Por isso, quanto mais nos fechamos em uma ideia fixa de nós mesmos, mais nos afastamos do próprio processo que nos define.

A grande lição hegeliana é que identidade e diferença não são opostas, mas parte de um mesmo movimento. O eu só é eu porque há o outro. A tensão entre identidade, diferença e alteridade é, no fim das contas, o que impulsiona a história e o desenvolvimento do espírito humano. Então, da próxima vez que discordar de um amigo sobre um filme, talvez seja bom lembrar: a diferença não nega a identidade, ela a faz existir.


quinta-feira, 20 de março de 2025

Morte e Imortalidade

Olhando para um retrato antigo de um bisavô desconhecido, me veio a pergunta inevitável: quem foi ele, o que pensou, o que sentiu? Se, por um lado, sabemos que a morte é uma realidade inescapável, por outro, algo dessa existência resiste ao tempo. Mas o que exatamente sobrevive? E o que significa ser imortal?

A resposta desta reflexão fui buscar junto a nosso mentor Hegel na sua dialética infinita, em sua vastidão especulativa, ele nos oferece uma resposta peculiar. Para ele, a morte não é apenas um fim, mas um momento necessário na dialética do espírito. Nada simplesmente desaparece; ao contrário, tudo se transforma e se eleva em um nível superior de compreensão e desenvolvimento.

Na Fenomenologia do Espírito, Hegel descreve a morte como um processo de superação (Aufhebung): uma negação da individualidade finita que, paradoxalmente, permite sua permanência em uma realidade mais ampla. O indivíduo morre, mas sua essência — suas ideias, seus atos, sua influência — permanece integrada no curso do espírito absoluto.

Isso significa que a imortalidade, na perspectiva hegeliana, não é um prolongamento infinito da existência individual, mas uma incorporação dessa existência no todo maior da história e da cultura. Nossa finitude não nos condena ao esquecimento; pelo contrário, é precisamente a morte que nos insere em um horizonte mais amplo, onde nosso ser encontra continuidade na consciência coletiva.

Se olharmos para os grandes pensadores, artistas ou revolucionários, percebemos que suas existências singulares desapareceram, mas suas contribuições continuam vivas. Napoleão, por exemplo, não é apenas um nome nos livros de história; ele é um momento do próprio desenvolvimento histórico. O mesmo se aplica a qualquer um de nós: à medida que impactamos o mundo, tornamo-nos parte de uma totalidade que transcende a nossa presença física.

No cotidiano, essa ideia se reflete em pequenas imortalidades: um conselho que damos e que molda a vida de alguém, um gesto de bondade que ecoa através das gerações, uma lembrança que persiste na memória de outros. A morte, longe de ser um apagamento absoluto, é um movimento dentro da própria vida do espírito.

Se aceitarmos essa visão, talvez a angústia da morte se transforme. Em vez de temê-la como um aniquilamento, podemos vê-la como um processo de transmissão e continuidade. Somos partes de algo maior, e a nossa imortalidade não está na repetição infinita da existência, mas na nossa inscrição na história do mundo.

Assim, ao olhar para o retrato do bisavô, percebemos que ele não desapareceu por completo. Ele sobrevive, transformado, em nós. A sua presença se refaz no nosso olhar, nos traços que herdamos, nas histórias que ouvimos sobre ele. A morte, em seu paradoxo dialético, é também uma forma de permanência.


sábado, 1 de março de 2025

Crise das Ideologias

Outro dia, no final da tarde, vi um senhor sentado na praça mexendo lentamente nas peças de um tabuleiro de xadrez solitário. Ele não estava jogando com ninguém, apenas reordenando as peças, talvez perdido em pensamentos. A cena parecia uma metáfora viva da nossa época: peças espalhadas, sem jogo, sem adversário, sem propósito claro. Vivemos um tempo em que as grandes ideologias, que antes davam uma narrativa ao tabuleiro da história, parecem ter perdido o fôlego.

A crise das ideologias não é apenas um fenômeno político, mas um estado de espírito. Antes, as grandes doutrinas – socialismo, liberalismo, nacionalismo – prometiam caminhos claros para o futuro. Cada uma oferecia uma explicação sobre o que é justo, sobre como o mundo deveria ser e sobre o lugar de cada indivíduo na sociedade. Hoje, essas promessas soam gastas, como slogans publicitários antigos.

A desilusão não veio de repente. Foi um desgaste lento, como uma parede que vai perdendo a tinta com o tempo. Os horrores do século XX, a globalização e a fragmentação cultural foram minando as certezas. O capitalismo venceu, mas sem festa de comemoração – apenas uma rotina cinzenta de consumo e desigualdade. O socialismo, por outro lado, sobrevive em nichos, mais como nostalgia do que como projeto viável. O nacionalismo ressurgiu, mas com uma máscara ressentida, mais preocupado em excluir do que em unir.

Mas o que acontece quando as ideologias desmoronam? O filósofo Zygmunt Bauman falava da modernidade líquida, uma época em que nada permanece sólido por muito tempo. Sem grandes narrativas para organizar o mundo, nos agarramos a causas fragmentadas, a identidades voláteis. As ideologias se transformaram em hashtags, em campanhas de curto prazo, em pequenas revoluções sem continuidade. A indignação ainda existe, mas é instantânea e volátil, como o conteúdo de um story no Instagram.

Talvez estejamos vivendo um momento de transição, uma pausa entre o que foi e o que ainda não sabemos nomear. A crise das ideologias não significa o fim das ideias, mas o fim das certezas dogmáticas. Pode ser um tempo de liberdade, mas também de angústia. O tabuleiro não está vazio porque o jogo acabou, mas porque estamos aprendendo novas regras, ou até mesmo inventando outro jogo.

N. Sri Ram, em A Aproximação Teosófica à Vida, falava sobre a necessidade de uma consciência mais ampla, capaz de unir o espírito crítico com a intuição profunda. Talvez essa seja a saída para a crise: não buscar uma nova ideologia para substituir as antigas, mas aprender a habitar o vazio, a conviver com a incerteza e a tecer novas visões que brotam mais da experiência do que de doutrinas prontas.

O senhor da praça continuava ali, mexendo nas peças, sem se importar se havia ou não regras definidas. Talvez o jogo agora seja justamente esse: mover as peças pelo puro prazer de pensar, sem esperar que alguém declare xeque-mate.