Eu sempre achei curioso como a gente tenta colocar etiquetas invisíveis em tudo que sente — como se as emoções fossem produtos de prateleira, com código de barras, validade e promoções relâmpago. Outro dia, enquanto esperava um café esfriar (é, às vezes um pouco de café na introdução escapa), fiquei pensando que talvez o grande drama humano seja que sentimos demais… e entendemos de menos. E nessa falta de entendimento, começamos a calcular, pesar, medir — como se alegria, tristeza, afeto e culpa fossem quantidades manipuláveis.
Afinal,
existe preço para os sentimentos?
O
valor que atribuímos ao invisível
Sentimentos
não têm valor intrínseco — eles possuem valor atribuído. Somos nós que
decidimos, consciente ou inconscientemente, quanto cada emoção “vale”. Para
alguns, o orgulho é caro; custa amizades inteiras. Para outros, a paz é valiosa
demais para ser trocada por discussões inúteis. É curioso como há quem pague
caro pela própria raiva, carregando ressentimentos que consomem anos de vida.
Nietzsche
toca
nesse ponto quando diz que o ser humano é um animal que pode fazer promessas.
Mas prometer não é só compromisso lógico — é também a capacidade de atribuir
valor ao futuro. E se atribuímos valor ao futuro, atribuímos também valor aos
sentimentos que nos movem até ele. Em outras palavras: somos contadores
emocionais.
Sentimentos
como moeda social
No
cotidiano, negociamos emoções o tempo todo. Pedimos desculpas esperando
reconciliação. Demonstramos carinho esperando reciprocidade. Reprimimos um
incômodo esperando evitar conflito. Até o silêncio tem preço — custa, às vezes,
nossa própria verdade.
Sociologicamente,
vivemos em uma espécie de “mercado afetivo”. O que damos e o que recebemos
formam trocas simbólicas. Marcel Mauss — o antropólogo do “Ensaio sobre
a Dádiva” — diria que toda oferta cria uma obrigação moral de retorno. E isso
vale também para gestos afetivos. Afinal, quem nunca sentiu que deu mais amor
do que recebeu? Ou que recebeu mais tolerância do que merecia? O equilíbrio
emocional raramente é justo; talvez porque sentimentos não seguem lógica
econômica, mas nós insistimos em tratá-los como se seguissem.
Quando
os sentimentos ficam caros demais
Há
momentos em que sentir parece custar caro. O luto custa presença. A saudade
custa sono. A esperança custa paciência. A autenticidade custa rejeição. O
amor, quando verdadeiro, quase sempre custa vulnerabilidade — aquele preço que
ninguém gosta de pagar, mas que é o único comprovante de que houve algo
genuíno.
N.
Sri Ram, dizia que “as emoções pertencem a um nível de
consciência que pode tanto obscurecer quanto revelar”. Em seu A Natureza da
Nossa Busca, ele lembra que o valor das emoções depende da direção que lhes
damos. Ou seja, não é o que sentimos, mas o que fazemos com o que sentimos que
determina seu “custo” na vida.
O
lucro e o prejuízo sentimental
Se
existe preço, também existe prejuízo. Carregar culpa demais nos endivida com o
passado. Viver de expectativas nos endivida com o futuro. Ignorar o que
sentimos nos endivida com nós mesmos. O “lucro” emocional, por outro lado, está
naquela rara percepção de que sentir algo — mesmo dolorido — nos fez crescer.
Afinal,
sentimentos não são moedas para acumular, mas experiências para atravessar. E a
travessia sempre cobra pedágio.
O
preço que vale a pena pagar
No
final, o preço dos sentimentos é o preço de estar vivo. Sentir é caro porque
viver intensamente é caro. Mas é o único caminho que não deixa saldo negativo.
Se existe alguma sabedoria nisso tudo, talvez seja perceber que não devemos
tentar fazer contabilidade emocional. Sentimentos são um fluxo, não uma
planilha.
O
que vale a pena pagar?
Aquilo
que nos transforma.
Talvez
seja essa a única “cotação” confiável da alma.