Entre o que Fica e o que se Transforma
A
cada virada de página da vida — um novo emprego, uma mudança de cidade, o
término de uma relação, a chegada de um filho — somos atravessados por um
sentimento ambíguo: deixamos de ser quem éramos, mas ainda não sabemos muito
bem quem estamos nos tornando. É nesse intervalo de incerteza que nasce a ideia
de uma nova identidade.
O
cotidiano nos oferece exemplos claros. O jovem que sempre se via como estudante
e, de repente, precisa se apresentar como “profissional”. A mulher que, ao ser
chamada de “mãe” pela primeira vez, percebe que esse título reorganiza todo o
seu modo de estar no mundo. Ou o aposentado que, após anos de rotina laboral,
se vê perdido entre a liberdade e o vazio de não ter mais a função que lhe dava
nome. Em todos esses casos, não se trata de trocar de pele como quem troca de
roupa, mas de se reconstruir a partir do que já se foi.
O
pensador brasileiro N. Sri Ram, em A Natureza da Nossa Busca
(1966), lembrava que a identidade não é um bloco fixo, mas um processo vivo de
autodescoberta. Para ele, cada etapa da existência exige que reconheçamos tanto
aquilo que permanece — a centelha íntima do ser — quanto aquilo que se
modifica, fruto das experiências. Assim, a “nova identidade” não é ruptura
total, mas continuidade transformada: como um rio que muda de curso, mas não
perde sua essência de água corrente.
Há,
porém, uma armadilha nesse processo. Muitas vezes confundimos identidade com
rótulo: ser “advogado”, “artista”, “mãe”, “militante”. Esses papéis nos ajudam
a organizar a vida social, mas tornam-se estreitos quando acreditamos que
esgotam quem somos. A nova identidade corre o risco de ser apenas uma troca de
máscara, sem mergulho no que realmente nos habita.
A filosofia, aqui, pode ser convite à coragem: assumir que mudar de identidade não significa perder-se, mas reconhecer que somos múltiplos e mutáveis. O eu de ontem não é idêntico ao de hoje, e ainda assim há um fio de continuidade que nos sustenta. O que nos constitui, talvez, não seja a fixidez, mas a capacidade de nos refazermos.
Assim, quando a vida nos coloca diante de uma nova identidade, a pergunta não deveria ser “quem eu sou agora?”, mas “como posso ser inteiro dentro dessa transformação?”. Porque, no fim, identidade não é um título que recebemos, mas um caminho que percorremos — e que nunca termina.