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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Niilismo Político

O vácuo como programa

Em política, o niilismo não é apenas a descrença nas instituições ou na boa-fé dos governantes — é a sensação mais funda de que não há horizonte, de que as categorias que antes orientavam o jogo político perderam sua força explicativa e sua capacidade de gerar engajamento. Não é o simples “não acreditar em nada”, mas perceber que o próprio “nada” foi eleito como plataforma, que a ausência de sentido virou método de governo e de oposição.

O cidadão, nesse cenário, é convidado a participar de eleições não como quem escolhe rumos, mas como quem assiste a uma encenação cuja trama já não importa. As ideologias tradicionais, da esquerda à direita, tornaram-se embalagens sem conteúdo, slogans repetidos com a mesma cadência que se repete um jingle publicitário — esvaziados de convicção. O voto se torna ato performático, e a militância, muitas vezes, um ritual de identidade, não de transformação.

O nada como poder

Nietzsche, ao falar do niilismo europeu, descrevia o esgotamento das forças criadoras de valores. O niilismo político contemporâneo é seu parente direto: instituições continuam funcionando formalmente, mas por dentro operam no modo automático, sem direção criativa. O poder, nesse contexto, se torna essencialmente administrativo — gerindo crises, remendando contradições, mas raramente imaginando o novo.

Peter Sloterdijk chamaria isso de cínico-realismo político: todos sabem que os discursos são frágeis, mas continuam a atuar como se acreditassem, porque a engrenagem precisa girar. O governante finge que governa com visão, o eleitor finge que acredita, e a mídia finge que a disputa de narrativas ainda é sobre o essencial. É um teatro de fachadas.

O niilismo como sociologia do desengajamento

Do ponto de vista sociológico, o niilismo político não nasce do nada. Ele é produto de processos de desencantamento (Max Weber), somados à saturação informativa que transforma a política em um fluxo contínuo de polêmicas efêmeras. A consequência é um cansaço democrático: não se luta contra o sistema, simplesmente se para de se importar.

Maurice Blanchot já havia intuído que o niilismo não é pura ausência, mas uma espécie de espera suspensa — o tempo em que nenhuma alternativa é crível e, por isso, toda ação parece inútil. A política, nesse limbo, perde a capacidade de mobilizar o coletivo para além de reações momentâneas.

Entre a rebelião e a desistência

Albert Camus advertiu que o niilismo puro pode se tornar cumplicidade com a opressão, já que, se nada vale, também não vale resistir. Por outro lado, ele reconhecia que o niilismo pode ser etapa de purificação — destruir valores mortos para abrir espaço para outros. O problema é quando essa destruição não é seguida de criação.

No Brasil, o niilismo político aparece no descolamento afetivo entre sociedade e instituições. É o cidadão que declara “todos são iguais” e se retira da arena, abrindo espaço para que quem deseja o poder pelo poder encontre terreno fértil. É o voto nulo que, longe de protestar, apenas dissolve a tensão.

Niilismo político no cotidiano: o espelho da apatia

No dia a dia, o niilismo político é visível nas conversas entre amigos que, mesmo preocupados com o país, terminam por dizer “não adianta nada mudar, vai continuar tudo igual”. Esse mantra de impotência não é só pessimismo; é sintoma de um esgotamento coletivo que atravessa as gerações.

Nas redes sociais, o niilismo se traduz em ironia e zombaria constante. Perfis dedicados a desmascarar políticos ou denunciar corrupção proliferam, mas em meio ao deboche, o desejo por soluções efetivas se perde. A viralização do cinismo torna o desengajamento uma espécie de cultura dominante, onde o engajamento real é substituído pelo compartilhamento fácil e passageiro.

Durante as campanhas eleitorais, o niilismo aparece nas abstenções e votos nulos, mas também na adesão a candidatos que prometem “quebrar tudo” ou “mudar o sistema” sem explicitar planos concretos. A esperança desesperada busca no espetáculo do conflito um sentido para sua própria desilusão.

O risco e a possibilidade

O risco óbvio é que o niilismo político seja ocupado por forças que oferecem uma pseudo-redenção: soluções fáceis, messianismos improvisados e inimigos imaginários. A história já mostrou que, quando o sentido é retirado, qualquer narrativa simplificadora ganha tração.

Mas há também uma possibilidade: se o niilismo político for encarado como diagnóstico, ele pode abrir espaço para a reinvenção da política não como espetáculo, mas como prática viva. Para isso, exige-se que atores sociais, movimentos e indivíduos consigam criar valores a partir do vazio — transformando a ausência de sentido em laboratório, não em ruína.