O vácuo como programa
Em
política, o niilismo não é apenas a descrença nas instituições ou na boa-fé dos
governantes — é a sensação mais funda de que não há horizonte, de que as
categorias que antes orientavam o jogo político perderam sua força explicativa
e sua capacidade de gerar engajamento. Não é o simples “não acreditar em nada”,
mas perceber que o próprio “nada” foi eleito como plataforma, que a ausência de
sentido virou método de governo e de oposição.
O
cidadão, nesse cenário, é convidado a participar de eleições não como quem
escolhe rumos, mas como quem assiste a uma encenação cuja trama já não importa.
As ideologias tradicionais, da esquerda à direita, tornaram-se embalagens sem
conteúdo, slogans repetidos com a mesma cadência que se repete um jingle
publicitário — esvaziados de convicção. O voto se torna ato performático, e a
militância, muitas vezes, um ritual de identidade, não de transformação.
O
nada como poder
Nietzsche,
ao falar do niilismo europeu, descrevia o esgotamento das forças criadoras de
valores. O niilismo político contemporâneo é seu parente direto: instituições
continuam funcionando formalmente, mas por dentro operam no modo automático,
sem direção criativa. O poder, nesse contexto, se torna essencialmente administrativo
— gerindo crises, remendando contradições, mas raramente imaginando o novo.
Peter
Sloterdijk chamaria isso de cínico-realismo político:
todos sabem que os discursos são frágeis, mas continuam a atuar como se
acreditassem, porque a engrenagem precisa girar. O governante finge que governa
com visão, o eleitor finge que acredita, e a mídia finge que a disputa de
narrativas ainda é sobre o essencial. É um teatro de fachadas.
O
niilismo como sociologia do desengajamento
Do
ponto de vista sociológico, o niilismo político não nasce do nada. Ele é
produto de processos de desencantamento (Max Weber), somados à
saturação informativa que transforma a política em um fluxo contínuo de
polêmicas efêmeras. A consequência é um cansaço democrático: não se luta
contra o sistema, simplesmente se para de se importar.
Maurice
Blanchot já havia intuído que o niilismo não é pura ausência,
mas uma espécie de espera suspensa — o tempo em que nenhuma alternativa
é crível e, por isso, toda ação parece inútil. A política, nesse limbo, perde a
capacidade de mobilizar o coletivo para além de reações momentâneas.
Entre
a rebelião e a desistência
Albert
Camus advertiu que o niilismo puro pode se tornar
cumplicidade com a opressão, já que, se nada vale, também não vale resistir.
Por outro lado, ele reconhecia que o niilismo pode ser etapa de purificação —
destruir valores mortos para abrir espaço para outros. O problema é quando essa
destruição não é seguida de criação.
No
Brasil, o niilismo político aparece no descolamento afetivo entre
sociedade e instituições. É o cidadão que declara “todos são iguais” e se
retira da arena, abrindo espaço para que quem deseja o poder pelo poder
encontre terreno fértil. É o voto nulo que, longe de protestar, apenas dissolve
a tensão.
Niilismo
político no cotidiano: o espelho da apatia
No
dia a dia, o niilismo político é visível nas conversas entre amigos que, mesmo
preocupados com o país, terminam por dizer “não adianta nada mudar, vai
continuar tudo igual”. Esse mantra de impotência não é só pessimismo; é sintoma
de um esgotamento coletivo que atravessa as gerações.
Nas
redes sociais, o niilismo se traduz em ironia e zombaria constante. Perfis
dedicados a desmascarar políticos ou denunciar corrupção proliferam, mas em
meio ao deboche, o desejo por soluções efetivas se perde. A viralização do
cinismo torna o desengajamento uma espécie de cultura dominante, onde o
engajamento real é substituído pelo compartilhamento fácil e passageiro.
Durante
as campanhas eleitorais, o niilismo aparece nas abstenções e votos nulos, mas
também na adesão a candidatos que prometem “quebrar tudo” ou “mudar o sistema”
sem explicitar planos concretos. A esperança desesperada busca no espetáculo do
conflito um sentido para sua própria desilusão.
O
risco e a possibilidade
O
risco óbvio é que o niilismo político seja ocupado por forças que oferecem uma
pseudo-redenção: soluções fáceis, messianismos improvisados e inimigos
imaginários. A história já mostrou que, quando o sentido é retirado, qualquer
narrativa simplificadora ganha tração.
Mas
há também uma possibilidade: se o niilismo político for encarado como
diagnóstico, ele pode abrir espaço para a reinvenção da política não como
espetáculo, mas como prática viva. Para isso, exige-se que atores sociais,
movimentos e indivíduos consigam criar valores a partir do vazio —
transformando a ausência de sentido em laboratório, não em ruína.