Às
vezes, a gente acorda, escova os dentes, pega o ônibus, bate ponto e volta pra
casa sem perceber que está vivendo dentro de um grande cenário montado. Um
cenário que parece natural, imutável, dado pela vida. Mas basta um pequeno
incômodo — um colega que ganha mais fazendo menos, um gerente que trata todos
como se fossem peças, ou aquele aumento no preço do supermercado que ninguém
comenta, mas todo mundo sente — para surgir aquela faísca: “pera aí… algo
aqui não faz sentido.”
Essa
faísca é o começo da consciência de classe.
Ela
aparece nos momentos mais banais. No churrasco de domingo, quando alguém solta:
—
“Se depender de nós, nada muda.”
E
outro retruca:
—
“Mas por que nós sempre carregamos o piano?”
Ou
naquele instante em que você percebe que os sonhos do RH — “aqui somos uma
família” — evaporam no mesmo segundo em que o corte de custos entra em cena e a
tal “família” vira uma estatística. A gente cresce acreditando que esforço
basta, que mérito resolve tudo, mas só até enxergar que o jogo tem regras que
não fomos nós que escrevemos.
A
consciência de classe não é uma raiva cega, nem uma ideologia de bolso. É mais
como ajustar a lente de uma câmera. De repente, aquilo que estava desfocado —
desigualdades, privilégios, repetições estranhas do cotidiano — aparece nítido.
Você entende que não está “sozinho no mundo”: você faz parte de um grupo com
condições, interesses e limites semelhantes. E que a tal “liberdade individual”
às vezes é só o nome bonito para um conjunto de escolhas pré-roteirizadas.
Karl
Marx,
claro, aparece aqui como aquele amigo que sussurra no nosso ouvido:
“A
gente não se dá conta de onde está inserido até perceber que as condições
moldam a própria forma como pensamos.”
Mas
o curioso é que a consciência de classe não nasce quando alguém lê Marx. Ela
nasce na fila do posto de saúde. No atraso do salário. No olhar cansado que
você troca com o motorista do ônibus às 6h. Na conversa com o colega que te
diz:
— “Nós trabalhamos no mesmo lugar, mas vivemos em mundos diferentes.”
E
aí você entende: a vida não é só o que acontece com você; é o que
acontece com todos que estão no mesmo barco. E, se o barco está furado,
não adianta um só aprender a nadar.
No
fim das contas, consciência de classe é isso: deixar de acreditar que tudo é
individual, perceber o coletivo escondido nas pequenas dores e nas pequenas
rotinas, e começar a nomear aquilo que antes era só um incômodo silencioso.
É
quando o cotidiano finalmente ganha legenda.