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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Consciência de Classe


Às vezes, a gente acorda, escova os dentes, pega o ônibus, bate ponto e volta pra casa sem perceber que está vivendo dentro de um grande cenário montado. Um cenário que parece natural, imutável, dado pela vida. Mas basta um pequeno incômodo — um colega que ganha mais fazendo menos, um gerente que trata todos como se fossem peças, ou aquele aumento no preço do supermercado que ninguém comenta, mas todo mundo sente — para surgir aquela faísca: “pera aí… algo aqui não faz sentido.”

Essa faísca é o começo da consciência de classe.

Ela aparece nos momentos mais banais. No churrasco de domingo, quando alguém solta:

— “Se depender de nós, nada muda.”

E outro retruca:

— “Mas por que nós sempre carregamos o piano?”

Ou naquele instante em que você percebe que os sonhos do RH — “aqui somos uma família” — evaporam no mesmo segundo em que o corte de custos entra em cena e a tal “família” vira uma estatística. A gente cresce acreditando que esforço basta, que mérito resolve tudo, mas só até enxergar que o jogo tem regras que não fomos nós que escrevemos.

A consciência de classe não é uma raiva cega, nem uma ideologia de bolso. É mais como ajustar a lente de uma câmera. De repente, aquilo que estava desfocado — desigualdades, privilégios, repetições estranhas do cotidiano — aparece nítido. Você entende que não está “sozinho no mundo”: você faz parte de um grupo com condições, interesses e limites semelhantes. E que a tal “liberdade individual” às vezes é só o nome bonito para um conjunto de escolhas pré-roteirizadas.

Karl Marx, claro, aparece aqui como aquele amigo que sussurra no nosso ouvido:

“A gente não se dá conta de onde está inserido até perceber que as condições moldam a própria forma como pensamos.”

Mas o curioso é que a consciência de classe não nasce quando alguém lê Marx. Ela nasce na fila do posto de saúde. No atraso do salário. No olhar cansado que você troca com o motorista do ônibus às 6h. Na conversa com o colega que te diz:
— “Nós trabalhamos no mesmo lugar, mas vivemos em mundos diferentes.”

E aí você entende: a vida não é só o que acontece com você; é o que acontece com todos que estão no mesmo barco. E, se o barco está furado, não adianta um só aprender a nadar.

No fim das contas, consciência de classe é isso: deixar de acreditar que tudo é individual, perceber o coletivo escondido nas pequenas dores e nas pequenas rotinas, e começar a nomear aquilo que antes era só um incômodo silencioso.

É quando o cotidiano finalmente ganha legenda.

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