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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Falsa Consciência

Como quem puxa uma cadeira e começa a pensar em voz alta

Às vezes, quando estou parado numa fila — banco, lotérica, cafeteria lotada numa segunda-feira — fico com a nítida impressão de que a consciência é essa voz que tenta atravessar o barulho do mundo para dizer: “ei, percebe isso aqui?” Não é uma iluminação mística, nem uma espécie de “download da verdade”, mas um tipo de vibração que surge quando alguma parte do cotidiano escapa do roteiro.

Pode ser um detalhe simples: o trabalhador que sorri mesmo cansado demais; a criança que faz uma pergunta inconvenientemente honesta; ou a sensação estranha de estar “funcionando” no dia, mas não exatamente vivendo. É nesses intervalos que a consciência fala — e, quando fala, nunca diz só sobre nós, mas sobre a estrutura inteira na qual estamos mergulhados.

É a partir desse ponto, quase banal, quase invisível, que começa qualquer reflexão séria sobre consciência.

 

O que é essa tal consciência?

Do ponto de vista filosófico, consciência é a capacidade que o sujeito tem de se perceber, pensar sobre si mesmo e reconhecer sua própria posição no mundo. Mas do ponto de vista sociológico, essa definição é apenas o primeiro degrau. A consciência não existe solta no ar; ela está sempre atravessada por forças sociais: classe, cultura, linguagem, instituições, moral, tecnologia, economia.

É como se cada pessoa carregasse duas consciências:

  1. A íntima, aquela voz interna que diz “eu”;
  2. A moldada, aquela que já chega ao mundo carregando valores, crenças e horizontes que a sociedade coloca dentro dela antes mesmo que ela perceba.

Entre essas duas, existe uma tensão constante.

 

A consciência que pensa que escolhe

A sociologia clássica, especialmente Durkheim, já alertava que muito do que tomamos como decisão individual é, na verdade, a internalização de fatos sociais. Nossa moral, nossos hábitos, o que achamos bonito ou feio, certo ou errado — tudo isso é menos “eu decidi” e mais “eu aprendi a decidir assim”.

Marx, por sua vez, aprofunda esse ponto ao afirmar que a consciência é uma construção histórica, profundamente influenciada pelas condições materiais. Em outras palavras:

não é a consciência que determina a vida, mas a vida social que molda a consciência.

É por isso que duas pessoas podem enxergar o mesmo fato de modos completamente diferentes: porque suas condições sociais estruturam até a forma como percebem o mundo.

 

A consciência desperta (ou o momento em que o cotidiano vira teoria)

Existe, porém, aquele instante crítico — quase sempre silencioso — em que a consciência percebe que era moldada. É o momento em que o sujeito entende que não é apenas um “eu” espalhado no tempo, mas um “eu situado”, atravessado por forças que operam de modo invisível.

Althusser chama isso de interpelação: o modo como as estruturas sociais nos chamam, nos nomeiam, nos posicionam. Quando percebemos isso, surge o que podemos chamar de uma consciência crítica.

Não é uma rebeldia explosiva, mas um deslocamento interno:

é quando você percebe que trabalha, consome, sonha e sofre dentro de sistemas que te antecedem — e que, sem perceber, você tem servido a lógicas que nunca escolheu.

 

A consciência como espelho e como ferida

Ter consciência é um espelho: você se vê.

Ter consciência crítica é uma ferida: você se vê e vê o que te atravessa.

Por isso tantos preferem não pensar muito. A consciência pode incomodar porque exige responsabilidade, exige posicionamento, exige lidar com o que até então ficava debaixo do tapete.

Hannah Arendt diria que pensar é perigoso não porque te torna radical, mas porque impede a banalidade — impede que você aja sem refletir. A consciência é, no fundo, uma convocação para deixar de ser automático.

 

Consciência e vida coletiva

Na sociologia contemporânea, a consciência aparece como um fenômeno relacional: ela cresce, expande-se, amadurece quando entra em contato com outras consciências. Não existe consciência verdadeira isolada. A reflexão nasce do choque, da convivência, da fricção.

É por isso que movimentos sociais, grupos culturais, sindicatos, coletivos e até pequenas comunidades têm um papel tão forte na formação da consciência: eles permitem que indivíduos percebam sua condição não como “falha pessoal”, mas como fenômeno estrutural.

Quando essa percepção se amplia, surge a consciência coletiva — aquela que Durkheim apontava como o cimento moral de uma sociedade e que Marx enxergava como potencial transformador quando orientada para a mudança estrutural.

 

Quando a consciência fala, o mundo responde

Ter consciência não resolve a vida, mas muda a maneira como se anda nela.
É como acender a luz de um cômodo onde você vivia tropeçando: os móveis são os mesmos, mas agora você enxerga.

A consciência não é uma resposta; é uma disposição permanente a perguntar.
Ela não é uma certeza; é a recusa de aceitar certezas prontas.
Ela não é um conforto; é um convite à liberdade — e liberdade, quase sempre, dói.

O que ela diz, no fundo, é simples:

“Olha de novo. Nada é tão natural quanto parece.”

E é nesse momento, justamente quando o cotidiano ganha estranhamento, que começa o caminho filosófico-sociológico da consciência — esse esforço de se perceber, perceber o outro, e perceber o mundo como algo que pode, sim, ser pensado, questionado e transformado.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Percepção Social

O espelho onde o outro nos devolve

Vivemos imersos em redes de relações, mas nem sempre percebemos que a forma como vemos o outro — e como somos vistos — molda profundamente a realidade social. A percepção social não é uma simples reação ao que os olhos captam; ela é carregada de interpretações, expectativas, estereótipos e afetos. Ela é, como escreveu o sociólogo Erving Goffman, uma espécie de "encenação", onde cada indivíduo apresenta uma versão de si mesmo conforme o palco social em que se encontra. Somos, nesse sentido, atores e espectadores ao mesmo tempo, sempre atentos às reações alheias.

Do ponto de vista filosófico, a percepção social toca uma questão antiga: o reconhecimento. Georg Wilhelm Friedrich Hegel já argumentava, na sua dialética do senhor e do escravo, que o ser humano só se constitui plenamente quando reconhecido pelo outro. A percepção social, então, não é apenas uma forma de conhecer o mundo — é também o campo onde buscamos validação, pertencimento, identidade.

Maurice Merleau-Ponty, filósofo da fenomenologia, chama atenção para o corpo como meio de percepção do mundo. Quando alguém cruza a rua ao nos ver, por exemplo, ou desvia o olhar num elevador, seu corpo comunica uma leitura social — muitas vezes inconsciente — de quem somos. Assim, a percepção social acontece tanto no discurso quanto no gesto, no olhar e no silêncio.

Na sociologia contemporânea, Pierre Bourdieu fala em “habitus”: um conjunto de disposições incorporadas que guiam nossa percepção do mundo social. O modo como julgamos alguém pela roupa, pela fala ou pelos modos, não é apenas preconceito individual — é o reflexo de uma estrutura social que nos treinou para “ver” as pessoas de determinadas formas. A percepção social, nesse caso, perpetua desigualdades porque naturaliza distinções simbólicas.

Em resumo, a percepção social é o filtro pelo qual navegamos o mundo e nele nos inserimos. Ela revela tanto nossas ideias sobre o outro quanto sobre nós mesmos. Ela pode aprisionar — quando cristaliza estereótipos —, mas também libertar — quando nos abre para enxergar o outro em sua complexidade. Como alerta Frantz Fanon: “Não sou prisioneiro da ideia que os outros têm de mim.” Mas, para isso, é preciso primeiro perceber que essa ideia existe — e nos afeta.